Quem esperava surpresas do
Programa do novo Governo Regional desenganou-se.
O documento que foi discutido na
Assembleia Regional compõe-se de 200 e tal chatíssimas páginas de frases
redondas e às vezes bem polidas, mas muitas outras vezes nem por isso e,
sobretudo, encharcadas na gíria da moderna gestão de empresas: Clusters, start-ups, spin-offs, business
angels, mentoring, incubadoras de
empresários e berços de empresas, e outras palavras difíceis de entender mas
que sempre soam a uma modernidade importada, que tarda em chegar aqui.
O problema é que, para lá da
cópia infantil das expressões que se encontram nas primeiras páginas de
qualquer manual escolar de economia, muito pouco se descortina do que é que o
Governo pretende fazer, afinal, para resolver o principal problema com que nos
debatemos no dia-a-dia.
Desemprego? Para o governo não há
desemprego. Há “incertezas sobre as
variáveis macroeconómicas” e “um
crescimento do emprego, em média de 5% por legislatura antes dos efeitos
conjunturais dos últimos tempos”.
Para recuperar esse “crescimento
do emprego”, o que nos propõe o Governo? Abrir linhas de crédito,
financiamentos e incentivos para que as empresas consolidem a sua dívida
bancária. Portanto, continuar, bem ao gosto da troika, a enterrar os fundos
públicos na banca, na mesma banca que, nos dias que correm, se recusa a
emprestar um cêntimo para a economia real. É bom para as grandes empresas, as
outras que se amanhem!
Desemprego jovem? Para o Governo,
os jovens têm de desistir dessa ideia antiquada de ter um emprego fixo e
receber um salário ao fim do mês. Se não querem morrer de fome ou viver à conta
dos pais até aos 40, os jovens açorianos têm agora de ser todos empresários e
criar o seu próprio posto de trabalho. Daí, para resolver o “não-problema” do
desemprego juvenil, o que o Governo tem é mais e mais cursos, incubadoras (seja
lá o que isso for…) e muitos, muitos, gabinetes de apoio ao empreendedorismo
para dar emprego (à moda antiga) aos bons rapazes da juventude partidária do
Governo. Para os outros, a mensagem do Governo é, em português correto:
amanhem-se!
Para resolver as contas da Região
– outro dos nossos grandes problemas – a solução do Governo é vender os dedos
para salvar os anéis e, por isso, assume que pretende aumentar as receitas
privatizando as empresas regionais.
Entre elas, foi anunciada a
privatização da Conserveira Santa Catarina. Não foi há muito tempo que o
Governo regionalizou a empresa, assumindo as enormes dívidas de uma gestão
privada ruinosa e salvando aqueles que as criaram de terem de as pagar.
Naquela que foi uma intervenção
positiva, salvaguardaram-se os postos de trabalho, modernizou-se a gestão,
ampliou-se a produção e criaram-se produtos de qualidade, com uma marca que
começa a ser bem conhecida muito para lá do mercado das ilhas.
Agora, que a fábrica é de novo rentável
– e se o não é, do ponto de vista dos resultados financeiros, isso deve-se
apenas à pesada dívida que ainda hoje está a pagar – o Governo vai privatizá-la
outra vez. É assim: os lucros ficam para os amigos, os prejuízos paga-os o
erário público!
Pode ser que daqui a quatro anos
estejamos a discutir outra vez a nacionalização de uma fábrica conserveira
descapitalizada e arruinada e a ouvir dizer que o Governo vai salvar, mais uma
vez, os mesmos ou outros maus gestores das dívidas que criaram.
Também a solução dos problemas da
marina e do porto das Velas ficaram esquecidos e até o depósito de combustíveis
que constava no Programa Eleitoral do PS deixou de constar, de forma explícita,
no Programa de Governo.
Passadas as eleições e recolhidos
os votos é já tempo de o Governo meter as promessas no saco e dizer, também aos
jorgenses: amanhem-se!

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