sábado, 6 de outubro de 2012

a vida aqui não é fácil


A vida aqui nunca foi fácil. Os antigos sabiam-no bem. Foi à força de braço e de teimosia de alma que os que há 560 e tal anos começaram a afluir à protecção das encostas do perfil de dragão desta ilha aprenderam a tirar riqueza das pedras, que afinal escondiam fértil terra e que encontraram ventura na veja, na lapa e na moira e no mais que as ondas salgadas trazem a estas costas.
Foi duro. Esta ilha não era para fracos. Desviar a pedra, arrancar o mato, quebrar a onda, através da neblina, apesar do ciclone, apesar do corsário ou da tropa – inimigos que não se distinguem – sofrendo imposto, corveia e dízimo para, depois do vulcão, depois do abalo, recomeçar tudo do nada outra vez. Partilhava-se o pão, sempre escasso, em sopas simples que, de serem tão generosamente humanas, só podiam ser santas, como santo só pode ser este espírito que faz os homens iguais, irmanados nas alegrias e adversidades.
Nos longos invernos das ditaduras, sobrando tanto silêncio forçado nas gargantas e saudades tamanhas dos que se safaram a coberto, fugindo a sortes e levas para guerras cujos ecos mal cá chegavam. Por aqui ficou a fome, dura, mas também a determinação, muito mais dura, dos homens de pedra que fizeram São Jorge.
Não há mal que sempre dure nem Janeiro que não termine e na primavera de esperança que, súbita, também aqui chegou viva e vermelha, de novo se levantaram vozes e festas, se ergueram bandeiras e vontades, transformando a ilha e a vida. Ergueram-se escolas e fábricas, rasgaram-se estradas e portos, prometendo acabar para sempre com todos os invernos.
Mas depressa chegaram novos corsários, impecáveis de gravatas e palavras caras, juros, spreads e moras, prometendo abundâncias mas acabando por levar, afinal, rendas, prédios e cabedais, como os corsários sempre fizeram. A chuva de ouro da Europa que tinham prometido, nunca viria a cair sobre a ilha. Levaram-na os ventos da política para outras paragens. Por cá, ficou a chuva de sempre e o lento abandono. E recomeçou a invernar em São Jorge.
A terra continuou a dar o mesmo, às vezes até mais, mas esse mesmo e esse mais deixaram de merecer valor que pague sustento que baste. O mar continuou a encher anzois generosos mas que agora pouco valem no mercado grande da avidez dos intermediários e distribuidores. A justa revolta dos homens da terra e do mar foi silenciada de novo, desta vez à força de subsídios e ameaças veladas, em vez das bastonadas francas de outrora.
Agora, uma vez por ano, um carnaval de promessas invade a ilha, com um animado corso de membros do Governo Regional, vasculhando as freguesias à procura de promessas que possam deixar por cumprir ou para reprometer o que ainda não cumpriram. Depois da Terça-feira Gorda do governo, vem a Quarta-feira de Cinzas da oposição. Chegam outros políticos, de olhar mais duro e palavras mais ásperas, criticando o pouco que os primeiros fizeram e prometendo fazer eles tudo o que os outros deixaram por fazer. Um festival que diverte, mas que há muito tempo não anima, porque os jorgenses sabem bem que dali só vêm palavras, vento que não traz nem verões, nem a gente que partiu, nem o progresso que se atrasa.

Acabou-se a produção, reduziu-se a riqueza, fechou a loja, encerrou a empresa, minguou o emprego. E os mais novos começaram a abalar outra vez, deixando desertas estas encostas de tanta promessa. O futuro ganha-se, hoje como há 500 anos, à força de braço e teimosia de trazer o sustento para casa. A vida aqui não é fácil. Os mais novos sabem-no bem.
 
Texto publicado no Jornal O Breves

2 comentários:

Anónimo disse...

Incoerente com as politicas do PCP, que foram sempre favoraveis ao endividamente. Ainda agora o PCP e' contra a austeridade o que na pratica faz com que seja por mais divida. Se que nao o dizem, tem vergonha.

Tiago R. disse...

Onde é que o endividamento ou o PCP são para aqui chamados?

Em todo o caso, para si só há investimento com endividamento crónico? Então não investimos, é isso?

Levante essas palas, homem!