sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o renascer da esperança


O contexto de crise em que vivemos sufoca-nos. A sucessão de notícias sempre más – a economia, o desemprego, os sacrifícios, os cortes, o custo de vida, cada vez piores – fazem com que evitemos pensar muito no futuro que se apresenta sempre em tons sombrios. Baixamos a cabeça e focamo-nos apenas na nossa realidade imediata, concentrando forças na nossa própria sobrevivência, sem outras considerações que só serviriam para nos levar à angústia ou à revolta. 

A crise seca-nos por dentro e impede que nos apercebamos que de cada vez que se fecha uma porta, abre-se uma janela. E se é verdade que tanta coisa é destruída por esta maldita crise, também é verdade que traz com ela as sementes de um futuro diferente. 

A necessidade aguça o engenho e a sobrevivência obriga-nos à redescoberta e reinvenção de velhas práticas e soluções que, afinal, têm algo de positivo. O desemprego e o custo de vida estão a levar a que se redescubra a agricultura, se reinvista na produção local de alimentos, se reencontre a utilidade, mas também o gosto, da pequena horta no quintal e o prazer inimitável de comer alimentos que plantámos com as nossas próprias mãos. Bom para o país, bom para o planeta, bom para nós mesmos.

As dificuldades crescentes fazem com que as gerações – antes separadas pelos horários de trabalho impossíveis – se reaproximem, solidárias, revalorizando a rede de apoio que nos dá uma família alargada, revalorizando também o papel da terceira idade, os seus saberes e contributo para a sobrevivência familiar. Rompe-se assim com o modelo da família nuclear isolada, característico dos últimos trinta anos e começamos a recuperar uma das nossas características identitárias fundamentais. 

Mas os efeitos da crise trazem também o embrião de uma nova cidadania. Já não se consegue viver como antes, alheado, desinformado e desinteressado das coisas da economia e da governação do país. Cada vez mais procuramos informar-nos, estar a par, formar a nossa opinião e emitir o nosso julgamento sobre a atuação dos governantes. Estamos a começar a exigir mais dos nossos políticos, em vez de nos refugiarmos no alheamento de outros tempos. 

Muitos, muitos portugueses, nos últimos dois anos, assinaram pela primeira vez um abaixo-assinado, fizeram uma greve, participaram numa manifestação ou, apenas, fizeram “like” num qualquer protesto numa rede social. O importante é que, saídos do tradicional distanciamento em relação “às coisas da política”, cada vez mais portugueses estão dispostos a agir para construírem um país melhor. O desastre nacional está a forçar-nos a sermos cidadãos melhores, mais atentos e mais exigentes, afinal, uma exigência de qualquer regime democrático. 

Este é porventura o fator decisivo porque, se houver uma saída para a crise, se houver um futuro melhor, ele só pode ser construído por nós, cidadãos, trabalhadores, produtores da riqueza que como portugueses partilhamos e donos da soberania que como portugueses afirmamos. Debaixo do céu de chumbo da crise e da austeridade move-se já a vontade de um povo que não tem outra opção senão retomar as rédeas do seu próprio destino. 

É difícil sonhar neste duro presente – e no entanto é preciso. Talvez mais do que antes, talvez mais do que nunca, necessitamos desesperadamente de uma luz condutora, de uma nova esperança que nos aponte o caminho para dias melhores.

A esperança existe e é justamente dela que nos fala também esta quadra. Celebramos o nascimento de uma criança pobre, há mais de dois mil anos atrás, como um símbolo desta capacidade que nos define como seres humanos: a esperança num mundo melhor e a vontade de agir para o tornar realidade.

Texto publicado no Jornal Incentivo
21 Dez. 2012

1 comentário:

Anónimo disse...

qual esperanca, e' obvio que vai ficar tudo muito pior, e so olhar para as contas publicas, mesmo muito pior

ninguem faz contas? desemprego de 20% aqui vamos