sexta-feira, 23 de novembro de 2012

um crime que nos toca a todos


No meio da modorra informativa da nossa crise – em que já quase nada nos surpreende e em que a única verdadeira novidade acaba por ser a tranquilidade e falta de vergonha cada vez maiores com que o Governo nos vai ao bolso – passaram meio despercebidas as notícias de uma nova campanha de bombardeamentos israelita sobre a Faixa de Gaza. 

Conflitos no Médio Oriente não são exactamente novidade, mas a ferocidade deste ataque e o total desrespeito pela população civil palestiniana atingiram um patamar que ainda não conhecíamos.

Imaginem uma cidade de 365 quilómetros quadrados (pouco mais do dobro do Faial), mas onde se acotovelam 1,7 milhões de pessoas, 4657 habitantes por quilómetro quadrado. Para se fazer uma ideia de quão impressionante é esta densidade populacional basta recordar que a da área metropolitana de Lisboa é de 952 por quilómetro quadrado.

As bombas israelitas, supostamente apontando para militantes do movimento Hamas, caem aparentemente ao acaso sobre os prédios de habitação, a todas as horas do dia e da noite, atingindo famílias que dormem e outros civis inocentes. Depois de sete dias de bombardeamento, as vítimas mortais já se contavam muito acima da centena, incluindo muitas mulheres e crianças.

A população, cercada, não pode abandonar o território e panfletos israelitas lançados de avião aconselham-nos a deixar as suas casas e a concentrarem-se em escolas e hospitais, que a fúria militar de Israel tem, até agora, poupado. Reservistas de Israel, entretanto, concentram-se aos milhares junto às fronteiras, preparando uma provável invasão terrestre da Faixa de Gaza.

O facto de terem caído alguns rockets em território israelita, não chega para explicar uma operação militar desta envergadura mas, esta guerra já faz muito mais sentido, se pensarmos que, no próximo dia 29 de Novembro, a Assembleia-Geral da ONU aprovará, ao que se espera, o reconhecimento da Autoridade Palestiniana como Estado-Observador, dando uma grave machadada nas pretensões de Israel de eliminar o Estado Palestiniano.

Mas este quadro sinistro fica ainda mais completo se olharmos para a história recente de Israel. Nos últimos anos, todas as eleições legislativas de Israel são precedidas de conflitos graves. Assim foi com as eleições de 2006, que decorreram já durante a escalada que levou à Segunda Guerra do Líbano; assim foi em 2009, em que as eleições ocorreram em Fevereiro de 2009, tendo sido precedidas de outra campanha de ataques e bombardeamentos que começaram em Dezembro 2008. As razões para o atual crescendo de violência israelita ficam, assim, muito mais claras quando pensamos que as próximas eleições para o Parlamento de Israel irão decorrer a 22 de Janeiro do próximo ano. A verdade é que tem sido a chantagem da guerra que tem mantido a direita sionista mais radical no poder. 

Num momento em que tanto se fala de “rogue states” (estados fora-da-lei), valia a pena avaliar com cuidado a actuação de um país que se recusa a cumprir as Resoluções do Conselho de Segurança da ONU e mesmo os acordos que assina; um país que possui um arsenal nuclear desconhecido, porque recusa as visitas obrigatórias dos inspectores da Agência Internacional da Energia Atómica; um país que possui minorias étnicas (árabes israelitas) que são discriminadas pela lei e pela prática dos actos; um país que ataca em águas internacionais navios com ajuda humanitária para a Palestina e, sobretudo, um país que tem uma postura político-militar agressiva e que é um foco permanente de instabilidade para a Região. Não o fazer equivale a considerar como lixo todo o Direito Internacional e assumir que, para a comunidade internacional existem dois pesos e duas medidas, consoante se é ou não, aliado dos Estados Unidos.

Israel viola tranquilamente todos os princípios básicos do direito internacional porque sabe que conta com a conivência, quando não com a cumplicidade activa, dos regimes ocidentais. As nossas democracias modernas toleram e apoiam um regime que está assumidamente empenhado no genocídio da população palestiniana, até porque o que boa parte da opinião pública dos nossos países se tem mantido em silêncio.
A violência que tem sido cometida sobre a Faixa de Gaza nos últimos dias é demasiado grave para que nos possamos declarar neutrais. Se as vítimas são palestinianos, o crime é contra a Humanidade e, por isso, toca-nos a todos. Basta de silêncio.

texto publicado no Jornal Incentivo
23 Nov. 2012

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

parar para andar para a frente


Na próxima quarta-feira, dia 14, Portugal, Espanha, Itália e Grécia estarão em Greve Geral, estando previstas manifestações e diversas ações de protesto em França, Bélgica, Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Suíça, Áustria, República Checa, Roménia e Croácia, naquele que é o primeiro dia europeu de protesto contra as políticas de austeridade, das quais afinal os portugueses estão longe de ser as únicas vítimas.

A esta Greve, que começou por ser convocada pela CGTP, aderiram a maior parte dos sindicatos da UGT, deixando o líder dessa central, João Proença, a falar sozinho e demonstrando que também eles reconhecem que, perante o que se anuncia no Orçamento de Estado para 2013, deixou de haver outra alternativa que não fosse lutar contra a política deste Governo. Nos protestos do dia 14 vão participar também reformados, desempregados, agricultores, pequenos e médios empresários, porque os aumentos de impostos e a destruição do Estado e do país, também lhes dizem respeito, tal como a cada um de nós.

A dimensão do protesto põe a nu, de forma inequívoca, o falhanço das políticas de austeridade que, em maior ou menor grau, têm sido aplicadas nestes países. Não é razoável acreditar que todas estas pessoas, todas estas organizações, sejam infantilmente “do contra” e não consigam perceber o alcance e objetivo das medidas de austeridade. Não. Estes milhões de cidadãos que irão protestar na próxima quarta-feira percebem, e muito bem, que só há solução para a crise crescendo, investindo e distribuindo melhor a riqueza que temos, que é o contrário do que tem feito a maior parte dos governos europeus.

Dizem-me por aí que a Greve fará o país perder ainda mais dinheiro. É verdade. Mas também me vou lembrando que quem a faz perde um dia do seu salário, se calhar proporcionalmente muito mais do que perde uma qualquer grande empresa pelas 24 horas de atraso na entrega das mercadorias. Não acredito, por isso, que ninguém faça Greve de ânimo leve ou só para chatear o Governo, por muito que este Governo mereça – e merece! – ser chateado.

Outros ainda dirão que a Greve não vai adiantar nada, que PSD e CDS, com as palas da sua teimosia, não vão dar ouvidos ao clamor dos portugueses, por muito alto que ele soe. É possível. É até provável. Mas a verdade é que, sem cair no radicalismo infantil do “vamos já partir isto tudo”, a Greve é a única alternativa de protesto que resta aos portugueses. Como todas as viagens, também esta começa com um só passo. A mudança de política de que precisamos não acontece de forma instantânea. Vai dar trabalho. Esta vai ser, provavelmente, apenas mais uma das muitas greves e protestos que os Europeus vão ter de fazer para travar os que arruínam os seus países. Mas, de certeza, quanto maior for este Dia Europeu de Protesto e a nossa Greve, mais perto estaremos de o conseguir. É preciso parar para andar para a frente. 

Mas, sobretudo, que alternativa nos resta? Que mais podemos fazer quando temos um Governo que, contra números e evidências, continua a impor teimosamente uma receita errada, que afunda a economia, que enterra o país em cada vez mais dívida, que destrói o Estado, as suas funções e serviços e que nos empobrece deliberadamente? Podemos, em consciência ficar calados e tranquilos enquanto nos vendem a Nação, nos roubam os salários e nos assaltam com impostos? 

A Democracia coloca sobre os ombros dos cidadãos um peso muito grande, muito maior do que o dever de votar e escolher representantes, de quatro em quatro anos. Ao favorecer a participação, a Democracia proíbe a demissão dos cidadãos. Não temos o direito à indiferença. É que, afinal, somos todos corresponsáveis pelos destinos da nossa sociedade e todos pagamos pela forma como ela é conduzida. Para o melhor ou para o pior, somos um país, estamos todos no mesmo barco. A Greve é parte de uma escolha fundamental: ou lutamos em conjunto ou nos afogamos em conjunto.