domingo, 2 de dezembro de 2012

Amanhem-se!


Quem esperava surpresas do Programa do novo Governo Regional desenganou-se. 

O documento que foi discutido na Assembleia Regional compõe-se de 200 e tal chatíssimas páginas de frases redondas e às vezes bem polidas, mas muitas outras vezes nem por isso e, sobretudo, encharcadas na gíria da moderna gestão de empresas: Clusters, start-ups, spin-offs, business angels, mentoring, incubadoras de empresários e berços de empresas, e outras palavras difíceis de entender mas que sempre soam a uma modernidade importada, que tarda em chegar aqui.

O problema é que, para lá da cópia infantil das expressões que se encontram nas primeiras páginas de qualquer manual escolar de economia, muito pouco se descortina do que é que o Governo pretende fazer, afinal, para resolver o principal problema com que nos debatemos no dia-a-dia.

Desemprego? Para o governo não há desemprego. Há “incertezas sobre as variáveis macroeconómicas” e “um crescimento do emprego, em média de 5% por legislatura antes dos efeitos conjunturais dos últimos tempos”
Para recuperar esse “crescimento do emprego”, o que nos propõe o Governo? Abrir linhas de crédito, financiamentos e incentivos para que as empresas consolidem a sua dívida bancária. Portanto, continuar, bem ao gosto da troika, a enterrar os fundos públicos na banca, na mesma banca que, nos dias que correm, se recusa a emprestar um cêntimo para a economia real. É bom para as grandes empresas, as outras que se amanhem!

Desemprego jovem? Para o Governo, os jovens têm de desistir dessa ideia antiquada de ter um emprego fixo e receber um salário ao fim do mês. Se não querem morrer de fome ou viver à conta dos pais até aos 40, os jovens açorianos têm agora de ser todos empresários e criar o seu próprio posto de trabalho. Daí, para resolver o “não-problema” do desemprego juvenil, o que o Governo tem é mais e mais cursos, incubadoras (seja lá o que isso for…) e muitos, muitos, gabinetes de apoio ao empreendedorismo para dar emprego (à moda antiga) aos bons rapazes da juventude partidária do Governo. Para os outros, a mensagem do Governo é, em português correto: amanhem-se!

Para resolver as contas da Região – outro dos nossos grandes problemas – a solução do Governo é vender os dedos para salvar os anéis e, por isso, assume que pretende aumentar as receitas privatizando as empresas regionais. 

Entre elas, foi anunciada a privatização da Conserveira Santa Catarina. Não foi há muito tempo que o Governo regionalizou a empresa, assumindo as enormes dívidas de uma gestão privada ruinosa e salvando aqueles que as criaram de terem de as pagar. 

Naquela que foi uma intervenção positiva, salvaguardaram-se os postos de trabalho, modernizou-se a gestão, ampliou-se a produção e criaram-se produtos de qualidade, com uma marca que começa a ser bem conhecida muito para lá do mercado das ilhas. 

Agora, que a fábrica é de novo rentável – e se o não é, do ponto de vista dos resultados financeiros, isso deve-se apenas à pesada dívida que ainda hoje está a pagar – o Governo vai privatizá-la outra vez. É assim: os lucros ficam para os amigos, os prejuízos paga-os o erário público!
Pode ser que daqui a quatro anos estejamos a discutir outra vez a nacionalização de uma fábrica conserveira descapitalizada e arruinada e a ouvir dizer que o Governo vai salvar, mais uma vez, os mesmos ou outros maus gestores das dívidas que criaram.

Também a solução dos problemas da marina e do porto das Velas ficaram esquecidos e até o depósito de combustíveis que constava no Programa Eleitoral do PS deixou de constar, de forma explícita, no Programa de Governo.

Passadas as eleições e recolhidos os votos é já tempo de o Governo meter as promessas no saco e dizer, também aos jorgenses: amanhem-se!

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