sexta-feira, 25 de julho de 2014

Donetsk aqui tão perto



Nos anos 60, um jornalista perguntou a Muhammad Ali se ele sabia onde era o Vietname, ao que o campeão do mundo de boxe respondeu: “Claro que sei onde é. É na televisão!”. Esta atitude, juntamente com a recusa de ir combater nessa guerra acabaram por lhe custar o título mundial, que lhe foi retirado administrativamente. Mas Ali tinha razão.
As guerras do nosso tempo chegam-nos sempre pela televisão, num pacote perfeitamente arrumado e ordenado, contando uma estória completa e clara, com princípio, meio e fim. Nos média, a narrativa da guerra está sempre perfeitamente organizada, os papéis de “bons” e “maus”, claramente atribuídos. Os factos que nos relatam são, sistematicamente, selecionados e interpretados sempre no sentido de confirmar essa estória, de corroborar essa lógica, com pouca se alguma margem para discutir ou questionar. No entanto, para o melhor e para o pior, a realidade é normalmente muito mais complicada do que a estória que as televisões nos contam. A guerra na Ucrânia é um exemplo claro disso mesmo.
A sucessão de acontecimentos que levaram ao golpe de estado em Kiev, que derrubou um governo democraticamente eleito, foi-nos sempre apresentada como um conflito entre os apoiantes da “tirania pró-russa”, os maus, e os “combatentes da liberdade” que procuravam uma aproximação à União Europeia, os bons. Assim as referências ao “Sector Direito”, organização nacionalista radical, dominada por elementos de tendência claramente fascista, que dirigiu os protestos na Praça Maidan, os seus cortejos à moda das SS, com a exibição orgulhosa de cruzes suásticas, por exemplo, foram completamente obliteradas do panorama informativo que os média nos serviram. Igualmente, continua a silenciar-se o claríssimo cariz autoritário do governo de Kiev que, para além de substituir políticos eleitos que sejam hostis ao novo regime, se lembrou – com pouca criatividade diga-se – de ilegalizar o Partido Comunista da Ucrânia, banindo do Parlamento qualquer discordância à sua atuação. Nada disto cá chegou.
Da mesma forma, evitou-se falar muito do pacote de austeridade que a Europa impôs à Ucrânia, em troca de um empréstimo que não permite sequer o pagamento das dívidas já acumuladas pelo país, fazendo com que as primeiras medidas do governo golpista fossem a redução de salários, a flexibilização da legislação laboral e o encerramento de serviços públicos. Uma receita que infelizmente conhecemos bem.
Quando várias regiões no Leste da Ucrânia se recusaram a aceitar o poder golpista de Kiev e se declararam independentes, a estória que nos contavam exigiu que tudo fosse atribuído ao velho urso soviético, que estava de novo a tentar apoderar-se do mundo. Sobre as costas largas de Vladimir Putin foram atirados todos os problemas da Ucrânia. Os homens e mulheres do Lesta da Ucrânia que pretendiam influenciar as decisões sobre o seu futuro foram apelidados de terroristas, as suas ambições de não passar fome foram declaradas como anticonstitucionais e os seus lares promovidos a alvos de artilharia e bombardeamentos aéreos.
Na estória que nos contam, no meio da controvérsia sobre o papel da Rússia neste conflito interno, a Europa e especialmente os Estados Unidos, aparecem como defensores da lei e da ordem legítimas, sem que ninguém se pergunte se é legítimo apoiar uma ditadura só porque ela serve os interesses da União Europeia e dos EUA, na sua “guerra por procuração” com a Federação Russa.
E porque nos interessa o conflito na Ucrânia? Porque a velha Europa de Kant e Sartre está a ser lenta mas inexoravelmente transformada na nova europa de Merkel: Uma Europa moldada à imagem e semelhança do que os EUA sempre tiveram de pior; Uma europa em que há países e povos de primeira, que merecem e colhem todas as benesses do progresso, e a chamada Europa dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), em que todos têm acesso à internet mas há filas à porta dos hospitais, os medicamentos faltam nas farmácias, as famílias não têm condições para educar os seus filhos e cada dia mais pessoas passam fome e dormem em caixotes de papel na rua.
É esta a Europa que os cidadãos de Donetsk rejeitam com todas as suas forças, pagando em sangue a audácia de resistir aos planos de Obama e Merkel. Se bem que a Ucrânia nos pareça muito longe, faríamos bem em não aceitar demasiado depressa os rótulos de “bons” e “maus” que nos servem na TV, sob pena de, um dia, também podemos vir a ser apelidados de “terroristas” apenas por querermos decidir sobre o futuro da nossa terra; apenas por gritarmos basta!