sexta-feira, 6 de setembro de 2013

acabar com os plásticos



O tratamento do lixo é sempre um problema agravado em ilhas pequenas mas, no Faial, estamos à beira de um problema verdadeiramente grave. As células da nossa lixeira, que acabou por nunca receber os melhoramentos para ser certificada como aterro sanitário, estão a ficar cheias e estamos talvez a menos de um ano de um seríssimo problema de como lidar com os resíduos sólidos urbanos não recicláveis. A única medida tomada pela CM Horta foi a de cortar na recolha de lixo, limitando-se a mante-lo mais tempo nos contentores, com os conhecidos efeitos nauseabundos, mas sem resolver, obviamente, a questão.
Não é credível que o novo centro de resíduos que o Governo está a criar na Praia do Norte resolva esta situação, pois, por um lado, haverá sempre inertes não incineráveis que têm de ser depositados em aterro e porque pressupõe que os resíduos que não possam ser tratados aqui sejam exportados para São Miguel, para alimentar a grande incineradora que o Governo e a Associação de Municípios dessa ilha estão a construir.
Essa incineradora, que terá um elevadíssimo impacto ambiental e que já mereceu queixas da Quercus junto de instâncias internacionais, destina-se à produção de energia através da queima de lixos e precisa, para ser economicamente viável, de quantidades massivas de resíduos, na ordem de 138 mil toneladas por ano, um valor que São Miguel não atinge. Assim, o Governo pretende andar a deslocar lixo das restantes ilhas dos Açores, Faial incluído, à custa de fundos públicos como de costume, para viabilizar mais uma obra de regime. Tudo isto dificilmente estará pronto e a funcionar, se funcionar, a tempo de resolver o nosso problema.
A abertura de uma nova célula e a realização dos melhoramentos que permitam tornar a nossa lixeira num aterro sanitário digno desse nome parecem ser uma parte essencial da solução e já deviam estar a ser estudados e preparados. No entanto, essa será uma obra de custo elevado e que não resolve, no médio prazo o nosso problema.
A solução para a questão dos resíduos terá necessariamente de passar também pelo aumento da quantidade de materiais reciclados e, ainda mais importante, pela diminuição do volume de resíduos que produzimos.
Uma das vantagens das campanhas eleitorais é o de lançarem novas ideias para discussão no espaço público, construindo (ou não) consensos e soluções que efetivamente permitam resolver problemas e melhorar a vida dos cidadãos. Estou convencido que a proposta de tornar a Horta um concelho livre de sacos de plástico, recentemente avançada pela Dra. Maria do Céu Brito, é justamente isso: uma ideia inovadora e com potencial que pode contribuir para resolver esta situação.
Como é bem sabido, os plásticos, e em particular os sacos de plástico distribuídos em (quase) todas as lojas, são um resíduo altamente nocivo, que demora séculos a degradar-se e exige quantidades maciças de energia para poder vir a ser eventualmente reciclado. A solução do problema passa forçosamente também por reduzir o consumo de plástico.
No oceano, os plásticos são ainda mais destrutivos, sendo responsáveis directos pela morte de milhões de animais marinhos em todo o planeta. Entre as primeiras vítimas está a nossa bem conhecida tartaruga careta. A nossa posição ímpar, no meio do Atlântico, traz-nos uma responsabilidade acrescida de reduzir o consumo deste material e de garantir que este não irá prejudicar o nosso património natural.
Algumas acções neste sentido já foram realizadas no passado, nomeadamente com várias campanhas de sensibilização junto dos pescadores e dos operadores marítimo-turísticos, e também aqui na Horta, com a distribuição de sacos de compra reutilizáveis, no âmbito da Agenda 21 Local, em 2010, mas é possível e é preciso ir mais longe.
Desde logo é necessário criar na sociedade faialense um consenso que envolva também as empresas e os comerciantes, já que estes serão uma parte essencial do projeto. É, depois, necessário começar a incentivar a substituição por sacos biodegradáveis. Os custos inerentes a todo este processo serão directamente amortizados pela diminuição da quantidade de resíduos e, indirectamente, pela melhoria do nosso ambiente e da nossa imagem enquanto cidade ecológica. Muitas cidades, em todos os continentes, já aderiram a esta ideia, proibindo o uso comercial de sacos de plástico ou taxando-os para desincentivar a sua utilização.
Acabar com os sacos de plástico não resolve todo o problema mas é certamente um passo na direcção certa.

Texto publicado no Jornal Incentivo