Na cobertura mediática do Congresso
do PCP, que decorreu no início deste mês de Dezembro, todas as atenções dos
jornalistas, o enfoque de todas as reportagens e o motivo de todos os
comentários políticos centraram-se, de forma quase obsessiva, na pergunta
hipotética se estaria o PCP disponível ou não para uma aproximação ao PS, para integrar
“um governo de esquerda”.
Entende-se com facilidade a
inquietação. Uma coligação, ou pelo menos um entendimento, entre PS, PCP e BE
seria uma espécie de bomba atómica política, fazendo pender definitivamente para
a esquerda a balança política do país e deixando o governo PSD / CDS no mais
profundo isolamento político e social e sem qualquer espécie de sustentação
para terminar o seu mandato, ou mesmo, esperanças de regressar ao poder nos
próximos anos.
No entanto, ao correrem atrás de
uma possibilidade teórica, a maior parte dos órgãos de comunicação social
acabou por esquecer aqueles que são os conteúdos reais da resposta a essa
pergunta, e foi pena que o fizessem porque, olhando bem, foi justamente isso
que esteve em discussão no Congresso do PCP: o que é uma política de esquerda
para Portugal neste momento? O que é, afinal, um Governo de esquerda?
Será que um Governo de esquerda
pode aceitar que as grandes decisões que afetam os portugueses sejam tomadas
pelos tecnocratas estrangeiros da troika?
Será que um Governo de esquerda
pode permitir que o essencial da riqueza que se cria em Portugal seja desviado
para pagar juros de uma dívida que não foram os portugueses que criaram,
engordando os bancos estrangeiros, em vez de desenvolver a economia nacional?
Será que um Governo de esquerda
pode continuar a desbaratar o património do Estado, privatizando por tuta e
meia as nossas empresas mais estratégicas e lucrativas?
Será que um Governo de esquerda é
só um outro Governo, parecido ao de direita, mas mais simpático, aplicando a
mesma austeridade, mas em versão “light” e com um ar mais compassivo para com
os desempregados e os portugueses pobres?
Será que um Governo de esquerda é
só uma maneira mais agradável de fazer os portugueses engolirem a mesma pílula
de empobrecimento forçado e de abdicação da soberania nacional?
Se estivessem estado atentos ao
Congresso, os jornalistas e comentadores políticos saberiam que a resposta do
PCP foi clara: Não. Para o PCP, um governo de esquerda é outra coisa.
Um governo de esquerda, para o
PCP, será o que se empenhe em três objetivos essenciais e determinantes para o
futuro do país: Primeiro: resgatar Portugal da teia de submissão e dependência
externa, rejeitando o pacto com a troika e renegociando a dívida. Segundo: Recuperar
para o país o que é do país: os seus recursos, os seus sectores e empresas
estratégicas, o seu direito ao crescimento económico e ao desenvolvimento e à
criação de emprego. Terceiro: Devolver aos trabalhadores e ao povo os seus
salários, rendimentos e direitos sociais, tendo como objetivo uma vida digna
para todos.
Uma convergência entre partidos
políticos tem de ter substância, ideias e propostas concretas, sob pena de ser
só um cálculo de engenharia eleitoral para chegar ao poder. Não são as siglas;
são as políticas que definem se um governo é de esquerda ou nem por isso.
A memória recente das desastrosas
políticas de José Sócrates, o posicionamento inseguro de Seguro e a
incapacidade do PS de se clarificar perante as questões essenciais que se
colocam à esquerda portuguesa é que são os grandes obstáculos a uma
convergência dos três partidos.
O PCP definiu-se, claramente:
Está não só disponível como empenhado em criar este governo de esquerda. E o PS
estará?

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