sexta-feira, 12 de outubro de 2012

das fábulas eleitorais à realidade dos factos


A campanha eleitoral para o Parlamento Regional foi como se esperava disputada e intensa. As narrativas políticas contadas aos eleitores foram muitas, de todos os géneros e para todos os gostos. Houve a confusa fábula dos cidadãos plataformistas que, coitados, se sentem oprimidos pelos partidos políticos e, por isso, decidem paradoxalmente juntar-se a dois partidos políticos, PPM e PND, mantendo uma aliança que só na longínqua ilha do Corvo têm a coragem de assumir com outro partido político, o PSD. Não foi com certeza fácil explicar isto aos eleitores e muitos deles, entre os quais me incluo, ainda não conseguiram perceber muito bem.

Houve a lenga-lenga popular da esquerda elegante que aparece agora, às vezes pela primeira vez, nas ilhas a repetir mecanicamente que tem soluções para os problemas dos Açores, apesar de os seus dois deputados as terem mantido bem guardadas e secretas durante os quatro tranquilos anos que passaram no Parlamento Regional. Será é que desta que irão apresentar as tão maniacamente repetidas soluções?

Houve a estória infantil do pequenino CDS que, comendo muitas papas de demagogia e grandes biberons de desinformação política, conseguiu vencer o medo de submarinos e crescer e até já vai pensando no que quer ser quando for grande: muleta do PS ou muleta do PSD? Que importa? Há-de ser parte da decisão, seja com Deus ou com o Diabo ou com quem estiver pelo meio, senão… faz birra!

Houve o torturado poema surrealista da candidata do PSD que, apesar de não gostar nada do Governo do PSD nem da sua política, sofre a agrura de ser também Vice-Presidente desse mesmo PSD. Mesmo com o seu intenso drama interior, Berta Cabral já parece mais sorridente nos últimos dias, liberta que está do peso do milhão de promessas que nunca poderia cumprir, já que a voz sempre sinistra do Ministro das Finanças (também ele do PSD, veja-se), com três penadas de austeridade, fez a vitória fugir por entre os dedos ao do PSD. 

E é sem dúvida incontornável falar do poema sinfónico, em tom maior, do PS que, feliz de poder finalmente atirar com culpas próprias e alheias para Lisboa, já não tem que se preocupar assim tanto com a avaliação que os açorianos fazem do seu governo. O PS começou então a lançar os foguetes de uma vitória que esteve bastante tremida e a sonhar poder continuar a mandar sozinho e continuar a tecer pacientemente a teia de consciências compradas, favores trocados e ameaças mais ou menos veladas que desde 1996 lhe seguram o eleitorado que os mantém no poder.

Alimentada pela miragem de uma possível mudança de Governo e pela presença de doze candidaturas no terreno, esta campanha eleitoral obrigou a que as máquinas partidárias dos três partidos do costume redobrassem esforços e abrissem cordões à bolsa para camisolas a eito e jantares de fartura, tentando encher cadeiras de comícios e inchar ambições de poder. 

Obrigou a que, um pouco por toda a parte, os velhos caciques locais se encarniçassem a arrebanhar, a perseguir ou – quando tudo o resto falha – a ameaçar eleitores contrários e hesitantes, para tentarem segurar os respetivos eleitorados dos melífluos apelos para mudarem de sentido de voto.

E, com muito mais notoriedade, obrigou a que os líderes se esganiçassem, metralhando promessas e profetizando futuros felizes e coloridos – ora rosa, ora laranja – para os afortunados açorianos que tão boa vida vão ter daqui para a frente. Sorte a nossa!

Mas a verdade é que também houve outra campanha, diferente, que abordou de frente os problemas que temos de resolver se queremos ter alguma esperança no futuro e que colocou a cada um dos cidadãos dois desafios essenciais: recuperar o rendimento das famílias e retomar a Autonomia que o Governo de Carlos César entregou ao de Passos Coelho. Sem superar estes dois obstáculos, pura e simplesmente não há nenhuma esperança de os Açores retomarem um rumo de crescimento. 

Para o conseguir é preciso não embarcar nem nas falsas promessas nem nos perigos e erros do poder absoluto de um só partido. Aníbal Pires a nível regional e João Decq Motta aqui no Faial, ao lado de gente de todas as ilhas, deram rosto e voz a uma alternativa, real, que pode pesar decisivamente no destino dos Açores. Pense nisso.

Texto publicado no Jornal Incentivo

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