sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

o grande silêncio



Foi grande o estrondo mediático em torno do Congresso do PS Açores, que teve lugar recentemente na nossa ilha. Os jornais regionais preencheram uma boa parte das suas edições com os discursos dos líderes presentes, dos líderes passados, dos líderes tremidos e algo inseguros ou mesmo dos aspirantes a líderes. A RTP Açores arrastou-se em longos diretos, que teve o cuidado de repetir em diferido, garantindo assim que ninguém passava ao lado da mensagem de unidade e confiança que o PS Açores, afanosamente tentou transmitir. Mas, para lá do ribombar da mensagem partidarizada, foram muitos, profundos e reveladores os silêncios em torno do Congresso. É mais um daqueles casos em que o que ficou por dizer é provavelmente muito mais importante do que o que foi dito.
Desde logo o silêncio em relação às jornadas parlamentares que o PS resolveu marcar para o Faial no mesmo dia em que se iniciava o seu Congresso. Se é a verdade que as jornadas parlamentares servem (deviam servir) para aprofundar o conhecimento sobre a realidade de cada ilha, também é verdade que este oportuno calendário permitiu que as viagens dos Deputados socialistas fossem custeadas pela Assembleia Regional, isto é: por nós todos. A conveniência tem (devia ter) limites!
Também pouco se falou do novo estatuto do antigo Presidente do Governo Regional, agora Presidente honorário do partido. No seu recém-inventado cargo, Carlos César preside à mesa do Congresso, preside à Comissão Regional, tem assento no Secretariado Regional, no Conselho Consultivo, na Comissão de Jurisdição, na Comissão Regional de Fiscalização Económica e Financeira e – muito apropriadamente – o seu mandato renova-se automaticamente podendo ser, em teoria, vitalício. Esta superacumulação de cargos demonstra que nem Carlos César está disposto a abdicar das rédeas do poder interno, nem o PS está preparado para enfrentar a orfandade política pós-César. Publicamente, que eu saiba, só uma voz de entre os congressistas se levantou para denunciar esta situação. Os restantes: silêncio…
Mas também Vasco Cordeiro teve os seus silêncios significantes. Por baixo das declarações inflamadas e das acusações de “pirataria” atiradas sobre o Governo da República, em relação aos recursos dos mares dos Açores, estava o silêncio em relação às autorizações que o Governo Regional já deu à multinacional canadiana Nautilus Minerals para prospetar minérios junto à fonte hidrotermal Lucky Strike. Desconhece-se o acordo com a empresa, a tecnologia que vão empregar, as garantias de proteção ambiental, o envolvimento da comunidade científica açoriana e as ações de fiscalização da operação, ou sequer se vai haver qualquer fiscalização, apesar de se estar a falar de habitats únicos e muito frágeis. E, em relação a este assunto, mesmo as perguntas da oposição (a que o Governo está legalmente obrigado a responder) ficaram sem qualquer resposta. Outro silêncio.
Apesar de muito se ter falado sobre a importância de se manter a redução de impostos nos Açores nos 30%, recusando a sua descida para apenas 20%, Vasco Cordeiro preferiu silenciar a lembrança de que esta medida estava prevista há muito, desde a altura em que o PS, com o PSD e o CDS, assinou um memorando com a troika que já o previa expressa e claramente. Estranhamente – ou talvez não – do muito que se escreveu nos jornais sobre o discurso de Vasco Cordeiro, ninguém quis relembrar este facto. Um silêncio contagioso…
O Presidente do Governo Regional não pode agora vir fingir-se surpreendido ou indignado e tentar passar mais um manto de silêncio sobre o acordo que assinou com o Governo de Passos Coelho, que obriga a que os Açores apliquem todas e cada uma das medidas de austeridade nacionais, estando até proibidos de criar qualquer medida compensatória que alive as martirizadas famílias açorianas.
A proposta de recompensar as regiões autónomas em função da boa saúde das suas contas públicas é um jogo muito perigoso, um feitiço que depressa se pode virar contra o feiticeiro, à medida que acabam por vir à luz do dia os diversos buracos financeiros da Região – cuja profundidade total ainda se desconhece – e que a recessão se encarrega de afundar o que resta da economia regional. A política de continuar a sustentar algumas empresas com os fundos da Região é insustentável.
Por baixo dos estrondosos – e às vezes incomodados – silêncios do partido do governo regional sente-se o rumor crescente do descontentamento daqueles que já não têm mais nada a perder e a quem não resta outra opção senão fazer-se ouvir finalmente. Este silêncio tem garantidamente os dias contados.

Texto publicado no
Jornal Incentivo

1 comentário:

Anónimo disse...

O silêncio é a maior arma que se tem.
Efectivamente o facto de terem sido efectuadas jornadas parlamentares em data próxima ao congresso só veio beneficiar a "nossa" classe política, que cada vez mais se revela medíocre e sem instrução.
Mas, lá diz o velho ditado, "quem tem padrinhos é que se baptiza".