sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

um governo de esquerda


Na cobertura mediática do Congresso do PCP, que decorreu no início deste mês de Dezembro, todas as atenções dos jornalistas, o enfoque de todas as reportagens e o motivo de todos os comentários políticos centraram-se, de forma quase obsessiva, na pergunta hipotética se estaria o PCP disponível ou não para uma aproximação ao PS, para integrar “um governo de esquerda”. 

Entende-se com facilidade a inquietação. Uma coligação, ou pelo menos um entendimento, entre PS, PCP e BE seria uma espécie de bomba atómica política, fazendo pender definitivamente para a esquerda a balança política do país e deixando o governo PSD / CDS no mais profundo isolamento político e social e sem qualquer espécie de sustentação para terminar o seu mandato, ou mesmo, esperanças de regressar ao poder nos próximos anos.

No entanto, ao correrem atrás de uma possibilidade teórica, a maior parte dos órgãos de comunicação social acabou por esquecer aqueles que são os conteúdos reais da resposta a essa pergunta, e foi pena que o fizessem porque, olhando bem, foi justamente isso que esteve em discussão no Congresso do PCP: o que é uma política de esquerda para Portugal neste momento? O que é, afinal, um Governo de esquerda?

Será que um Governo de esquerda pode aceitar que as grandes decisões que afetam os portugueses sejam tomadas pelos tecnocratas estrangeiros da troika?

Será que um Governo de esquerda pode permitir que o essencial da riqueza que se cria em Portugal seja desviado para pagar juros de uma dívida que não foram os portugueses que criaram, engordando os bancos estrangeiros, em vez de desenvolver a economia nacional?

Será que um Governo de esquerda pode continuar a desbaratar o património do Estado, privatizando por tuta e meia as nossas empresas mais estratégicas e lucrativas?

Será que um Governo de esquerda é só um outro Governo, parecido ao de direita, mas mais simpático, aplicando a mesma austeridade, mas em versão “light” e com um ar mais compassivo para com os desempregados e os portugueses pobres?

Será que um Governo de esquerda é só uma maneira mais agradável de fazer os portugueses engolirem a mesma pílula de empobrecimento forçado e de abdicação da soberania nacional?

Se estivessem estado atentos ao Congresso, os jornalistas e comentadores políticos saberiam que a resposta do PCP foi clara: Não. Para o PCP, um governo de esquerda é outra coisa.

Um governo de esquerda, para o PCP, será o que se empenhe em três objetivos essenciais e determinantes para o futuro do país: Primeiro: resgatar Portugal da teia de submissão e dependência externa, rejeitando o pacto com a troika e renegociando a dívida. Segundo: Recuperar para o país o que é do país: os seus recursos, os seus sectores e empresas estratégicas, o seu direito ao crescimento económico e ao desenvolvimento e à criação de emprego. Terceiro: Devolver aos trabalhadores e ao povo os seus salários, rendimentos e direitos sociais, tendo como objetivo uma vida digna para todos.

Uma convergência entre partidos políticos tem de ter substância, ideias e propostas concretas, sob pena de ser só um cálculo de engenharia eleitoral para chegar ao poder. Não são as siglas; são as políticas que definem se um governo é de esquerda ou nem por isso.

A memória recente das desastrosas políticas de José Sócrates, o posicionamento inseguro de Seguro e a incapacidade do PS de se clarificar perante as questões essenciais que se colocam à esquerda portuguesa é que são os grandes obstáculos a uma convergência dos três partidos. 

O PCP definiu-se, claramente: Está não só disponível como empenhado em criar este governo de esquerda. E o PS estará? 

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