O contexto de
crise em que vivemos sufoca-nos. A sucessão de notícias sempre más – a
economia, o desemprego, os sacrifícios, os cortes, o custo de vida, cada vez
piores – fazem com que evitemos pensar muito no futuro que se apresenta sempre
em tons sombrios. Baixamos a cabeça e focamo-nos apenas na nossa realidade
imediata, concentrando forças na nossa própria sobrevivência, sem outras
considerações que só serviriam para nos levar à angústia ou à revolta.
A crise
seca-nos por dentro e impede que nos apercebamos que de cada vez que se fecha
uma porta, abre-se uma janela. E se é verdade que tanta coisa é destruída por
esta maldita crise, também é verdade que traz com ela as sementes de um futuro
diferente.
A necessidade
aguça o engenho e a sobrevivência obriga-nos à redescoberta e reinvenção de
velhas práticas e soluções que, afinal, têm algo de positivo. O desemprego e o
custo de vida estão a levar a que se redescubra a agricultura, se reinvista na
produção local de alimentos, se reencontre a utilidade, mas também o gosto, da
pequena horta no quintal e o prazer inimitável de comer alimentos que plantámos
com as nossas próprias mãos. Bom para o país, bom para o planeta, bom para nós
mesmos.
As dificuldades
crescentes fazem com que as gerações – antes separadas pelos horários de
trabalho impossíveis – se reaproximem, solidárias, revalorizando a rede de
apoio que nos dá uma família alargada, revalorizando também o papel da terceira
idade, os seus saberes e contributo para a sobrevivência familiar. Rompe-se
assim com o modelo da família nuclear isolada, característico dos últimos
trinta anos e começamos a recuperar uma das nossas características identitárias
fundamentais.
Mas os efeitos
da crise trazem também o embrião de uma nova cidadania. Já não se consegue
viver como antes, alheado, desinformado e desinteressado das coisas da economia
e da governação do país. Cada vez mais procuramos informar-nos, estar a par,
formar a nossa opinião e emitir o nosso julgamento sobre a atuação dos governantes.
Estamos a começar a exigir mais dos nossos políticos, em vez de nos refugiarmos
no alheamento de outros tempos.
Muitos, muitos
portugueses, nos últimos dois anos, assinaram pela primeira vez um
abaixo-assinado, fizeram uma greve, participaram numa manifestação ou, apenas,
fizeram “like” num qualquer protesto numa rede social. O importante é que,
saídos do tradicional distanciamento em relação “às coisas da política”, cada
vez mais portugueses estão dispostos a agir para construírem um país melhor. O desastre
nacional está a forçar-nos a sermos cidadãos melhores, mais atentos e mais
exigentes, afinal, uma exigência de qualquer regime democrático.
Este é porventura
o fator decisivo porque, se houver uma saída para a crise, se houver um futuro
melhor, ele só pode ser construído por nós, cidadãos, trabalhadores, produtores
da riqueza que como portugueses partilhamos e donos da soberania que como portugueses
afirmamos. Debaixo do céu de chumbo da crise e da austeridade move-se já a
vontade de um povo que não tem outra opção senão retomar as rédeas do seu
próprio destino.
É difícil
sonhar neste duro presente – e no entanto é preciso. Talvez mais do que antes,
talvez mais do que nunca, necessitamos desesperadamente de uma luz condutora,
de uma nova esperança que nos aponte o caminho para dias melhores.
A esperança existe
e é justamente dela que nos fala também esta quadra. Celebramos o nascimento de
uma criança pobre, há mais de dois mil anos atrás, como um símbolo desta
capacidade que nos define como seres humanos: a esperança num mundo melhor e a
vontade de agir para o tornar realidade.
21 Dez. 2012
1 comentário:
qual esperanca, e' obvio que vai ficar tudo muito pior, e so olhar para as contas publicas, mesmo muito pior
ninguem faz contas? desemprego de 20% aqui vamos
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