sexta-feira, 25 de maio de 2012

a esquerda transgénica

Há poucas semanas atrás, o Parlamento Regional aprovou a proibição do cultivo de plantas geneticamente modificadas e declarou os Açores como região livre de transgénicos (OGM).

Em boa hora o fez, porque começavam a surgir solicitações de alguns agricultores, especialmente em São Miguel, para plantarem milho geneticamente modificado, enganados pela promessa de grãos mais resistentes e colheitas mais abundantes. Mas a verdade é que os efeitos dos transgénicos sobre os solos e sobre os ecossistemas ainda não foram devidamente estudados, existindo um risco gravíssimo de contaminação de campos adjacentes e de perda de biodiversidade, o que, é fácil de compreender, poderia ser um desastre para o ecossistema das nossas ilhas e para os próprios agricultores, no fim de contas.

Por outro lado, estas culturas foram concebidas para um tipo de agricultura extensivo e virado para a grande produção indiferenciada, pelo que não há qualquer vantagem em introduzi-las nos Açores, onde a dimensão das propriedades não o justifica e onde a qualidade e características específicas dos produtos agrícolas o desaconselham. A proibição do cultivo de OGM’s surge assim como uma óbvia medida de precaução, protegendo a nossa biodiversidade, o nosso património agrícola e talvez mesmo a nossa saúde.

Não foi surpreendente que a direita, assumindo a sua habitual fidelidade às multinacionais (da agro-indústria, neste caso), votasse contra esta proibição. Nada de novo. No entanto, para grande surpresa de todo o Parlamento, ao CDS e ao PSD juntou-se, estranhamente, o Bloco de Esquerda. Uma posição inacreditável, se levarmos em conta o radicalismo do seu discurso contra os transgénicos, chegando até a manifestar público apoio aos marginais que, no continente, há poucos anos atrás, se andaram a dedicar a destruir campos suspeitos de estarem plantados com OGM.

Mas o BE Açores resolveu somar a demência à incoerência, ao vir afirmar publicamente que PS e PCP tinham “legalizado a introdução de OGM nos Açores”, invertendo completamente a realidade dos factos e mentindo descaradamente e sem um pingo de escrúpulo ou de vergonha. Uma atitude que só pode ser explicada por um agudo ataque de partidarite e ciumeira política por não terem sido os próprios a apresentar a proposta, até porque o argumento que invocam – estarem contra que seja eventualmente possível, em certas condições laboratoriais controladas, fazer investigação científica sobre OGM – é um disparate absurdo que não merece duas linhas.

Este assunto é demasiado sério para andar a ser jogado ao sabor dos interesses político-eleitorais do BE ou de seja quem for, e no entanto, assim parece ter sido tratado pelo Parlamento. Na sequência de uma petição de cidadãos, o PCP apresentou um Projeto de Resolução recomendando ao Governo a proibição dos transgénicos. Antes mesmo dessa proposta ser votada, o Governo apareceu com uma proposta que cumpria plenamente esse objetivo. Em função disso, o PCP fez o que tinha de fazer: retirou a sua própria proposta, porque o importante era a proteção do nosso arquipélago dos efeitos nocivos das culturas transgénicas, não o colher de louros ou o hastear de bandeiras a pensar nas próximas eleições. O BE não acompanhou mas, em boa verdade, que importa? Só fez falta quem lá esteve e o importante é que os Açores estão legalmente livres de OGM’s.

No laboratório de Louçã e Zuraida Soares o BE acabou por sofrer uma estranha mutação genética. Depois de diversas crises e transformações, esta esquerda bloquista acabou por se distanciar completamente das causas de esquerda que estiveram na sua fundação, agarrada a um radicalismo infantil e obcecada pelos resultados eleitorais, que se tornaram o princípio e o fim da sua ação política.

O BE Açores não é diferente, mas a isto soma também um profundíssimo desconhecimento da realidade do nosso arquipélago. A prová-lo está o fato de os deputados do BE, em quatro anos de mandato, nunca terem posto o pé fora de São Miguel, Terceira e Faial, não tendo visitado a título oficial nenhuma das restantes ilhas. Só agora, em ano de eleições, é que parece que a sua líder regional vai finalmente visitar a Graciosa, arriscando-se porventura a que lhe perguntem: agora é que apareces?

Os transgénicos foram finalmente proibidos. Falta agora proibir a demagogia. Seja ela de direita ou de esquerda.

Texto publicado no Jornal Incentivo
25 Maio 2012

E no Diário Insular
26 de Maio 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

o mar das banalidades

Andamos todos já com os ouvidos um bocado cheios de ouvir falar sobre o mar e sobre a sua importância estratégica para o desenvolvimento dos Açores e de Portugal no seu conjunto.

Da extrema-direita caritativa que por cá temos, à extrema-esquerda bem-educada que gostava de cá chegar; do Presidente da República ao Governo e a todas as bancadas da oposição chegou uma súbita febre marinheira de, por tudo e por nada e em todas as questões, meter-se mar adentro com palavras sonantes cheias de visão de futuro.

Entenda-se: não desvalorizo os problemas da política marítima e a sua importância. Mas… foi só agora que estes responsáveis políticos repararam naquela coisa molhada e azul que cerca as nossas ilhas por todos os lados? Nunca tinham notado que o que compram no supermercado lhes chega por navio e que as nossas exportações nesse mesmo navio saem para outras paragens? Que é por aí e por causa desse mesmo mar que os turistas aportam às nossas costas? Não me digam que só agora perceberam que há para aí barcos – de outros pavilhões que não o nosso, claro – que enchem porões de ouro em forma de peixe?

Nem é que não goste de ouvir as frases inspiradoras sobre o nosso futuro brilhante de potência marítima, mas olho à volta e não percebo. Não percebo como é que reduzimos a nossa frota, deixando para outros as abundantes e rendosas capturas que ainda se vão fazendo, por cá e no longínquo, e entregando a gestão desse nosso futuro brilhante aos burocratas de Bruxelas e aos lóbis que os controlam. Mas, entretanto, cada vez mais diminuto se vai tornando o rendimento dos (cada vez mais raros) pescadores profissionais que, apesar de agora terem de pagar contribuições para a segurança social como se fossem grandes armadores, nem a miséria da compensação pelo mau tempo têm direito a receber a tempo e horas.

Não consigo perceber como é que agora, de repente, nos viramos para o mar depois de tantos anos de olhos postos só no continente europeu, destruindo a construção naval e desmantelando a capacidade mercante.

Também não entendo como é que uma potência marítima em ascensão, como somos nas palavras destes políticos não tem, nem vai ter tão cedo, um mínimo de meios de fiscalização no mar, deixando, e acontece, os desconsolados polícias marítimos a observar de terra os infratores tranquilamente impunes.

Não consigo entender como é que valorizamos e protegemos toda esta riqueza, quando empurramos para o estrangeiro os nossos melhores cientistas, mantendo-os em precariedade perpétua, bolsa atrás de bolsa até aos 60 anos de idade, mas recebendo muito menos do que receberiam, aqui ao lado, no resto da Europa.

Não faz grande sentido – ou mesmo sentido nenhum – que afinal a vocação marítima dos Açores seja travada, ou taxada pesadamente, porque o Instituto dos Transportes Marítimos, que tem a competência para certificar embarcações, não tem uma delegação nos Açores e qualquer licença implica demoras, despesas e deslocações de técnicos, tudo pago a peso de ouro, já se sabe.

Mas há muitos mais paradoxos nesta grande região marítima. Então, não é que em vez de servir para incentivar o turismo e a atividades turístico-marítimas, a SATA, afinal, aproveita para cobrar mais uma taxa extra a quem quiser transportar material de mergulho com menos de 20 quilos?

Não. Por mais que tente, não percebo. A menos que seja outro o mar de que falam esses empolgados responsáveis. Talvez não falem deste Mar dos Açores, que há tanto tempo nos alimenta e nos une, mas sim de um grande Mar de Banalidades para nos distrair.

Texto publicado no Jornal Incentivo

11 Maio 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

a preguiça regional

A imagem ao lado é tristemente exemplificativa do que se passa em tantas das comissões parlamentares da nossa Assembleia Regional. com todo um mês para discutir uma iniciativa a Comissão de Economia nem deu parecer nem pediu prorrogação do prazo, limitando-se a deixar boiar a iniciativa. Registe-se que também quase todos os Conselhos de Ilha seguiram o mau exemplo.

Aliás, basta uma vista de olhos às iniciativas que estão na Assembleia para perceber que este não é caso único. Pelo contrário torna-se cada vez mais a regra geral à medida que as preocupações de muitos deputados se viram para a eleição que se aproxima, deixando em águas de bacalhau a governação dos Açores. Lamentável!

os três da troika

Não alegra, mas sempre vai servindo para distrair, a música pré-eleitoral que os candidatos dos três partidos da troika cá nos Açores já nos vão cantando diariamente.

O animado trio, compõe-se de Berta Cabral: agarrada a uma desatinada concertina, que ora acerta ora afina; Vasco Cordeiro: bufando num antiquado bombardino, lembrando as glórias do passado para não ter de falar na falta de soluções para o futuro; e, ainda, Artur Lima encarniçando-se num cavaquinho que julga ser um violão.

Em qualquer esquina ou auditório das nossas ilhas se juntam e atacam com ganas o seu variado repertório, para ver se conseguem arranjar público, até porque anda cada vez mais difícil isto de fazer as pessoas esquecer os seus problemas reais, que andam cada vez piores, e pô-las a dançar ao som da mesma música de sempre.

Arrancam às vezes com o seu êxito mais recente, que se chama “Berta estás à janela” de 4 horas a que ficou reduzida a RTP Açores, uma canção cheia de lirismo, mas que deixa por explicar como é que é pela mão de um Governo do PSD, que se anda sempre a pôr em bicos de pés, autoproclamando-se como “pai da Autonomia”, que voltamos ao tempo da outra senhora em termos de televisão no nosso arquipélago. Ainda há poucos dias atrás, no Congresso do PSD Açores, Berta Cabral recebeu de braços abertos e declarou apoio e fidelidade ao Primeiro-Ministro do Governo que vai destruir a RTP Açores, despedindo ainda não se sabe quantos dos seus profissionais e deixando na obscuridade as notícias das ilhas mais pequenas, que de certeza não vão caber no apertado telejornal de 20 minutos. Programas de tanta importância e audiência como o “Bom Dia Açores” são para acabar, demonstrando que o PSD e o seu Governo não percebem nada, nem querem perceber, da realidade das nossas ilhas. Por isso é que, ainda que com uns acordes triunfantes, as melodias de Berta Cabral soam sempre a falso.

Outras vezes é a jovem promessa, Vasco Cordeiro, a chegar-se à frente para entoar, carregado de saudosismo, o velho sucesso político: “oh tempo, volta p’ra trás”, para o tempo em que o PS ainda estava no Governo da República e havia fundos europeus e nacionais para gastar à tripa forra em almoços, jantares e campanhas eleitorais bem pagas e melhor servidas. Para o PS, agora, a vida está mais difícil. Começa a perceber-se o tamanho dos buracos que deixa nas contas regionais, na saúde, nas estradas, nos apoios sociais, criteriosamente distribuídos consoantes as prioridades eleitorais, nos subsídios sempre à mão para dar uma força a um ou outro “bom rapaz” socialista. Nós estranhamos estas dívidas todas porque, por cá, não se tem visto assim tanto investimento. Pois… mas se calhar tem sido sobretudo daquele tipo de investimento que não convém que se veja… Por isso, bem puxa Vasco Cordeiro pelo seu famoso vozeirão, apesar de saber muito bem que consegue arrancar cada vez menos aplausos.

Por último, o cavaquinho de Artur Lima entoa um fadinho choroso, “coitadinhos dos reformados” a quem o ministro do CDS congelou as reformas, cortou os apoios e tirou as isenções nos medicamentos, mas tem muita pena deles. A troika mandou, o CDS queria poleiro e tinha de obedecer. Mas repete que tem muita pena. Com a responsabilidade de ser apenas eterno candidato a estrela do espetáculo, Artur Lima é o mais encarniçado dos três parceiros, cantando sempre e em toda a parte, quer lhe peçam que cante, quer lhe supliquem que se cale por um minuto só, esperando que a persistência esganada sempre consiga trazer mais um ou dois aplausos numa plateia meio vazia.

Conhecemos bem – de ginjeira! – esta música que nos cantam de quatro em quatro anos. Mas, a verdade, é que apesar do entusiasmo dos três executantes, a sua música soa-nos sempre exatamente ao mesmo e faz-nos cada vez menos felizes. Não será já mais do que tempo de mudar de músicas e, necessariamente, de artistas?

Texto publicado no Jornal O Breves

terça-feira, 8 de maio de 2012

com a pança cheia de crescimento

Como as coisas anda cada vez pior pela velha Europa, o Conselho Europeu já não reúne, janta.

Imagina-se que as iguarias possam ser uma forma de animar um pouco o tom cada vez mais soturno e melancólico dos discursos sobre a situação de cada um dos estados membros, discursos que a nós, pagantes vítimas da austeridade, fariam certamente perder o apetite. Mas não aos famintos chefes de estado e de governo da UE. Na ementa: o crescimento económico, promissor, imediato e saída dourada do imbróglio desastroso em que a UE se mergulhou. No entanto, o chef Durão Barroso, sempre adepto das doses reduzidas, já vai avisando que não quer entusiasmos excessivos, que crescimento a mais faz mal à consolidação orçamental....


segunda-feira, 7 de maio de 2012

o caminho dos socialistas

Isto é o que acontece aos socialistas quando se juntam à direita. E o PS vai, bem Seguro, pelo mesmo caminho.