Foi grande o
estrondo mediático em torno do Congresso do PS Açores, que teve lugar
recentemente na nossa ilha. Os jornais regionais preencheram uma boa parte das
suas edições com os discursos dos líderes presentes, dos líderes passados, dos
líderes tremidos e algo inseguros ou mesmo dos aspirantes a líderes. A RTP
Açores arrastou-se em longos diretos, que teve o cuidado de repetir em
diferido, garantindo assim que ninguém passava ao lado da mensagem de unidade e
confiança que o PS Açores, afanosamente tentou transmitir. Mas, para lá do
ribombar da mensagem partidarizada, foram muitos, profundos e reveladores os
silêncios em torno do Congresso. É mais um daqueles casos em que o que ficou
por dizer é provavelmente muito mais importante do que o que foi dito.
Desde logo o
silêncio em relação às jornadas parlamentares que o PS resolveu marcar para o
Faial no mesmo dia em que se iniciava o seu Congresso. Se é a verdade que as
jornadas parlamentares servem (deviam servir) para aprofundar o conhecimento
sobre a realidade de cada ilha, também é verdade que este oportuno calendário
permitiu que as viagens dos Deputados socialistas fossem custeadas pela
Assembleia Regional, isto é: por nós todos. A conveniência tem (devia ter)
limites!
Também pouco se
falou do novo estatuto do antigo Presidente do Governo Regional, agora
Presidente honorário do partido. No seu recém-inventado cargo, Carlos César
preside à mesa do Congresso, preside à Comissão Regional, tem assento no Secretariado
Regional, no Conselho Consultivo, na Comissão de Jurisdição, na Comissão
Regional de Fiscalização Económica e Financeira e – muito apropriadamente – o
seu mandato renova-se automaticamente podendo ser, em teoria, vitalício. Esta
superacumulação de cargos demonstra que nem Carlos César está disposto a
abdicar das rédeas do poder interno, nem o PS está preparado para enfrentar a
orfandade política pós-César. Publicamente, que eu saiba, só uma voz de entre
os congressistas se levantou para denunciar esta situação. Os restantes: silêncio…
Mas também
Vasco Cordeiro teve os seus silêncios significantes. Por baixo das declarações
inflamadas e das acusações de “pirataria” atiradas sobre o Governo da República,
em relação aos recursos dos mares dos Açores, estava o silêncio em relação às autorizações
que o Governo Regional já deu à multinacional canadiana Nautilus Minerals para prospetar
minérios junto à fonte hidrotermal Lucky Strike. Desconhece-se o acordo com a
empresa, a tecnologia que vão empregar, as garantias de proteção ambiental, o
envolvimento da comunidade científica açoriana e as ações de fiscalização da
operação, ou sequer se vai haver qualquer fiscalização, apesar de se estar a
falar de habitats únicos e muito frágeis. E, em relação a este assunto, mesmo
as perguntas da oposição (a que o Governo está legalmente obrigado a responder)
ficaram sem qualquer resposta. Outro silêncio.
Apesar de muito
se ter falado sobre a importância de se manter a redução de impostos nos Açores
nos 30%, recusando a sua descida para apenas 20%, Vasco Cordeiro preferiu
silenciar a lembrança de que esta medida estava prevista há muito, desde a
altura em que o PS, com o PSD e o CDS, assinou um memorando com a troika que já
o previa expressa e claramente. Estranhamente – ou talvez não – do muito que se
escreveu nos jornais sobre o discurso de Vasco Cordeiro, ninguém quis relembrar
este facto. Um silêncio contagioso…
O Presidente do
Governo Regional não pode agora vir fingir-se surpreendido ou indignado e
tentar passar mais um manto de silêncio sobre o acordo que assinou com o
Governo de Passos Coelho, que obriga a que os Açores apliquem todas e cada uma
das medidas de austeridade nacionais, estando até proibidos de criar qualquer
medida compensatória que alive as martirizadas famílias açorianas.
A proposta de
recompensar as regiões autónomas em função da boa saúde das suas contas
públicas é um jogo muito perigoso, um feitiço que depressa se pode virar contra
o feiticeiro, à medida que acabam por vir à luz do dia os diversos buracos
financeiros da Região – cuja profundidade total ainda se desconhece – e que a
recessão se encarrega de afundar o que resta da economia regional. A política
de continuar a sustentar algumas empresas com os fundos da Região é
insustentável.
Por baixo dos
estrondosos – e às vezes incomodados – silêncios do partido do governo regional
sente-se o rumor crescente do descontentamento daqueles que já não têm mais
nada a perder e a quem não resta outra opção senão fazer-se ouvir finalmente.
Este silêncio tem garantidamente os dias contados.
Jornal Incentivo

1 comentário:
O silêncio é a maior arma que se tem.
Efectivamente o facto de terem sido efectuadas jornadas parlamentares em data próxima ao congresso só veio beneficiar a "nossa" classe política, que cada vez mais se revela medíocre e sem instrução.
Mas, lá diz o velho ditado, "quem tem padrinhos é que se baptiza".
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