sexta-feira, 1 de março de 2013

amanhã



Do movimento que se gerou em torno dos protestos de amanhã, 2 de Março, pudemos aprender duas coisas, com escassa margem para dúvidas:
Primeiro: Que não é possível governar contra o país e que as maiorias parlamentares não são cheques em branco, autorizando um governo a aplicar toda e qualquer política que lhe apeteça, independentemente da vontade dos cidadãos. A legitimidade da democracia assenta na vontade coletiva, expressa no voto, sim, mas também manifestada de muitas outras formas. Por isso, numa sociedade democrática, seja qual for a dimensão de uma maioria, há protestos demasiado grandes, demasiado abrangentes para poderem ser ignorados.
Não é, assim, de admirar que o nosso Governo viva cercado de protestos e que os governantes sejam acossados por manifestações e grandoladas. Ao teimar num rumo em quem já ninguém acredita, ao insistir em políticas que já demonstraram o seu falhanço e que são esmagadoramente rejeitadas pela maioria dos portugueses, PSD e CDS ficaram completamente isolados, sem qualquer apoio popular e – consequentemente – sem qualquer legitimidade política para governar. Não fosse o nosso Presidente da República um ativo partidário do PSD que vive entaipado no Palácio de Belém, – donde, diga-se, deixou de sair, porventura receoso de alguma grandolada – e talvez não fosse necessário sair à rua amanhã para fazer cair o Governo. A dimensão dos protestos, os de ontem, como os de amanhã, torna impossível que tudo continue como dantes.
Esse é o cenário e o desafio que se coloca amanhã aos portugueses: derrotar o Governo, sim, mas sobretudo derrotar as suas políticas. Não vai, com certeza bastar demitir agora Passos Coelho e Paulo Portas para os substituir, daqui a uns meses, por uma nova cara, mais ou menos sorridente, que nos faça engolir a mesma receita de empobrecimento e austeridade. Aconteça o que acontecer vai, definitivamente, ser preciso continuar a lutar para obrigar governos e FMI’s a perceberem que não há solução para Portugal sem os portugueses. Foi justamente a demissão, o deixa-andar de PS para PSD, foi o desinteresse dos cidadãos em se preocuparem com o destino do país que permitiu que chegássemos a este ponto. Esse é um erro que não podemos dar-nos ao luxo de repetir.
Segundo: Há uma nova geração de portugueses que assumiu por inteiro a sua condição cidadã e está determinada a defender os seus direitos e o futuro do país. Embora tenha conseguido uma abrangência inter-geracional, o movimento Que Se Lixe a Troika é claramente liderado por jovens. Esse é um dado importante. Trata-se de uma geração que nasceu depois do 25 de Abril, que não conheceu nem o fascismo, nem a guerra, mas que foi recuperar o grande símbolo do 25 de Abril para dar voz ao seu protesto. É a geração que foi chamada de privilegiada e “rasca” durante o cavaquismo, mas que depressa se tornou a vítima principal do descalabro do país. A geração com mais formação de sempre, mas também com a maior taxa de desemprego de sempre (40% de jovens desempregados); A geração que, com uma licenciatura no bolso, acabou por ficar com um trabalho sempre precário e pior remunerado; A geração a quem foi negado o direito a autonomizar-se, a arranjar casa, a constituir família, a realizar-se pessoal e profissionalmente. Uma geração que está farta e que, ao contrário do que dizem para aí alguns, definitivamente não aguenta mais. Por isso, assumiu o seu descontentamento e somou-o ao dos restantes portugueses e, com criatividade, com inovação e com arrojo, criou o mais dinâmico e temível movimento político-social dos últimos anos. Aconteça o que acontecer amanhã e nos dias subsequentes, passa a ser forçoso contar com este movimento e com esta geração.
O desafio que se coloca ao país é enorme e já ninguém se pode dar ao luxo de dizer que não é nada consigo e deixar-se ficar sossegado em casa. Também aqui na Horta, amanhã, pelas 10 horas, se juntarão na Praça da República, muitos dos que já não aguentam mais e que querem, juntos, encontrar uma nova esperança. Pelos amanhãs que cantam, amanhã cantaremos. 

Texto publicado no Jornal Incentivo

2 comentários:

Pantomineiro Mor disse...

Excelente texto, estou de acordo na integra, e é isso, não faças nada que é o que metade desta país.... anda a fazer!

http://pantominocracia.blogspot.pt/
Um espaço de opinião que nos leva da Democracia à Pantominocracia

Anónimo disse...

nao estava ninguem no protesto, estavam todos em casa a ver televisao

o terreiro do paco tinha tao pouca gente que ate um dia de greve geral da cgtp