segunda-feira, 19 de agosto de 2013

a hora é delas



Um dos dados mais importantes na campanha eleitoral autárquica que se inicia é, sem dúvida, o aumento da participação feminina nas listas de candidatos dos vários partidos, e em posições de elevado destaque. Vale a pena mencionar a candidata à Presidência da Câmara Municipal pela CDU, a Dra. Maria do Céu Brito, mas também as candidatas pelo PSD e BE à Assembleia Municipal, respetivamente Dra. Ilídia Quadrado e Dra. Sílvia Lino, e poderia ainda falar nas cabeças de lista de pelo menos um dos partidos às Freguesias de Pedro Miguel, Cedros, Conceição, Feteira, Matriz e Ribeirinha para dar mais alguns exemplos.
Este significativo aumento da participação feminina tem algo de surpreendente, tendo em conta as, infelizmente bem conhecidas, dificuldades aumentadas que tantas mulheres do nosso país e da nossa ilha enfrentam para conseguirem ter uma participação cidadã ativa. Olhe-se para o trabalho precário – que afeta proporcionalmente muito mais mulheres do que homens –; olhe-se para a flexibilidade de horários de trabalho, longos e irregulares, tornando impossível qualquer espécie de conciliação com a vida pessoal e familiar; compare-se porque tem também tudo a ver com isto, os salários médios dos homens e das mulheres e ficamos a perceber claramente que às mulheres se colocam barreiras acrescidas, obstáculos que são forçadas a enfrentar para poderem participar num partido político ou numa qualquer organização cidadã. Não lhes será certamente fácil encontrar tempo, energia, disponibilidade e meios para contribuírem e participarem em partidos políticos, mas no entanto fazem-no.
A lei da paridade, que obriga a que pelo menos um terço das listas sejam compostas por mulheres, terá ajudado a este aumento da sua presença mas, a verdade é que vários, senão todos os partidos foram bastante mais longe, projetando as suas candidatas para os lugares cimeiros das suas listas. Não gosto da lei da paridade e do seu espírito paternalista, que procura impor na secretaria o que muitas mulheres desejam conquistar por mérito próprio. Construir a igualdade significa que temos de criar condições, no trabalho, na família e nas organizações para que mais mulheres participem, deem o seu contributo à sociedade e demonstrem a sua vontade e capacidade de assumir as mais altas responsabilidades. A imposição administrativa de cotas de género não é garante de igualdade.
Penso que o importante aumento da participação feminina nestas eleições tem muito mais a ver com o caminho percorrido pelas mulheres do Faial ao longo das últimas décadas. Apesar das dificuldades que atrás referi, a verdade é que, nesta ilha, muitas mulheres deixaram de ser espectadoras passivas ou recetoras indiferentes e participam ativamente na cultura, no desporto, nas coletividades e agremiações. Assim, não é de estranhar que os partidos políticos, para tentarem aumentar a representatividade das suas listas de candidatos e a abrangência das suas candidaturas, procurem integrá-las e dar-lhes o espaço que é naturalmente seu.
O aumento da percentagem de mulheres nos órgãos autárquicos no nosso Concelho é certamente uma notícia positiva e um bom sinal da evolução da nossa sociedade, Mas este facto, por si só, não garante as mudanças de que necessitamos.
A participação das mulheres na política, como facto recente que é, enfrenta ainda profundas resistências e atavismos culturais, nomeadamente dos que tentam fazer corresponder o género de uma pessoa a um determinado tipo de atuação ou de comportamento, como se o facto de se ser mulher obrigue a ter uma dada personalidade ou comportamento. Por outro lado, quando colocadas em cargos tradicionalmente masculinos, as próprias mulheres tendem por vezes a imitar os seus predecessores, como se a competência de uma mulher num cargo político fosse medida pela capacidade de imitar os homens que a antecederam.
A igualdade pressupõe a aceitação das diferenças e penso que precisamos ainda de percorrer um longo caminho para dar às mulheres políticas o espaço para serem elas próprias. Não basta, embora seja essencial, mudar o género dos titulares políticos, precisamos de ir mais longe e abrir espaço a uma política mais feminina, no que a palavra tem de mais profundo. Não me atrevo a tentar delimitar o que é essa política feminina (às mulheres compete fazê-lo), mas arrisco-me a dizer que talvez seja uma política virada mais para o “cuidar” do que para o “partir e fazer de novo”, mais orientada para a cooperação do que para a competição, com menos orgulhos e vaidades pessoais. Espero sobretudo que as candidatas e futuras autarcas faialenses tenham as condições para deixar a sua marca própria na nossa ilha. A hora é delas.

Declaração de interesses: Informo os caros leitores que, com toda a honra, aceitei fazer parte da lista candidata à Câmara Municipal da Horta encabeçada pela Dra. Maria do Céu Brito, a quem devo a inspiração para as reflexões deste texto. Certamente que não utilizarei este espaço para fazer campanha eleitoral e com igual certeza não deixarei de assumir a minha visão própria e independente dos factos mais relevantes para a nossa ilha.