No meio da modorra informativa da
nossa crise – em que já quase nada nos surpreende e em que a única verdadeira
novidade acaba por ser a tranquilidade e falta de vergonha cada vez maiores com
que o Governo nos vai ao bolso – passaram meio despercebidas as notícias de uma
nova campanha de bombardeamentos israelita sobre a Faixa de Gaza.
Conflitos no Médio Oriente não
são exactamente novidade, mas a ferocidade deste ataque e o total desrespeito
pela população civil palestiniana atingiram um patamar que ainda não
conhecíamos.
Imaginem uma cidade de 365
quilómetros quadrados (pouco mais do dobro do Faial), mas onde se acotovelam
1,7 milhões de pessoas, 4657 habitantes por quilómetro quadrado. Para se fazer
uma ideia de quão impressionante é esta densidade populacional basta recordar
que a da área metropolitana de Lisboa é de 952 por quilómetro quadrado.
As bombas israelitas,
supostamente apontando para militantes do movimento Hamas, caem aparentemente
ao acaso sobre os prédios de habitação, a todas as horas do dia e da noite,
atingindo famílias que dormem e outros civis inocentes. Depois de sete dias de
bombardeamento, as vítimas mortais já se contavam muito acima da centena,
incluindo muitas mulheres e crianças.
A população, cercada, não pode
abandonar o território e panfletos israelitas lançados de avião aconselham-nos
a deixar as suas casas e a concentrarem-se em escolas e hospitais, que a fúria
militar de Israel tem, até agora, poupado. Reservistas de Israel, entretanto,
concentram-se aos milhares junto às fronteiras, preparando uma provável invasão
terrestre da Faixa de Gaza.
O facto de terem caído alguns
rockets em território israelita, não chega para explicar uma operação militar
desta envergadura mas, esta guerra já faz muito mais sentido, se pensarmos que,
no próximo dia 29 de Novembro, a Assembleia-Geral da ONU aprovará, ao que se
espera, o reconhecimento da Autoridade Palestiniana como Estado-Observador,
dando uma grave machadada nas pretensões de Israel de eliminar o Estado Palestiniano.
Mas este quadro sinistro fica
ainda mais completo se olharmos para a história recente de Israel. Nos últimos
anos, todas as eleições legislativas de Israel são precedidas de conflitos
graves. Assim foi com as eleições de 2006, que decorreram já durante a escalada
que levou à Segunda Guerra do Líbano; assim foi em 2009, em que as eleições ocorreram
em Fevereiro de 2009, tendo sido precedidas de outra campanha de ataques e
bombardeamentos que começaram em Dezembro 2008. As razões para o atual crescendo
de violência israelita ficam, assim, muito mais claras quando pensamos que as
próximas eleições para o Parlamento de Israel irão decorrer a 22 de Janeiro do
próximo ano. A verdade é que tem sido a chantagem da guerra que tem mantido a
direita sionista mais radical no poder.
Num momento em que tanto se fala
de “rogue states” (estados fora-da-lei), valia a pena avaliar com cuidado a actuação de um país que se recusa a cumprir as Resoluções do Conselho de
Segurança da ONU e mesmo os acordos que assina; um país que possui um arsenal
nuclear desconhecido, porque recusa as visitas obrigatórias dos inspectores da
Agência Internacional da Energia Atómica; um país que possui minorias étnicas
(árabes israelitas) que são discriminadas pela lei e pela prática dos actos; um
país que ataca em águas internacionais navios com ajuda humanitária para a
Palestina e, sobretudo, um país que tem uma postura político-militar agressiva
e que é um foco permanente de instabilidade para a Região. Não o fazer equivale
a considerar como lixo todo o Direito Internacional e assumir que, para a
comunidade internacional existem dois pesos e duas medidas, consoante se é ou
não, aliado dos Estados Unidos.
Israel viola tranquilamente todos
os princípios básicos do direito internacional porque sabe que conta com a
conivência, quando não com a cumplicidade activa, dos regimes ocidentais. As
nossas democracias modernas toleram e apoiam um regime que está assumidamente empenhado no genocídio da população palestiniana, até porque o
que boa parte da opinião pública dos nossos países se tem mantido em silêncio.
A violência que tem sido cometida
sobre a Faixa de Gaza nos últimos dias é demasiado grave para que nos possamos
declarar neutrais. Se as vítimas são palestinianos, o crime é contra a
Humanidade e, por isso, toca-nos a todos. Basta de silêncio.
23 Nov. 2012

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