terça-feira, 7 de agosto de 2012

apanhados do clima

O verão e o calor que (finalmente) chegaram às nossas ilhas convidam-nos a descontrair, a deixar para trás as preocupações e tentar não pensar na falta que nos faz o subsídio de férias e nos bons velhos tempos em que o recebíamos.

Não apetecem os longos discursos e aborrecem-nos os telejornais. As cassetes do “isto anda cada vez melhor”, do Governo, e a do “isto vai de mal a pior”, da oposição, que sempre nos vão entretendo ao longo do resto do ano, nestes meses só nos causam um enorme fastio.

O calor faz mal à política. Basta dizer isto e toda a gente sabe que é verdade e nem é preciso recordar a abstenção gigante em referendos nacionais que foram marcados para solarengos fins-de-semana de praia, há alguns anos atrás, para sabermos que sempre foi assim.

Esta situação causa um problema grave a alguns dos políticos dos Açores. É que, com eleições para o Parlamento Regional marcadas para 14 de Outubro, estes meses de verão são preciosos para as longas e solenes declarações de pré-campanha eleitoral, antes que o estrondo e o habitual foguetório da campanha propriamente dita torne impossível seja quem for fazer-se ouvir. Este ano, a política não tira férias.

Assim, a Presidente da Câmara de Ponta Delgada, percebendo que os seus munícipes estavam a ficar um bocado fartos de a verem fazer tudo menos tratar do seu próprio concelho, lá foi obrigada a finalmente suspender o mandato. Mas, quando todos esperávamos que Berta Cabral fosse assumir o seu lugar de candidata a tempo inteiro, a intrépida líder do PSD, dá duas cambalhotas, e – surpresa! – afinal vai e já para Deputada.

A vantagem é tripla: Primeiro, Berta Cabral vai já moldando a almofada onde quase certamente irá ficar sentada nos próximos quatro anos. Depois, em Setembro vai ter um púlpito para conseguir mais uns preciosos minutos de televisão e, por último, ao tornar-se de repente Deputada, Berta Cabral mantém um salário simpático, podendo tranquilamente fazer campanha eleitoral paga com o dinheiro dos contribuintes.

No entanto, Berta Cabral acusa já o desgaste de uma pré-campanha que começou há muitos meses atrás. Porventura com a língua seca do calor e de tanto prometer mundos e fundos a toda a gente, a líder do PSD Açores, depois de uma reunião com pescadores, quando todos esperávamos que, como habitual, fosse prometer substituir a nossa frota por iates de última geração, com tripulação e mordomo incluídos, não conseguiu prometer melhor do que uma pobre “entidade reguladora” para as pescas (que não se sabe muito bem o que é, mas que parece coisa séria). Ficámos todos dececionados. Berta Cabral foi apanhada pelo clima.

Do lado do PS, as coisas também estão difíceis. O candidato, Vasco Cordeiro, sem férias como os outros, lá tem de seguir Carlos César, que mesmo quando está de férias tem um programa oficial para ser seguido por jornais e televisões. E, como cá pelo Faial, lá vão os dois, de inauguração em inauguração a todas as ilhas. Aí, o candidato, apesar de não poder discursar, sempre encontra um “jornalista” solícito, para recolher o seu comentário e o deixar brilhar na obra do parceiro. São uma equipa: Carlos discursa, Vasco aplaude; um inaugura, o outro comenta; ambos sempre a transbordar a confiança de quem pensa em favas contadas. Cuidado não vá todo este sol torná-las duras e amareladas, favas amargas para digerir em Outubro. Carlos César e Vasco Cordeiro arriscam-se a ser apanhados pelo clima.

Artur Lima, acossado pelo calor que se faz sentir, refugiou-se no conforto do ar condicionado da sala do plenário da Assembleia Regional, e sentiu a necessidade de proferir um longo sermão em que se esforçou para nos convencer que “o CDS é diferente do PSD”. É verdade. Há diferenças: enquanto o PSD rouba nos subsídios, o CDS corta nas pensões. Passos Coelho é louro e Paulo Portas moreno e…, assim de repente não me lembro de mais nenhuma. Ouvimo-lo, tentámos não adormecer e, na verdade, continuamos sem conseguir encontrar nenhuma diferença entre o CDS e o PSD, para além da direção das setas nos respetivos emblemas. A tentativa de nos pôr a jogar o “descubra as diferenças à direita” saiu-lhe chata e com pouca convicção. Artur Lima continua apanhado pelo clima.

Felizmente também temos políticos diferentes. Políticos menos conhecidos, que aparecem pouco na televisão, que às vezes vivem ao nosso lado, gente séria que, em todas as ilhas, com calma, sem histerias, aproveitando também o verão como qualquer um, mas que também discute soluções e prepara mudanças. Políticas e políticos daqueles que não se deixam apanhar pelo clima, que felizmente também os há.

Texto publicado no Jornal Incentivo

2 comentários:

Anónimo disse...

Há uma diferençazinha ente o candidato Cordeiro e o candidato Lima que não escapa a ninguém.
Na postura.
Não concorda?

Tiago R. disse...

É uma diferença demasiado subtil para se notar na maior parte das vezes.