O Governo
Regional tudo fez para reduzir a zero a discussão do Plano e Orçamento da
Região para 2014 e, apoiado na sua maioria absoluta e graças ao desinteresse da
comunicação social, conseguiu-o plenamente.
Esse esforço
para esvaziar aquela que é, talvez, a mais importante discussão que se realiza
anualmente na Assembleia Regional começou logo na organização do debate, em que
o PS recorreu à velha tática de silenciar a oposição, não fossem as razões
apresentadas pelas outras bancadas perturbar o relambório de boas-notícias
anunciadas monocordicamente pelos Secretários Regionais, um após outro. Assim,
a maioria impôs a redução do tempo de intervenção das representações
parlamentares a uns ridículos 15 minutos para três dias de debate! Feitas as
contas, por exemplo, o PCP teve direito a cerca de 27 segundos para discutir
cada uma das suas 33 propostas de alteração ao Plano!
Mas o esforço
para apagar esta discussão não se ficou por aqui. O PS foi intransigente e
impôs que as votações do Plano e Orçamento se realizassem num disparatado
horário noturno, entre as 22 horas e as quatro da manhã de quinta-feira,
recusando adiar os trabalhos para o dia seguinte. Assim, enquanto os açorianos
dormiam tranquilos nas suas camas, cinquenta e sete deputados olheirentos e semiadormecidos,
perante alguns (poucos) jornalistas aborrecidos, votaram sonolentamente as
várias dezenas de propostas apresentadas pelos partidos da oposição. A coberto
da noite, a maioria socialista pode dar-se ao luxo de impor sem grandes conversas
as suas opções e chumbar com tranquilidade muitas soluções positivas,
necessárias e urgentes para os Açores.
Mas o empenho em
transformar a discussão do Plano e Orçamento em pouco mais do que uma encenação
foi ainda mais longe: O Governo recusou também retirar do Orçamento vários
artigos que lhe permitem criar novas ações do Plano e transferir livremente de
um lado para o outro as verbas que a Assembleia Regional aprovou, esvaziando os
projectos que entender e reforçando os que quiser, sem ter que dizer água vai
ao Parlamento. Para que serviram, então, três dias e uma noitada de debates? O
Orçamento da Região torna-se assim na ficção política com que o PS procura dar
resposta às reivindicações locais enquanto, pela calada, vai fazendo o que muito
bem entende.
Mas, como se
tudo isto fosse pouco, o PS guardou para o último momento, o grande volte-face
de opereta em que transformou a discussão do Plano e Orçamento. Às 20 horas e 2
minutos da quinta-feira, dia 28 de Novembro, dois minutos depois do prazo
limite para a entrega de proposta de alteração ao Orçamento, o PS dá entrada de
uma proposta, com uma aparência perfeitamente inocente, alterando alguns
números num dos muitos mapas do Orçamento. Analisando esses números,
descobrimos que se trata de um aumento das responsabilidades contratuais
plurianuais, isto é, das dívidas presentes e futuras assumidas pela Região. O
espanto surge quando descobrimos que se trata de um aumento de quase 164
milhões de Euros, fazendo com que as responsabilidades da Região, pela primeira
vez na história, ultrapassem os mil milhões de Euros! 1.026.930.176,81€ para
ser exacto.
Esta foi a
grande não-notícia da noite. Perante o silêncio de quase todas as bancadas, com
a desatenção dos poucos jornalistas que por ali restavam, a alteraçãozinha ao
Mapa XI do Orçamento da Região para 2014 lá foi aprovada pelas quatro da manhã.
Independentemente de acharmos que esta dívida é grave ou não (e o Governo
Regional parece pouco preocupado), o facto de o PS ter escondido estes números
até ao último momento não pode indicar nem tranquilidade nem boa consciência. A
verdade é que uma alteração tão grande dos valores, tornou completamente inútil
e académica a discussão realizada pela Assembleia Regional.
A vontade de
governar com mão-livre e pouca ou nenhuma supervisão que o PS mostrou nesta
sessão parlamentar, a sua má vontade em debater, o seu desejo de esconder a
realidade das contas regionais, é um sinal preocupante da falta de rumo
político, da desorientação de um Governo que já só se dedica a tentar tapar
buracos que são cada vez maiores, tentando a todo o custo manter tudo como
estava. Mas a realidade mostra-nos a cada dia que o que precisamos mesmo é de
fazer mudanças profundas.
Texto publicado no Jornal Incentivo - 6 Dez. 2013

2 comentários:
Muitas vezes discordo das tuas ideias, mas este teu artigo de hoje denuncia de uma forma brilhante a forma de como o governo dos Açores impõe coisas que as pessoas se tivessem consciência do que se está a fazer não aceitariam e ainda camufla os aspetos negativos do que tem sido a sua governação, tudo isto protestos e críticas.
Muito obrigado Carlos. É uma honra.
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