sexta-feira, 10 de maio de 2013

desmantelar a Sata



Em torno da greve dos trabalhadores da SATA, temos assistido, nos últimos tempos, a uma campanha mediática, de uma dimensão e ferocidade sem precedentes, que procura responsabilizar os trabalhadores por todos os problemas da nossa transportadora aérea e lançar contra eles a opinião pública regional.
Página atrás de página de impressa de jornal, reportagem sobre reportagem televisiva, falam-nos longamente sobre os prejuízos causados pela greve, mas pouco ou nada dizem sobre os seus motivos e, sobretudo, mantêm quase sempre um absoluto silêncio em relação às razões porque não foi evitada, enquanto vão continuamente martelando a ideia que os trabalhadores da SATA são um bando de privilegiados que estão afundar a nossa companhia aérea.
Importa repor alguns factos: O Governo da República assinou há alguns meses um acordo de princípio com os sindicatos da TAP, reconhecendo que os cortes salariais impostos à função pública através do Orçamento de Estado não se aplicam aos trabalhadores dessa empresa. Há muito tempo que os trabalhadores do grupo SATA têm condições laborais equiparadas aos trabalhadores da TAP que, naturalmente querem manter, até para evitar uma fuga de técnicos altamente qualificados e experientes de uma empresa para outra. Foi a atitude mais-troikista-que­-Passos-Coelho do Governo Regional, com a recusa teimosa e absoluta de aplicar o mesmo princípio, que obriga os trabalhadores da SATA a recorrerem à greve como única forma de protegerem os seus direitos e defenderem a dignidade da empresa, ao recusarem que a SATA seja transformada numa transportadora aérea “de segunda”.
Note-se, e o facto é público, que foi o Governo Regional, através da administração da SATA, que resolveu nem sequer realizar todos os voos de serviço mínimo que estavam previstos, deixando algumas ilhas sem voo, agravando de forma deliberada os prejuízos causados pela greve. Com esta decisão, ficaram desmascaradas as verdadeiras intenções do Governo Regional: usar os trabalhadores como bodes expiatórios dos erros e dos problemas criados pela sua própria gestão.
E os problemas são muitos e bem conhecidos: Desde logo, o rol de “boys” importados do partido do Governo para a Administração da empresa, aos quais há poucos dias se juntou mais um, o ex-governante socialista e ex-administrador da Mota Engil, Luís Parreirão. Na administração da companhia aérea açoriana, em vez de gestores, sentam-se homens de confiança política do PS. Não é definitivamente caso único, mas continua a ser grave.
Outro problema, e graúdo, são os 22 milhões de Euros que o Governo Regional deve e não paga à SATA há vários anos, ignorando as determinações do Tribunal de Contas. Apesar deste buraco financeiro criado pelo próprio Presidente do Governo Regional (que era, na altura, o Secretário da tutela) a empresa consegue manter uma situação quase equilibrada, tendo apresentado até um pequeno lucro em 2012. Ao contrário do que por aí se diz, a SATA não custa um cêntimo ao erário público, à exceção das obrigações do serviço público, que teriam sempre de ser pagas, fosse à SATA fosse a um privado. Recorde-se que os voos inter-ilhas não são minimamente rentáveis e sem investimento do Estado pura e simplesmente não existiriam. O elevado custos das passagens advém, diretamente, das regras da União Europeia, que proíbem que os Governos subsidiem as empresas públicas. Não é um problema de gestão, nem está minimamente relacionado com os salários dos trabalhadores.
Esperam-se ainda as cenas dos próximos capítulos em relação à SATA, até porque o Governo Regional já começou a falar em “reestruturações” e “alterações de posicionamento” que, tendo em conta a experiência passada, não anunciam provavelmente nada de bom para o futuro da SATA. O que está em causa é o património dos Açorianos e um serviço absolutamente vital para as nossas ilhas que temos todos que defender. 

Texto publicado no Jornal Incentivo

1 comentário:

martin cruise disse...

Procuro informações sobre o naufrágio do navio Bolama ocorrido a 4 de Dezembro de 1991. Investigação jornalistica. Ver Blog: naviobolama.blogspot.pt