sexta-feira, 28 de novembro de 2014

os (verdadeiros) crimes de Sócrates

O estrondo mediático fez com que não pudesse deixar de escrever sobre a prisão do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. O caso tem uma importância que pura e simplesmente não pode ser ignorada, pois trata-se de alguém que até muito recentemente exercia as mais altas responsabilidades do Estado. Merecendo ser presumido inocente até decisão em contrário de um Tribunal, o facto de ter ficado em prisão preventiva mostra não só que existem indícios sólidos da prática de crimes, como existem riscos de fuga ou perturbação da investigação, o que acrescenta à gravidade de tudo isto.
É, desde logo, uma das mais claras e evidentes manifestações do polvo que envolve a política e os negócios neste país (até porque ainda não se sabe de onde vieram os milhões que José Sócrates alegadamente terá tentado esconder do fisco) e soma-se a uma longa lista de casos envolvendo agentes políticos. De memória, sem qualquer esforço conseguimos citar, sem ordem cronológica, Tecnoforma, Vistos Gold, Portucale, BES/GES, Submarinos, BPN, Face Oculta, entre muitos muitos outros, que nos mostram que a corrupção já não é feita de casos individuais, isolados e esporádicos, mas que se trata de um facto permanente. A corrupção tornou-se uma parte intrínseca do sistema.
Isto, na realidade, nem é surpreendente, pois todos sabemos, no fundo, que é aí, na zona cinzenta que fica no cruzamento da política com os negócios, entre os gabinetes ministeriais e os conselhos de administração, nos segredo dos escritórios dos advogados de topo, no conforto dos hotéis de luxo que se tomam as grandes decisões que afetam o resto do país. É aí que se trocam os favores, que se murmuram os segredos, que se decidem os lugares, que se prometem os empregos futuros em troca de um “jeitinho”. É por aí que têm de passar todos os líderes e candidatos a líderes dos partidos do centrão, se querem obter os apoios políticos e financeiros necessários às vitórias eleitorais.
Não se trata de uma conspiração maligna que possamos reduzir a um par de cabecilhas, sinistros e maquiavélicos que na sombra manipulam uma multidão de actores inocentes. Não. Trata-se antes de uma teia de relações, muitas delas perfeitamente legais, entre gente que se conhece nos bancos das Universidades, nos postos nas empresas, nos jantares das Famílias, nas bancadas parlamentares e nos órgãos partidários. Não são monstros, são homens e mulheres pragmáticos, com pouca ou nenhuma ideologia, que sabem que para ascender têm de se conformar ao sistema.
Trata-se de um poder difuso, em rede, que há muitos anos domina os destinos nacionais, fazendo rodar os protagonistas, ora do PS, ora do PSD (é preciso manter a aparência de que vivemos numa democracia), ora na bancada parlamentar, ora no conselho de administração e sobretudo garantindo que são os seus interesses que norteiam a política nacional.
E têm-no conseguido. Por isso vemos como são iguais os programas políticos do PS e do PSD: privatizações, mercado livre e sem regulação, alívio dos impostos para as grandes empresas e para as operações na bolsa, redução dos custos do trabalho e facilitação dos despedimentos, favores à banca, supervisão bancária a ver navios, redução do papel do Estado e abertura de novos sectores à iniciativa privada, como a energia, transportes, comunicações, saúde, educação, etc, etc, etc. Este programa político e económico é que colocou Portugal na situação em que se encontra e é em nome dele que nos impõem uma carga inaudita de privações e sacrifícios. Estes, sim, são os verdadeiros crimes de José Sócrates – mas não apenas dele, longe disso – que devem merecer a nossa severa condenação.

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