sábado, 9 de agosto de 2014

Quem paga a festa do Espírito Santo?



As dúvidas que muitos de nós tinham sobre o sucesso do “programa de ajuda” da Troika transformaram-se em certezas nas últimas semanas.
Afinal, o empobrecimento forçado dos portugueses não serviu nem para relançar a economia, nem para tornar mais sólido o nosso sistema financeiro, que parece correr o risco de tombar como um castelo de cartas perante o buraco financeiro do Grupo Espírito Santo.
Esta família, sempre de bem e intimamente relacionada com o poder e com as elites da sociedade portuguesa, foi transferindo os prejuízos das suas empresas para o Banco a que davam o nome e que controlavam, apesar de terem apenas 25% do capital, graças a uma cláusula oportuna. O Banco Espírito Santo foi utilizado como o jarro dos trocos da família, o mealheiro sempre à mão para todo o tipo de negócios, mais ou menos ruinosos.
O BES conseguiu passar entre as gotas da chuva durante a crise de 2008 e mesmo passar incólume, senão reforçado, por todos os “testes de stress”, auditorias e supervisões do Banco de Portugal, certamente também graças ao longo braço e poderosa influência da família Espírito Santo. No entanto, depois do anúncio de prejuízos superiores a 3,5 mil milhões de euros, que não podiam mais ser ocultados, tudo ruiu subitamente.
Foi numa conferência de imprensa sem direito a perguntas dos jornalistas que Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, lívido, anunciou um “plano de recapitalização” de 4,9 mil milhões de Euros, feito através da criação de um “Novo Banco” para o qual serão transmitidos a generalidade dos activos e passivos, fundos e trabalhadores do BES. Este ex-BES será detido por um misterioso “Fundo de Resolução” que, no fim de contas vai pedir 4,4 mil milhões de Euros emprestados ao Estado para pagar as dívidas do ex-BES.
Depois, o Governador do Banco de Portugal olhou fixamente as câmaras e mentiu descaradamente a todos os portugueses, dizendo que “a solução adoptada não terá qualquer custo para o erário público”.
A mentira de Carlos Costa tem perna curtíssima pois é do conhecimento público que o Fundo de Resolução é um organismo do Estado, liderado pelo Ministério das Finanças e pelo Banco de Portugal, criado em 2012, com a missão de reagir às crises bancárias. Mas não o faz com palavras mágicas nem com pozinhos de prlim-pim-pim, fá-lo com dinheiro que o Estado aí injectou. Dinheiro público. Dinheiro nosso.
Depois, não há quaisquer garantias sobre quando ou como é que o Estado irá reaver esse dinheiro. Aliás, se depois de saldadas as dívidas e retomado o funcionamento regular o ex-BES valer menos do que os 4,4 mil milhões de Euros, o que parece quase certo, será o dinheiro público, o nosso dinheiro, a pagar a diferença.
A mentira do Governador do Banco de Portugal foi repetida até à exaustão por jornais, rádios e televisões, martelando a mensagem de fundo, a falsidade de fundo: de que a recapitalização do BES não custará um cêntimo aos contribuintes.
Depois do BPN e tudo o que se lhe sucedeu vemos a história a repetir-se. Um banco bem relacionado com o topo da hierarquia política e com os grandes negócios do país entra em dificuldades e é considerado como “demasiado grande para falhar”. Depois, inventa-se uma linguagem e uma solução criativa para disfarçar a operação e, de seguida, utilizam-se os recursos que pertencem a todos os portugueses para o recapitalizar, saldar-lhe as dívidas, levantá-lo do chão, sacudir-lhe a poeira do fato e devolvê-lo aos mesmo que o arruinaram.
Não sabemos ainda ao certo quanto irá custar no total a salvação do banco dos Espírito Santo, mas já podemos apostar sobre quem é que vai pagar a factura.

Texto publicado n0o Jornal Incentivo
8 Agosto 2014

Sem comentários: