Como se
esperava, o Tribunal Constitucional (TC) chumbou várias das normas do Orçamento
de Estado com que PSD e CDS planeavam continuar a meter a mão sôfrega e
insaciável no bolso dos empobrecidos portugueses. Em consequência, foi um
Primeiro-Ministro dramaticamente consternado que nos anunciou, no Domingo
passado, que o Governo irá apresentar um plano B para garantir o cumprimento
das metas impostas pela troika.
Tal como já
havia feito em 2012, o TC considera (e bem), em relação ao corte dos subsídios
de férias dos trabalhadores do Estado, que ao criar-se uma imposição para
apenas uma determinada classe de portugueses (os funcionários públicos), se
está a criar uma espécie de “imposto de classe”, violando ostensivamente o
princípio constitucional da igualdade dos cidadãos perante a lei. Registe-se,
no entanto, que o TC (e muito mal) não vê qualquer inconstitucionalidade em que
o Estado viole tranquilamente o contrato que tem com
os seus trabalhadores, reduzindo, sem aviso nem acordo, salários e remunerações,
sob o estafado argumento da “emergência nacional” e da “situação de exceção”.
Suspender esta parte da Constituição e do Estado Direito não levanta nenhum
problema para o TC. No setor privado, isto seria considerado uma grave quebra
de contrato por parte da entidade patronal, que sofreria penalizações. Mas
sendo o Estado a fazê-lo, não há problema.
Embora causando
algum incómodo orçamental, a verdade é que a decisão do TC acaba por ser
politicamente inofensiva para o Governo. Nada está em causa: nem a validade do
acordo com a troika, nem os aumentos de impostos e contribuições e continua a
ser garantido o “direito” de qualquer governante em apuros se socorrer dos
salários dos trabalhadores do setor público para cobrir défices orçamentais.
Recorde-se, a este propósito, o facto relevante e significativo, dos juízes do
TC serem escolhidos pelo PS, PSD e CDS, o que pode contribuir para explicar
esta estranha visão da constitucionalidade.
A decisão do TC
não causou verdadeiramente grande surpresa, pois pelo menos o corte dos
subsídios de férias dos funcionários públicos já havia sido considerado
inconstitucional em 2012. Não poderia por isso, agora, o Tribunal aprová-lo sem
cair em insanável contradição. A verdade é que a inconstitucionalidade entrava
pelos olhos dentro, mesmo de qualquer leigo, e não terá escapado certamente às
extensas e doutas equipas de juristas do Governo. O próprio Passos Coelho não
forneceu um único argumento a favor da sua interpretação constitucional. Não
restam dúvidas que, ao repetir a mesma proposta, sem alterar nada de essencial,
o Governo procurou deliberadamente o chumbo do TC.
Na sequência
desse chumbo, Vítor Gaspar paralisou por despacho toda a atividade do Estado,
impedindo que os serviços estatais gastem um euro que seja numa esferográfica,
numa resma de papel ou, mesmo em alimentos para cantinas universitárias, ou
combustíveis para veículos policiais. Nem mais um cêntimo! Trata-se do passo
seguinte na chantagem sobre os portugueses: ou se aceita o saque governamental ou
o Governo paralisa o país. Uma política que o Reitor da Universidade de Lisboa
chamou “uma política de quanto pior, melhor!”
A decisão do TC
forneceu a Passos Coelho o pretexto que faltava, o contexto de dramatização de
que precisava para impor, sem mais demoras nem mais conversas, o
desmantelamento final do Estado português, a que eufemisticamente chamam
“reforma do Estado”. E por isso Passos Coelho foi já anunciando que o tal
“plano B” irá implicar cortes na saúde, na educação e na segurança social. Esse
é que é e continua a ser o Plano A do Governo de Passos Coelho e de Paulo
Portas. E tudo continua a correr como planearam.

2 comentários:
Quais sao a medidas alternativas? Os subsidios nao vao para o bolso dos partidos como tu implicas, vao para o bolso do estado que tu tanto adoras e para defender o estado social. O que o PCP defende afinal nunca se percebe pois sao coisas totalmente contraditorias so possiveis de defender na oposicao.
Onde é que você lê que os subsídios vão para o bolso dos partidos? Não disse isso em parte nenhuma.
Vão para o bolso dos bancos, que são os futuros empregadores dos atuais governantes, isso sim.
A alternativa passa por renegociar a dívida, não só nos seus prazos, mas também no seu montante (um perdão parcial, sim) e sobretudo nos seus juros e condições de pagamento.
Outra alternativa indispensável é a saída negociada do Euro, sem o qual não teremos mecanismo cambial para tornar as nossas exportações competitivas.
Mas pode encontrar mais ideias em www.pcp.pt
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