sexta-feira, 14 de setembro de 2012

um tempo novo


Os tempos mudaram. A relação entre o Estado e os cidadãos neste país alterou-se de forma definitiva e, estejamos melhor ou pior informados, mais ou menos preocupados com pagar o empréstimo à troika, a verdade é que todos o sentimos.
Depois de dois anos de cortes, impostos extraordinários e aumento dos ordinários, reduções na despesa do Estado, encerramentos de serviços, aumentos de contribuições e taxas, cortes de subsídios considerados inconstitucionais, mas aplicados à mesma, as notícias desta última semana foram, para muitos de nós, a gota de água.
Aquela parte dos portugueses que aceitaram as anteriores medidas de austeridade com base na promessa de que seriam as últimas ficou certamente sem palavras quando ouviram o Ministro das Finanças na televisão.
Como sem palavras ficaram todos os que antes defendiam a ação do governo PSD/CDS e a imposição de sacrifícios, chegando ao absurdo de, nos últimos dias, absolutamente ninguém, nem dos próprios PSD e CDS, vir defender publicamente as medidas tomadas pelo Governo.
Percebe-se. A necessidade de tomar medidas, ainda para este ano nalguns casos, é o reconhecimento do falhanço absoluto da política de austeridade que PS, PSD e CDS subscreveram e que Passos Coelho e Paulo Portas aplicaram com zelo fanático. Falhou o controlo do défice, falharam os objetivos da redução da despesa, falhou o aumento da receita do Estado e, a verdade que agora entra pelos olhos de todos os portugueses dentro é que estamos agora muito pior do que há dois anos atrás. Mais pobres, mais endividados, a produzir e a consumir muito menos, com empresas as cada vez mais perto da falência.
A esta situação o Governo, incapaz de reconhecer o falhanço da sua política, responde com a maior transferência direta de dinheiro dos trabalhadores para o capital bancário de que há memória na história de Portugal, acentuando o ciclo da recessão, sabendo de antemão que apenas irá piorar o défice, reduzir a receita do Estado, empobrecer deliberadamente os portugueses. Depois de todas as promessas esquecidas, de todos os compromissos traídos a evidência para cada vez mais portugueses é que o Governo quer falhar.
Depois dos últimos anúncios de novas medidas de austeridade, não é mais possível pensar que o Estado é uma entidade fiável, sólida, que assume responsabilidades e cumpre compromissos. É o próprio contrato social, o cimento que nos une enquanto sociedade, com obrigações e direitos para cada um dos seus membros, que se rasga e se destrói sem que seja muito claro, afinal, que tipo de sociedade é que se quer por no seu lugar.
O consenso, se é que ainda existia, em torno do memorando de entendimento com a troika e a base social de apoio dos três partidos que o subscreveram morreu e a questão torna-se cada vez mais clara para os portugueses: a solução dos problemas do país não passa já pela mera substituição de um Governo do PSD por um outro, parecido como sempre, do PS. Sabemos todos já que a austeridade “mata” do PS não é alternativa à austeridade “esfola” do PSD. Ao contrário de outrora, o descontentamento social não encontra já alívio temporário no voto alternado e rotativo entre os partidos do centrão.
Ainda bem. Pode abrir-se então assim um tempo novo para Portugal. Podemos, finalmente libertos da inevitabilidade previsível do rotativismo e do seu discurso formatado, abordar a sério as grandes questões: O que queremos de uma sociedade? Que direitos? Que deveres? Que justiça? O que é que queremos do Estado e o que é que exigimos aos seus governantes? E, talvez mais importante, a grande pergunta que se coloca a todo e qualquer cidadão de uma sociedade democrática: O que é que estamos dispostos a fazer para que se cumpra a nossa vontade? 

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