Do
movimento que se gerou em torno dos protestos de amanhã, 2 de Março, pudemos
aprender duas coisas, com escassa margem para dúvidas:
Primeiro:
Que não é possível governar contra o país e que as maiorias parlamentares não
são cheques em branco, autorizando um governo a aplicar toda e qualquer
política que lhe apeteça, independentemente da vontade dos cidadãos. A
legitimidade da democracia assenta na vontade coletiva, expressa no voto, sim,
mas também manifestada de muitas outras formas. Por isso, numa sociedade
democrática, seja qual for a dimensão de uma maioria, há protestos demasiado
grandes, demasiado abrangentes para poderem ser ignorados.
Não
é, assim, de admirar que o nosso Governo viva cercado de protestos e que os
governantes sejam acossados por manifestações e grandoladas. Ao teimar num rumo
em quem já ninguém acredita, ao insistir em políticas que já demonstraram o seu
falhanço e que são esmagadoramente rejeitadas pela maioria dos portugueses, PSD
e CDS ficaram completamente isolados, sem qualquer apoio popular e –
consequentemente – sem qualquer legitimidade política para governar. Não fosse
o nosso Presidente da República um ativo partidário do PSD que vive entaipado
no Palácio de Belém, – donde, diga-se, deixou de sair, porventura receoso de
alguma grandolada – e talvez não fosse necessário sair à rua amanhã para fazer
cair o Governo. A dimensão dos protestos, os de ontem, como os de amanhã, torna
impossível que tudo continue como dantes.
Esse
é o cenário e o desafio que se coloca amanhã aos portugueses: derrotar o
Governo, sim, mas sobretudo derrotar as suas políticas. Não vai, com certeza
bastar demitir agora Passos Coelho e Paulo Portas para os substituir, daqui a
uns meses, por uma nova cara, mais ou menos sorridente, que nos faça engolir a
mesma receita de empobrecimento e austeridade. Aconteça o que acontecer vai,
definitivamente, ser preciso continuar a lutar para obrigar governos e FMI’s a
perceberem que não há solução para Portugal sem os portugueses. Foi justamente
a demissão, o deixa-andar de PS para PSD, foi o desinteresse dos cidadãos em se
preocuparem com o destino do país que permitiu que chegássemos a este ponto.
Esse é um erro que não podemos dar-nos ao luxo de repetir.
Segundo:
Há uma nova geração de portugueses que assumiu por inteiro a sua condição
cidadã e está determinada a defender os seus direitos e o futuro do país.
Embora tenha conseguido uma abrangência inter-geracional, o movimento Que Se
Lixe a Troika é claramente liderado por jovens. Esse é um dado importante. Trata-se
de uma geração que nasceu depois do 25 de Abril, que não conheceu nem o
fascismo, nem a guerra, mas que foi recuperar o grande símbolo do 25 de Abril
para dar voz ao seu protesto. É a geração que foi chamada de privilegiada e
“rasca” durante o cavaquismo, mas que depressa se tornou a vítima principal do
descalabro do país. A geração com mais formação de sempre, mas também com a
maior taxa de desemprego de sempre (40% de jovens desempregados); A geração
que, com uma licenciatura no bolso, acabou por ficar com um trabalho sempre
precário e pior remunerado; A geração a quem foi negado o direito a
autonomizar-se, a arranjar casa, a constituir família, a realizar-se pessoal e
profissionalmente. Uma geração que está farta e que, ao contrário do que dizem para
aí alguns, definitivamente não aguenta mais. Por isso, assumiu o seu
descontentamento e somou-o ao dos restantes portugueses e, com criatividade,
com inovação e com arrojo, criou o mais dinâmico e temível movimento
político-social dos últimos anos. Aconteça o que acontecer amanhã e nos dias
subsequentes, passa a ser forçoso contar com este movimento e com esta geração.
O
desafio que se coloca ao país é enorme e já ninguém se pode dar ao luxo de
dizer que não é nada consigo e deixar-se ficar sossegado em casa. Também aqui
na Horta, amanhã, pelas 10 horas, se juntarão na Praça da República, muitos dos
que já não aguentam mais e que querem, juntos, encontrar uma nova esperança.
Pelos amanhãs que cantam, amanhã cantaremos.

2 comentários:
Excelente texto, estou de acordo na integra, e é isso, não faças nada que é o que metade desta país.... anda a fazer!
http://pantominocracia.blogspot.pt/
Um espaço de opinião que nos leva da Democracia à Pantominocracia
nao estava ninguem no protesto, estavam todos em casa a ver televisao
o terreiro do paco tinha tao pouca gente que ate um dia de greve geral da cgtp
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