sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Do centro à periferia



Desde há muito tempo que os economistas procuram desenvolver modelos que expliquem as assimetrias e desequilíbrios no desenvolvimento das regiões e entender os factores que o potenciam ou retardam. São ensinamentos de primeira importância para os Açores e com uma aplicação muito directa na situação da nossa ilha.
No início dos anos 70, o economista, Prémio Nobel, Milton Friedman publicou “Uma teoria geral do desenvolvimento polarizado”, na qual analisa as relações que se estabelecem entre o centro e a periferia numa dada região. Simplificando, Friedman conclui que os centros tendem a atrair os investimentos, a fixação de empresas e a geração de riqueza, concentrando o emprego, a população, as atividades avançadas e a inovação económica, em termos de tecnologias e conhecimento, nomeadamente pela presença de instituições de ensino superior e investigação e desenvolvimento. O centro exporta, enquanto a periferia importa. Estas disparidades são normalmente agravadas pela ação do próprio Estado que tende a favorecer e a dirigir a maior parte dos seus recursos para as zonas de maior concentração de actividades e população, agravando as assimetrias. Trata-se, portanto de uma relação de domínio que não é só económica, mas também política.
A periferia, pelo seu lado, é drenada de capitais e recursos humanos, facto tão mais grave quanto os trabalhadores que migram são normalmente os mais jovens, dinâmicos e com maior formação. A perda de população e o menor peso económico fazem com que haja uma efetiva perda de poder político da periferia, que vê as suas possibilidades de autodeterminação e afirmação de um rumo de desenvolvimento independente cada vez mais limitadas. Este ciclo vicioso torna, a prazo, cada vez mais difícil alterar esta relação desigual e aprofunda a disparidade de desenvolvimento e o domínio do centro sobre a periferia.
Esta racionalização teórica soará, infelizmente, muito familiar para a maior parte dos açorianos, já que assenta que nem uma luva ao processo de concentração interna a que temos assistido nas últimas décadas. A perda de população, os encerramentos de empresas, a partida dos nossos jovens, a redução da actividade, são realidades bem conhecidas para quase todas as ilhas do nosso arquipélago. Somos hoje uma região cada vez mais polarizada, caminhando para um cenário de termos uma grande ilha/cidade e oito ilhas/parques naturais adjacentes, pobres e escassamente povoadas.
A única forma de contrariar o ciclo da concentração é através da ação dos poderes públicos. Os investimentos privados seguem naturalmente a lógica do seu próprio interesse e procuram os locais que lhes darão maior retorno, pelo que só o Estado está em condições de planificar e investir na periferia, de atenuar as assimetrias e procurar um desenvolvimento convergente.
 Só que, na verdade, a estratégia para o desenvolvimento dos Açores não é concebida com essa preocupação, bem pelo contrário. O Governo Regional é o primeiro a reforçar este processo de concentração, dirigindo o grosso do investimento para São Miguel, onde estão as maiores empresas e onde existe uma massa de eleitores que lhe assegura a manutenção do poder absoluto, fortalecendo as dinâmicas económicas, sociais e de ambiente cultural já existentes. Grandes infraestruturas, representando por vezes muitas dezenas de milhões de Euros, como o caríssimo Museu de Arte Contemporânea na Ribeira Grande, ou o Parque Tecnológico Nonagon na Lagoa, ou o Inova (Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores), em Ponta Delgada, são apenas exemplos desse esforço de concentrar em São Miguel também as dinâmicas de inovação, que têm importantíssimos reflexos económicos.
No resto das ilhas, o Governo Regional procura gastar apenas o suficiente para tentar abafar descontentamentos e silenciar as vozes alternativas. O investimento a ser feito na Frente-Mar da nossa cidade, por exemplo, embora positivo é comparativamente pequeno e demorado no tempo, e nada acrescenta de forma direta à capacidade produtiva da nossa ilha.
A perda de importância política do Faial no âmbito regional resulta deste processo de concentração que descrevi, mas resulta também das opções dos faialenses que têm recompensado com o seu voto os que de forma efetiva e deliberada prejudicam a nossa ilha e nos tornam uma periferia empobrecida. Teremos de começar aqui mesmo, na nossa ilha, a quebrar o ciclo vicioso da concentração e a recuperar a afirmação independente dos rumos para o nosso desenvolvimento. Senão é melhor começar a fazer as malas.

Texto publicado no Jornal Incentivo
31 Janeiro 2014

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