sexta-feira, 21 de março de 2014

o pai já vai



O dia 19 de Março, festa de São José, tornou-se, nos países de tradição católica, o Dia do Pai. Mas, se este é um dia que nos convida à emoção e à reflexão pessoal, é também um dia que nos deve fazer pensar sobre a própria sociedade e sobre os novos obstáculos que se colocam à realização pessoal e ao nosso papel enquanto membros de uma família.
Desde logo, a família continua a ser um conceito em mudança bastante rápida. Deixou de ser um espaço onde o papel de cada um estava claramente definido à partida e onde existia um consenso social sobre o que era esperado de uma mãe, de uma esposa, de um filho e, naturalmente, de um pai. Libertos da imagem rígida e austera do “pater familias” de outras eras, os pais do nosso tempo reinterpretam o papel de pai numa realidade nova. Uma realidade em que já não são – longe disso – o único sustento da família, em que já não lhes assiste a autoridade indiscutível da última palavra do “chefe de família” ou do “cabeça de casal” e em que, tal como sucede com as suas companheiras, o tempo que lhes resta para a família é precioso e muitas vezes desesperantemente escasso.
A flexibilização dos horários e o aumento dos ritmos de trabalho, que foram vendidos aos portugueses como essenciais para a “competitividade” do país, estão a cobrar um altíssimo preço às famílias portuguesas. Os horários de trabalho, considerados como uma relíquia do passado pelos nossos brilhantes governos, passaram por exemplo a poder ser “adaptados” por vontade do empregador. Na prática, o período normal de trabalho deixar de ser fixo e passar a ser considerado em termos médios, permitindo que se trabalhe muito para lá do normal, sem qualquer aviso prévio. Mas mesmo quando existe um horário fixo, a pressão da competição interna e o medo do desemprego levam a que demasiados pais e mães fiquem no trabalho muito para lá do previsto e que nunca consigam saber exactamente a que horas vão estar despachados.
A pressão para manter o posto de trabalho leva ainda mães e pais a abdicar de pausas, a não usar licenças de maternidade e paternidade e a evitar usar as dispensas para apoio à família. Alteram-se folgas para fazer um jeitinho à empresa, repartem-se férias por causa do serviço, pois o patrão pode não renovar o contrato. Corre-se muito, trabalha-se ainda mais, pois mesmo que o salário seja pouco, sempre é melhor do que não ter nada e, afinal, a primeira das responsabilidades parentais é justamente essa: a de garantir o sustento da família.
A vida familiar, o tomar conta de uma criança, estar com ela, acompanhá-la na escola, médicos e actividades extracurriculares, torna-se um jogo complicadíssimo de disponibilidades e correrias por parte dos progenitores, que acabam quase sempre por não conseguir estar tão presentes quanto desejavam.
Outra enorme diferença em relação a gerações anteriores é o facto de os pais do nosso tempo o serem substancialmente mais tarde. A idade média na altura do nascimento do primeiro filho, de acordo com dados do INE, é de 31 anos. Um número que, por ser uma média aritmética, acaba por ocultar os milhares de portugueses que só muito mais tarde acedem à parentalidade. A necessidade de estudar durante mais anos, mas sobretudo os baixos salários, a precariedade laboral, os sucessivos trabalhos a prazo, a total falta de estabilidade e segurança no emprego são os factores que explicam que a maior parte desta geração de portugueses adie durante muitos anos a constituição de família. As consequências para as gerações futuras de crescerem com pais e mães muito mais envelhecidos ainda não são claras, mas para o balanço da população nacional os números estão à vista. O saldo natural da população desde 2006 que se fica em valores negativos, atingindo os menos 18 mil no ano de 2012, não conseguindo, assim, garantir a substituição das gerações. A população nacional reduz-se; Portugal, desertifica-se e envelhece.
As políticas de redução de apoios e incentivos à natalidade, desvalorização dos salários, de precarização do emprego e de flexibilização dos horários têm consequências muito para lá da economia e acabam por afectar, de forma muito directa, o direito dos portugueses a constituírem família, a realizarem-se enquanto seres humanos e a procurarem a sua felicidade. Enquanto noutros países da Europa se alargam licenças de parentalidade, se aumentam subsídios de nascimento e outros incentivos à natalidade e se reduzem horários para apoio à família, os pais portugueses de hoje vivem sob a dupla ditadura do relógio e da carteira, que os obriga demasiadas vezes a responder ao apelo dos seus filhos com um triste: “o pai ainda está a trabalhar, o pai já vai.” 

Texto publicado no Jornal Incentivo
21 Mar 2014

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