sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

a ficção do Orçamento



O Governo Regional tudo fez para reduzir a zero a discussão do Plano e Orçamento da Região para 2014 e, apoiado na sua maioria absoluta e graças ao desinteresse da comunicação social, conseguiu-o plenamente.
Esse esforço para esvaziar aquela que é, talvez, a mais importante discussão que se realiza anualmente na Assembleia Regional começou logo na organização do debate, em que o PS recorreu à velha tática de silenciar a oposição, não fossem as razões apresentadas pelas outras bancadas perturbar o relambório de boas-notícias anunciadas monocordicamente pelos Secretários Regionais, um após outro. Assim, a maioria impôs a redução do tempo de intervenção das representações parlamentares a uns ridículos 15 minutos para três dias de debate! Feitas as contas, por exemplo, o PCP teve direito a cerca de 27 segundos para discutir cada uma das suas 33 propostas de alteração ao Plano!
Mas o esforço para apagar esta discussão não se ficou por aqui. O PS foi intransigente e impôs que as votações do Plano e Orçamento se realizassem num disparatado horário noturno, entre as 22 horas e as quatro da manhã de quinta-feira, recusando adiar os trabalhos para o dia seguinte. Assim, enquanto os açorianos dormiam tranquilos nas suas camas, cinquenta e sete deputados olheirentos e semiadormecidos, perante alguns (poucos) jornalistas aborrecidos, votaram sonolentamente as várias dezenas de propostas apresentadas pelos partidos da oposição. A coberto da noite, a maioria socialista pode dar-se ao luxo de impor sem grandes conversas as suas opções e chumbar com tranquilidade muitas soluções positivas, necessárias e urgentes para os Açores.
Mas o empenho em transformar a discussão do Plano e Orçamento em pouco mais do que uma encenação foi ainda mais longe: O Governo recusou também retirar do Orçamento vários artigos que lhe permitem criar novas ações do Plano e transferir livremente de um lado para o outro as verbas que a Assembleia Regional aprovou, esvaziando os projectos que entender e reforçando os que quiser, sem ter que dizer água vai ao Parlamento. Para que serviram, então, três dias e uma noitada de debates? O Orçamento da Região torna-se assim na ficção política com que o PS procura dar resposta às reivindicações locais enquanto, pela calada, vai fazendo o que muito bem entende.
Mas, como se tudo isto fosse pouco, o PS guardou para o último momento, o grande volte-face de opereta em que transformou a discussão do Plano e Orçamento. Às 20 horas e 2 minutos da quinta-feira, dia 28 de Novembro, dois minutos depois do prazo limite para a entrega de proposta de alteração ao Orçamento, o PS dá entrada de uma proposta, com uma aparência perfeitamente inocente, alterando alguns números num dos muitos mapas do Orçamento. Analisando esses números, descobrimos que se trata de um aumento das responsabilidades contratuais plurianuais, isto é, das dívidas presentes e futuras assumidas pela Região. O espanto surge quando descobrimos que se trata de um aumento de quase 164 milhões de Euros, fazendo com que as responsabilidades da Região, pela primeira vez na história, ultrapassem os mil milhões de Euros! 1.026.930.176,81€ para ser exacto.
Esta foi a grande não-notícia da noite. Perante o silêncio de quase todas as bancadas, com a desatenção dos poucos jornalistas que por ali restavam, a alteraçãozinha ao Mapa XI do Orçamento da Região para 2014 lá foi aprovada pelas quatro da manhã. Independentemente de acharmos que esta dívida é grave ou não (e o Governo Regional parece pouco preocupado), o facto de o PS ter escondido estes números até ao último momento não pode indicar nem tranquilidade nem boa consciência. A verdade é que uma alteração tão grande dos valores, tornou completamente inútil e académica a discussão realizada pela Assembleia Regional.
A vontade de governar com mão-livre e pouca ou nenhuma supervisão que o PS mostrou nesta sessão parlamentar, a sua má vontade em debater, o seu desejo de esconder a realidade das contas regionais, é um sinal preocupante da falta de rumo político, da desorientação de um Governo que já só se dedica a tentar tapar buracos que são cada vez maiores, tentando a todo o custo manter tudo como estava. Mas a realidade mostra-nos a cada dia que o que precisamos mesmo é de fazer mudanças profundas. 


Texto publicado no Jornal Incentivo - 6 Dez. 2013


2 comentários:

Carlos Faria disse...

Muitas vezes discordo das tuas ideias, mas este teu artigo de hoje denuncia de uma forma brilhante a forma de como o governo dos Açores impõe coisas que as pessoas se tivessem consciência do que se está a fazer não aceitariam e ainda camufla os aspetos negativos do que tem sido a sua governação, tudo isto protestos e críticas.

Tiago R. disse...

Muito obrigado Carlos. É uma honra.