sexta-feira, 26 de outubro de 2012

o ecrã apagado do Faial


As eleições regionais permitiram aos responsáveis da Câmara Municipal da Horta um período de alguma tranquilidade, em que pareceu aliviar-se um pouco o descontentamento dos faialenses com a actuação da sua autarquia, voltadas que estavam todas as atenções para o estrondo das campanhas eleitorais, para o bulício dos porcos no espeto e jantares à borla e para o fausto das inaugurações das obras grandiosas do Governo Regional. 

Assim, passaram de forma mais ou menos discreta as inundações na cidade – de um miserável terceiro mundismo – e pouca gente se lembrou de vir lembrar que o engavetado projecto do saneamento básico servia justamente para evitar este tipo de ocorrências e que as opções da maioria camarária são directamente responsáveis pelos danos e prejuízos destas e das próximas inundações.

Igualmente, no meio do frenesim das bandeirinhas, folhetos e camisolas, por entre o barulho dos roufenhos carros-de-barulho-eleitoral, os olhos e os narizes dos faialenses pareceram já nem reparar nas montanhas de lixo, por baixo das quais estarão os contentores que a eficaz gestão do município deixa semanas seguidas por recolher.

Também não se falou muito da auditoria do Tribunal de Contas à dívida municipal, que revela claramente como o PS, mal se apanhou a mandar sozinho, conseguiu a proeza de duplicar o endividamento camarário e de aumentar ainda mais as dívidas de curto prazo aos fornecedores, ao mesmo tempo que cancelava projectos e adiava “sine diae” obras fundamentais para o futuro da nossa ilha. 

Se as razões deste desastre financeiro não se percebem, sempre ajuda a que percebamos muito bem porque é que o Faial perde cada vez mais peso no PIB regional, descendo de 7,2% para apenas 6,6% da riqueza dos Açores, embora valha a pena dizer que, no fim de contas, todas as ilhas descem, à excepção de Santa Maria e – claro está! – São Miguel, o que também nos dá uma boa imagem do que significa, afinal, Coesão para o Partido Socialista. 

Não chega para amenizar o nosso descontentamento a notícia do milhão de Euros que a Câmara adjudicou à Tecnovia para reabilitar 6,8 quilómetros de estradas, ao preço módico de cerca 147 mil euros por quilómetro, oportunamente dando início a esta importante obra em pleno inverno. Que rica ideia!

O símbolo deste esvaziamento da nossa ilha poderia ser o ecrã apagado e silencioso do Faial Film Fest – Festival de Cinema dos Açores, cancelado por falta de apoios, apesar dos empenhados esforços do nosso desapoiado Cineclube. Apagou-se o ecrã que trazia o mundo ao Faial. Perdemos nós e perderam os Açores. Outra notícia relevante, muito triste, e de que pouco se falou. 

Mas acabou-se o sossego de João Castro porque terminadas as eleições regionais começam já a preparar-se as autárquicas e o PSD Faial, pela voz do caro Carlos Faria, nas páginas deste jornal, veio já afirmar a sua esperança de que o poder autárquico acabe por lhe cair no colo graças à incompetência da gestão do PS. Mas, ao contrário do que coloca Carlos Faria, a incógnita não é o posicionamento da CDU, que até ficou muito bem esclarecido com o voto contra o Orçamento Municipal para 2012. A grande incógnita é perceber se o PSD se prepara para mais uma vez, tal como fez nesse mesmo orçamento, aprovar as jigajogas contabilísticas do PS e permitir as trocas e baldrocas de património municipal entre Câmara e empresas municipais, cavando ainda mais fundo o endividamento da nossa autarquia. A incógnita é perceber até quando os autarcas do PSD vão permanecer em silêncio em relação à destruição do sistema de recolha do lixo ou à redução de verbas para as Juntas de Freguesia. Que o PSD quer ser poder, já percebemos. Falta saber quando é que o PSD se decide a ser oposição. Se calhar só mais perto das eleições, talvez…

Mas, para lá da pequena política local, o que nos resta é o retrato de uma ilha cada vez mais esvaziada e pobre, de um concelho arruinado por uma maioria irresponsável e por uma oposição ausente. Para o melhor ou para o pior, queiramos ou não, 2013 vai ser um ano de grandes mudanças, que vão tornar este tipo de gestão municipal completamente insustentável. Perante isso, não nos restará outra opção do que procurar a alternativa. Porque a alternativa existe e cresce. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

das fábulas eleitorais à realidade dos factos


A campanha eleitoral para o Parlamento Regional foi como se esperava disputada e intensa. As narrativas políticas contadas aos eleitores foram muitas, de todos os géneros e para todos os gostos. Houve a confusa fábula dos cidadãos plataformistas que, coitados, se sentem oprimidos pelos partidos políticos e, por isso, decidem paradoxalmente juntar-se a dois partidos políticos, PPM e PND, mantendo uma aliança que só na longínqua ilha do Corvo têm a coragem de assumir com outro partido político, o PSD. Não foi com certeza fácil explicar isto aos eleitores e muitos deles, entre os quais me incluo, ainda não conseguiram perceber muito bem.

Houve a lenga-lenga popular da esquerda elegante que aparece agora, às vezes pela primeira vez, nas ilhas a repetir mecanicamente que tem soluções para os problemas dos Açores, apesar de os seus dois deputados as terem mantido bem guardadas e secretas durante os quatro tranquilos anos que passaram no Parlamento Regional. Será é que desta que irão apresentar as tão maniacamente repetidas soluções?

Houve a estória infantil do pequenino CDS que, comendo muitas papas de demagogia e grandes biberons de desinformação política, conseguiu vencer o medo de submarinos e crescer e até já vai pensando no que quer ser quando for grande: muleta do PS ou muleta do PSD? Que importa? Há-de ser parte da decisão, seja com Deus ou com o Diabo ou com quem estiver pelo meio, senão… faz birra!

Houve o torturado poema surrealista da candidata do PSD que, apesar de não gostar nada do Governo do PSD nem da sua política, sofre a agrura de ser também Vice-Presidente desse mesmo PSD. Mesmo com o seu intenso drama interior, Berta Cabral já parece mais sorridente nos últimos dias, liberta que está do peso do milhão de promessas que nunca poderia cumprir, já que a voz sempre sinistra do Ministro das Finanças (também ele do PSD, veja-se), com três penadas de austeridade, fez a vitória fugir por entre os dedos ao do PSD. 

E é sem dúvida incontornável falar do poema sinfónico, em tom maior, do PS que, feliz de poder finalmente atirar com culpas próprias e alheias para Lisboa, já não tem que se preocupar assim tanto com a avaliação que os açorianos fazem do seu governo. O PS começou então a lançar os foguetes de uma vitória que esteve bastante tremida e a sonhar poder continuar a mandar sozinho e continuar a tecer pacientemente a teia de consciências compradas, favores trocados e ameaças mais ou menos veladas que desde 1996 lhe seguram o eleitorado que os mantém no poder.

Alimentada pela miragem de uma possível mudança de Governo e pela presença de doze candidaturas no terreno, esta campanha eleitoral obrigou a que as máquinas partidárias dos três partidos do costume redobrassem esforços e abrissem cordões à bolsa para camisolas a eito e jantares de fartura, tentando encher cadeiras de comícios e inchar ambições de poder. 

Obrigou a que, um pouco por toda a parte, os velhos caciques locais se encarniçassem a arrebanhar, a perseguir ou – quando tudo o resto falha – a ameaçar eleitores contrários e hesitantes, para tentarem segurar os respetivos eleitorados dos melífluos apelos para mudarem de sentido de voto.

E, com muito mais notoriedade, obrigou a que os líderes se esganiçassem, metralhando promessas e profetizando futuros felizes e coloridos – ora rosa, ora laranja – para os afortunados açorianos que tão boa vida vão ter daqui para a frente. Sorte a nossa!

Mas a verdade é que também houve outra campanha, diferente, que abordou de frente os problemas que temos de resolver se queremos ter alguma esperança no futuro e que colocou a cada um dos cidadãos dois desafios essenciais: recuperar o rendimento das famílias e retomar a Autonomia que o Governo de Carlos César entregou ao de Passos Coelho. Sem superar estes dois obstáculos, pura e simplesmente não há nenhuma esperança de os Açores retomarem um rumo de crescimento. 

Para o conseguir é preciso não embarcar nem nas falsas promessas nem nos perigos e erros do poder absoluto de um só partido. Aníbal Pires a nível regional e João Decq Motta aqui no Faial, ao lado de gente de todas as ilhas, deram rosto e voz a uma alternativa, real, que pode pesar decisivamente no destino dos Açores. Pense nisso.

Texto publicado no Jornal Incentivo

sábado, 6 de outubro de 2012

a vida aqui não é fácil


A vida aqui nunca foi fácil. Os antigos sabiam-no bem. Foi à força de braço e de teimosia de alma que os que há 560 e tal anos começaram a afluir à protecção das encostas do perfil de dragão desta ilha aprenderam a tirar riqueza das pedras, que afinal escondiam fértil terra e que encontraram ventura na veja, na lapa e na moira e no mais que as ondas salgadas trazem a estas costas.
Foi duro. Esta ilha não era para fracos. Desviar a pedra, arrancar o mato, quebrar a onda, através da neblina, apesar do ciclone, apesar do corsário ou da tropa – inimigos que não se distinguem – sofrendo imposto, corveia e dízimo para, depois do vulcão, depois do abalo, recomeçar tudo do nada outra vez. Partilhava-se o pão, sempre escasso, em sopas simples que, de serem tão generosamente humanas, só podiam ser santas, como santo só pode ser este espírito que faz os homens iguais, irmanados nas alegrias e adversidades.
Nos longos invernos das ditaduras, sobrando tanto silêncio forçado nas gargantas e saudades tamanhas dos que se safaram a coberto, fugindo a sortes e levas para guerras cujos ecos mal cá chegavam. Por aqui ficou a fome, dura, mas também a determinação, muito mais dura, dos homens de pedra que fizeram São Jorge.
Não há mal que sempre dure nem Janeiro que não termine e na primavera de esperança que, súbita, também aqui chegou viva e vermelha, de novo se levantaram vozes e festas, se ergueram bandeiras e vontades, transformando a ilha e a vida. Ergueram-se escolas e fábricas, rasgaram-se estradas e portos, prometendo acabar para sempre com todos os invernos.
Mas depressa chegaram novos corsários, impecáveis de gravatas e palavras caras, juros, spreads e moras, prometendo abundâncias mas acabando por levar, afinal, rendas, prédios e cabedais, como os corsários sempre fizeram. A chuva de ouro da Europa que tinham prometido, nunca viria a cair sobre a ilha. Levaram-na os ventos da política para outras paragens. Por cá, ficou a chuva de sempre e o lento abandono. E recomeçou a invernar em São Jorge.
A terra continuou a dar o mesmo, às vezes até mais, mas esse mesmo e esse mais deixaram de merecer valor que pague sustento que baste. O mar continuou a encher anzois generosos mas que agora pouco valem no mercado grande da avidez dos intermediários e distribuidores. A justa revolta dos homens da terra e do mar foi silenciada de novo, desta vez à força de subsídios e ameaças veladas, em vez das bastonadas francas de outrora.
Agora, uma vez por ano, um carnaval de promessas invade a ilha, com um animado corso de membros do Governo Regional, vasculhando as freguesias à procura de promessas que possam deixar por cumprir ou para reprometer o que ainda não cumpriram. Depois da Terça-feira Gorda do governo, vem a Quarta-feira de Cinzas da oposição. Chegam outros políticos, de olhar mais duro e palavras mais ásperas, criticando o pouco que os primeiros fizeram e prometendo fazer eles tudo o que os outros deixaram por fazer. Um festival que diverte, mas que há muito tempo não anima, porque os jorgenses sabem bem que dali só vêm palavras, vento que não traz nem verões, nem a gente que partiu, nem o progresso que se atrasa.

Acabou-se a produção, reduziu-se a riqueza, fechou a loja, encerrou a empresa, minguou o emprego. E os mais novos começaram a abalar outra vez, deixando desertas estas encostas de tanta promessa. O futuro ganha-se, hoje como há 500 anos, à força de braço e teimosia de trazer o sustento para casa. A vida aqui não é fácil. Os mais novos sabem-no bem.
 
Texto publicado no Jornal O Breves