sexta-feira, 5 de julho de 2013

a palhaçada



Esta semana, a Procuradoria-Geral da República arquivou o processo movido contra Miguel Sousa Tavares por Cavaco Silva, confirmando assim o velho ditado popular de que quem diz a verdade não merece castigo e que, portanto, não é crime chamar “palhaço” a este Presidente da República.
Inspirados por esta despenalização da palhaçada política, Passos Coelhos e Paulo Portas lançaram-se num complicado sketch cómico para distrair o país e desviar as nossas preocupações dos desastrosos resultados da sua política. Neste número, Passos, palhaço rico, tenta esforçadamente acalmar a birra de Portas, palhaço pobre, perante o olhar atento de Tó Zé Seguro, palhaço aspirante, que em bicos de pés vocifera da beira da arena.
Depois da demissão do Ministro das Finanças (“Fizemos asneira. Vou-me pirar antes que isto rebente!”), seguiu-se a demissão “irreversível” de Paulo Portas (“Não brinco mais contigo, Pedro!”), seguida da lenga-lenga teimosa de Passos Coelho (“Daqui não saio, daqui ninguém me tira!”), entremeada com o enxovalho do palhaço Cavaco (deixem-me lá exercer este novo direito!) que, enquanto estes acontecimentos se desenrolavam, estava, como gosta, entretido com as fardas de gala numa cerimónia oficial, sem nada saber do que se passava no país.
Perante a crise política, os neuróticos mercados que são tão importantes para o país e que, tal como Cavaco, têm mais medo de eleições do que o diabo da cruz, depressa entraram em stress, com a Bolsa de Lisboa a cair mais de 5%, e lá teve Passos Coelho de ir a correr a Berlim sossegar a madrinha Merkel (“Foi só uma birra do Paulo. A gente negoceia e aguenta a coligação. Não se preocupe, Madrinha.”).
Entretanto Tó Zé Seguro dava pinotes entusiasmados no Largo do Rato (pois desde que passou a liderar nas sondagens o PS começou a achar por bem que o Governo caísse) e começou logo a ensaiar exatamente o mesmo discurso que Passos Coelho: “É preciso que os sacrifícios dos portugueses não sejam desperdiçados, temos de recuperar a credibilidade externa e garantir o cumprimento dos compromissos de Portugal”. Tó Zé Seguro procura assim mostrar à Madrinha Merkel que o PS será um cobrador mais eficaz que PSD e CDS, garantindo muito menos contestação social à rapina das finanças nacionais para pagar os juros da dívida.
A palhaçada cumpre a sua função: O país entretém-se, dá umas gargalhadas e não pensa nos 10,6% de défice, nem nos 18% de desemprego, nos 4% de recessão, nem no endividamento nacional, que cresceu 25% nos últimos dois anos, isto é: desde que fomos “salvos” pela troika.
À hora em que escrevo, ainda não é claro qual vai ser o “grand finale” com que estes três senhores, Passos, Portas e Seguro pretendem deixar o país boquiaberto, para melhor engolir o inevitável segundo resgate que se aproxima a passos largos, mas parece claro que, para que haja uma mudança real na substância das políticas, não bastará redistribuir os papéis entre os três palhaços.
Vão ser precisas eleições, sim, mas para que se mude o rumo da bancarrota inevitável a que nos estão a conduzir. Vão ser precisas eleições, sim, mas para que a firmeza na defesa do interesse nacional abra as portas a um acordo internacional que seja de cooperação e não de saque, um acordo que permita que saiamos do buraco em vez de nos afundarmos cada vez mais. Está nas nossas mãos, com o nosso protesto, fazer com que essas eleições aconteçam e que, por uma vez, não sejam apenas mais uma palhaçada para nos entreter.

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