O nosso
incansável PM, talvez aborrecido com a simples gestão de um país a rebentar
pelas costuras, anda sempre sedento de confrontação, não perdendo uma só
oportunidade para criar mais crispação política, de preferência em todas as frentes.
Depois de
declarar guerra aos funcionários públicos, aos professores, aos militares, aos
médicos, aos enfermeiros, às forças de segurança, aos juízes, aos advogados,
aos pequenos empresários, aos pescadores, aos pequenos agricultores, aos
reformados do Estado, aos reformados em geral, aos desempregados, aos
carenciados, aos artistas e intelectuais do país (esqueci-me de alguém?), o
Governo PSD/CDS resolveu também confrontar-se com os órgãos de soberania e
lançar uma pesada barragem de artilharia sobre o Tribunal Constitucional (TC).
Amuado por o TC
ter, pela nona vez (um singular recorde!) declarado como inconstitucional
normas contidas em diplomas aprovadas pela maioria PSD/CDS, o PM reagiu
contra-atacando, pondo em causa a idoneidade dos juízes (que por acaso até são
nomeados na sua maioria por PS e PSD), a sua isenção, a sua utilidade, mesmo, num
triste espetáculo de mal-estar para com a Lei e falta de respeito entre
instituições, a que nunca tínhamos assistido. O entusiasmo zelota dos
servidores de Passos Coelho na guerra ao TC levou a crítica muito para lá da
fronteira do disparate, com a normalmente anónima e silenciosa deputada de 2ª
fila da bancada do PSD, Teresa Leal Coelho, a vir propor “sanções” para os
juízes do TC que tivessem juízos “errados”, competindo provavelmente à maioria
PSD/CDS decidir o que é certo e o que é errado e convertendo assim o poder
judicial em mais um obediente departamento do Governo. Que rica democracia!
O problema
maior nem está no amuo mal-educado do Primeiro-Ministro, nem sequer nas tolices
de uma deputada exaltada, ansiosa por notoriedade e promoção política. O
problema do Governo de Passos e Portas não é o TC, mas sim a própria
Constituição. O problema é a má-convivência do Governo com o próprio sistema
político, que obriga a um equilíbrio (e separação) de poderes, impedindo os
Governos, mesmo quando apoiados por maiorias absolutas, de fazerem o que lhes
dá na real gana. O problema de Passos e Portas são mesmo as garantias básicas,
fundamentais (como as de não se poderem mudar regras a meio do jogo, ou violar
contratos assinados, cortando salários quando dá jeito) que a Constituição
garante aos cidadãos. O nosso grande problema é um Governo que não consegue
governar dentro da lei.
Temos o Governo
dessintonizado: Primeiro eram os portugueses que não serviam, que estavam mal
habituados, que eram preguiçosos, pouco criativos e que não queriam sair da sua
zona de conforto. Agora é a Constituição que é antiquada, demasiado rígida, que
não se adapta às exigências e desafios que se colocam ao país.
Numa situação
que eles próprios declararam como “de emergência”, PSD e CDS, resolveram tentar
suspender as garantias e os direitos dos portugueses, em nome de um discutível
“interesse nacional”. Lembra e muito, a infeliz experiência soviética dos anos
20, o chamado “socialismo de guerra”, em que foram suspensas as liberdades e as
garantias em nome das quais o próprio regime fora fundado. Assumindo-se que os
meios justificam os fins, cometeram-se os maiores crimes e distorceu-se a própria
natureza do sistema político socialista, que de social e libertário, se
converteu em austero e autoritário, uma transformação que foi muito para lá do
provisório.
Também o Partido
Social Democrata resolveu suspender o “Social”, que ficou completamente anulado
no ardor dos cortes impostos aos parcos rendimentos dos portugueses e no
desmantelamento dos serviços do Estado. Agora, ficamos a saber que também o
“Democrata” está suspenso, pela vontade de poder absoluto de um Governo que não
consegue governar dentro da lei, nem cumprir a vontade dos portugueses que o elegeram.
Na
“social-democracia de guerra” de Passos Coelho e Paulo Portas, temos o pior de
dois mundos: O Governo não consegue nem ganhar o apoio dos portugueses nem
levar a cabo o que se propunha. Que condições lhe restam para continuar?
Texto publicado no Jornal Incentivo
20 Jun 2014
20 Jun 2014
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