sexta-feira, 20 de julho de 2012

Velhos oportunismos e novas oportunidades

A polémica licenciatura do Ministro Miguel Relvas é só mais um episódio revelador do espírito da geração que atualmente domina os cargos políticos, governativos e empresariais do nosso país, e não é caso único. Longe disso. Bastaria lembrar o famoso exame de inglês técnico de José Sócrates e os projetos altamente duvidosos que assinava na Câmara da Covilhã, para percebermos que este tipo de atuação não é um exclusivo do PS ou do PSD.
Estes dois homens são paradigmas de uma geração que, abandonando todas as referências ideológicas que marcaram os séculos anteriores, cedo escolheram cuidadosamente uma juventude partidária que lhes permitisse ascender política e socialmente (com uma hesitação significativa no caso de Sócrates, que começa por ser militante da JSD e só mais tarde se junta ao PS). Aí aprenderam a ser homens de ação, inteiramente pragmáticos, sem se deixarem prender por questões ideológicas ou mesmo éticas, porque o que conta, afinal, são os resultados no imediato e a notoriedade que lhes abrisse as portas para voos mais altos dentro dos seus respetivos partidos.
Esta geração de políticos, na qual também poderíamos incluir, por exemplo, Paulo Portas e Santana Lopes, cada vez mais influenciados pelo crescente domínio do poder económico sobre o poder político, não se move já em função de uma determinada visão do futuro, nem é influenciada pelos grandes ideais, que considera obsoletos, mas sim pela frieza racional da gestão de empresas: o máximo lucro com o mínimo investimento.
Daí que, nem no caso de Relvas, nem no caso de Sócrates, seja surpreendente que tenham aproveitado a oportunidade de se licenciarem administrativamente. Se já se abandonou completamente os valores do esforço, da persistência, do estudo e do trabalho, porque não? As oportunidades são para se aproveitar!
Movidos por homens deste calibre, os dois partidos do centrão e, também o seu apêndice da direita, tornaram-se uma espécie de central de interesses particulares, metade agência de empregos, metade mercearia de favores, onde se confrontam os vários grupos e os interesses económicos que os financiam e que garantem aos respetivos dirigentes uma choruda posição num qualquer conselho de administração empresarial quando se esgotar a sua utilidade política.
A consequência é, obviamente, que na política praticada por estes três partidos, as pessoas são a última das considerações. Três exemplos bastam para o mostrar: Sócrates e o encerramento de hospitais e centros de saúde; Passos Coelho e o roubo à descarada dos subsídios de férias e de natal e o CDS, através de Pedro Mota Soares, que, perante um enorme aumento do desemprego, reduz o valor e a duração do subsídio de desemprego, pondo em riso a sobrevivência, mesmo, das famílias. Mas, perante a troika que por cá esteve recentemente a fazer mais uma “avaliação”, tentaram apresentar resultados, mostraram-se otimistas, confiantes, até. Pois, do seu ponto de vista, se calhar faz sentido…
Por cá as coisas nem são assim tão diferentes apesar do paleio mais adocicado do Presidente do Governo e do seu candidato a substituto. Na prática, estamos perante a mesma geração e a mesma total falta de escrúpulos. As viagens milionárias à América de membros do Governo Regional, com direito a aluguer de limusine a três mil euros por dia e tudo, ou as ajudas de custo pagas aos Secretários Regionais quando estavam na sua própria ilha são exemplos claros e paradigmáticos. Neste último caso, a coisa tornou-se verdadeiramente grotesca quando, na última sessão do Parlamento Regional, PS e PSD, atrapalhadamente, à pressa e sem sequer abrirem a boca para dizerem uma palavra que seja, foram alterar a lei que permitia esta vergonha. Fica bem claro que uns como outros têm os mesmos telhados de vidro.
Em 2006, sob o esperançoso nome de “Novas Oportunidades”, o defunto Governo de José Sócrates lançou a maior operação de camuflagem de desemprego de que há memória, encaminhando milhares de desempregados para formação profissional (o que, aliás, faz lembrar o que se passa por aqui, nos Açores, com a miríade de programas ocupacionais com que o Governo Regional tenta esconder os mais de 10.000 açorianos desempregados). Atualmente, o nosso Primeiro-Ministro acha que os desempregados têm de olhar para a sua situação como uma “oportunidade”. Não restam quaisquer dúvidas que, por trás de toda esta conversa de novas oportunidades o que se esconde é mesmo um velho oportunismo.

Texto publicado no Jornal Incentivo

2 comentários:

Anónimo disse...

Sera uma questão de geração ou sera feitio "latino do sul da europa", vizinho do magrebe, com origens arabes ? pense bem et compare com os paises civilizados da Europa do norte... Nobre povo, herois do mar, bla bla bla. Um pais que produz milhares de emigrantes, outra forma de oportunismo barateco (usufruir do que os outros produziram com ética ?). Vergonhoso.

cefariazores disse...

Quando falta a ética na vida pessoal, não há enquadramento ideológico ou outro que justifique a defesa de um político no seu cargo... diferente de defender ou não uma decisão política concreta.
Sou de opinião que nos Açores são milhares de desempregados hoje colocados em programas ocupacionais que, independentemente dos resultados eleitorais, deverão ficar desempregados de facto após as legislatvias... se não forem muitos outros para o desemprego e que hoje estão empregados