sexta-feira, 17 de agosto de 2012

partidos escondidos com a plataforma de fora

A péssima atuação dos três partidos que estiveram no Governo nos últimos 30 anos, os compromissos que invariavelmente deixaram por cumprir; os incontáveis casos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências; os vertiginosos percursos académicos e profissionais dos seus dirigentes, saltando das cadeiras da universidade para cargos governativos e depois, sistematicamente, para os conselhos de administração de grandes empresas; têm contribuído para a difusão, na sociedade portuguesa, de um discurso demagógico e linear contra os partidos e contra “os políticos”.
Extrema-esquerda e extrema-direita repetem exatamente os mesmos chavões: “que os partidos são todos iguais”, “que os políticos são todos corruptos e oportunistas sem escrúpulos” no tom de qualquer disparate que se ouve no café e que se repete sem pensar. Virou moda.
É um atalho que evita a inteligência: Diz-se mal “dos partidos”, tentando poupar aos cidadãos o trabalho de pensar, de escolher, de distinguir entre os partidos e entre os políticos que são, de facto, muito diferentes uns dos outros. Basta olhar com olhos de ver.
Assim, também por cá, o PPM (do solitário monárquico corvino) e o PND (do bem conhecido Coelho da Madeira, que procura agora expandir as operações para os Açores) se lembraram de evitar esse peso negativo de serem “partidos” e de terem “políticos”, que por acaso até vivem da política, e apresentar-se às próximas eleições regionais com o sonoro nome de “Plataforma de Cidadania”.
Mentindo descaradamente aos eleitores, apresentam-se como um “movimento de cidadãos independentes” e tudo tentam para fazer esquecer a existência dos partidos que lhes dão entidade e suporte, dir-se-ia, envergonhados que estão de serem o que são.
E, assim, sucedem-se os disparates, com o candidato do Faial desta coligação-plataforma de partidos a dizer que “concorre contra os partidos”, que “a prática dos partidos é um garrote”, esquecendo-se de dizer que há algum tempo atrás não se importou nada de ser eleito (e, imaginamos, garrotado) por um outro partido.
E que forma propõem os “plataformistas” para combater estes maléficos “partidos” que concorrem em todas as eleições e que dominam o sistema político? Dar o poder aos seus próprios partidos disfarçados de plataforma, pois claro! Se me deixarem ser rei, também eu me torno monárquico!
Quando se unem em torno de uma ideia concreta, os cidadãos podem exercer um importantíssimo papel político, obrigando governos e maiorias a recuar e, no fundo, fazendo a democracia funcionar. Só que, neste caso, não só não há quaisquer cidadãos, como também não há ideias concretas para os unir. Foi por isso que muito antes de se preocupar em unir quaisquer cidadãos ou discutir qualquer ideia a plataforma tentou foi coligar PPM, PND e MPT, tendo este último partido acabado por afastar-se. Aqui há apenas o frio cálculo de engenharia eleitoral que lhes permita eleger, pelo menos um deputado.
Os problemas dos plataformistas residem no facto de os seus partidos terem nos Açores um apoio completamente residual e de não terem qualquer expressão na sociedade açoriana. O PPM luta contra o quase garantido desaparecimento político, pois sabe que a distração que lhe permitiu com 75 votos eleger um deputado na ilha do Corvo dificilmente se repetirá. O PND, pelo seu lado, procura meter o pé nos Açores, repetindo a façanha que conseguiu na Madeira, graças ao papel de bobo da corte do seu antigo líder, José Manuel Coelho.
Parece que também aterrou nos Açores por estes dias mais um partido que também joga tudo na suposta originalidade e que também na Madeira conseguiu eleger um Deputado e ganhar uma subvenção do Estado para financiar uma tentativa de expansão para os Açores: o Partido dos Animais, PAN. Os recém-chegados dirigentes do PAN começaram logo a demonstrar o seu total e absoluto desconhecimento da realidade açoriana ao confundir touradas à corda com touradas de praça, como se fossem a mesma coisa. A novidade saiu-lhes ignorância…
Lutando contra a inexistência política, estes partidos tentam jogar no efeito de inovação, falando de uma “nova postura” e de uma “nova política”, esquecendo que a mentira é ainda mais velha do que os próprios políticos que, sendo, tanto dizem detestar. Sob a cobertura da novidade esconde-se uma velha, velha ambição de poder a qualquer custo. Há partidos e políticos bons e há partidos e políticos maus. Cabe aos eleitores informarem-se, distinguirem uns dos outros e escolherem. Não há atalhos, nem caminhos fáceis que poupem esse esforço aos cidadãos. Em democracia não.

Texto publicado no Jornal Incentivo

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