sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O paraíso



Agosto corre ameno. Por cá, aproveitamos o bom tempo, tiramos as barrigas de misérias e espantamos preocupações e tristezas em calção de banho e bikini. Os problemas do país e da Região parecem longe, reduzidos ao rumor do noticiário no rádio de pilhas que alguém trouxe para a praia mas a que ninguém dá atenção. O sol dos dias de Verão sem nuvens reconcilia-nos com a vida, que é dura todo o ano, mas que nos parece amaciada e um pouco mais doce na calmaria das tardes quentes. O céu azul relembra-nos que afinal vivemos num dos sítios mais belos do mundo. Falamos com os muitos turistas que nos visitam e eles dão-nos razão: os Açores são um paraíso!
Mas são um paraíso muito especial. No paraíso dos Açores, no ano de 2014 muitos de nós continuam a não poder dar-se ao luxo de serem quem são. Neste paraíso não somos, nem por sombras, todos iguais sob o sol que, nascendo para todos – sim – não nos traz a todos os mesmos direitos e a mesma dignidade.
Vem isto a propósito da realização, na semana que vem, em Ponta Delgada, da terceira edição do Festival LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero) Pride Azores, sob o lema “Abrir armários, criar pontes”.
Trata-se de um evento importante porque nos faz pensar sobre os limites desta nossa moderna tolerância social, que afirmamos em toda a parte, mas que no fundo talvez seja mais estreita do que gostamos que se note.
É verdade que perdemos o medo à palavra igualdade e utilizamo-la com muita frequência e descontração, mas esvaziamo-la demasiadas vezes do seu sentido profundo. Ser igual implica entender, aceitar, estar próximo do outro. E, nesta nossa sociedade moderna e tolerante, continuamos a olhar para a diferença como uma anomalia, um defeito, uma distorção, continuamos a apontar os diferentes, a rir do que (de quem) não queremos reconhecer como normal.
O Festival Pride Azores é um desafio à nossa capacidade de aceitar a diferença, de a entender, e reconhecer a igualdade. Ser igual implica compreender que muit@s de nós são ainda forçados a viver vidas clandestinas ou a sofrer na pele a discriminação e a censura, às vezes muda, às vezes explícita, mas que traça uma linha clara e aparentemente intransponível entre os “uns” e os “outros”. Se queremos uma sociedade que inclua todos, temos de criar pontes também com quem está mesmo ao nosso lado.
Este é um evento importante porque abala (enriquece) a visão tradicional que a sociedade açoriana tem sobre si própria. Não somos um monólito em que o papel de cada um de nós esteja perfeitamente assente, padronizado e definido. Reconhecer que não estamos presos a um modelo cristalizado de família e de sociedade, significa reconhecer que todos somos livres de procurar a felicidade como quisermos.
 É preciso entender que a homossexualidade não é uma moda nova que veio do continente ou dos states, mas uma característica que, tendo sido trazida com os primeiros colonos portugueses, flamengos, marroquinos e outros, por cá continuará enquanto viver gente nos Açores.
No entanto, se hoje qualquer casal tem já o direito legal de trocar um beijo à vista de todos, quando esse casal é do mesmo sexo, demasiadas vezes esse beijo suscita censura de um lado e vergonha do outro. A mudança de que precisamos não se faz dum lado só. Não basta que os “uns” deixem de discriminar os “outros”, nem que se fique em casa a lamentar a falta de igualdade. É preciso sair do armário e ter a coragem de derrubar a vergonha e de enfrentar a censura, sem medo de passar a ser tratado de uma forma diferente. O Festival Pride Azores é isso mesmo.
Podemos, uns e outros, fazer dos Açores um paraíso um pouco melhor.
Texto Publicado no Jornal Incentivo

sábado, 9 de agosto de 2014

Quem paga a festa do Espírito Santo?



As dúvidas que muitos de nós tinham sobre o sucesso do “programa de ajuda” da Troika transformaram-se em certezas nas últimas semanas.
Afinal, o empobrecimento forçado dos portugueses não serviu nem para relançar a economia, nem para tornar mais sólido o nosso sistema financeiro, que parece correr o risco de tombar como um castelo de cartas perante o buraco financeiro do Grupo Espírito Santo.
Esta família, sempre de bem e intimamente relacionada com o poder e com as elites da sociedade portuguesa, foi transferindo os prejuízos das suas empresas para o Banco a que davam o nome e que controlavam, apesar de terem apenas 25% do capital, graças a uma cláusula oportuna. O Banco Espírito Santo foi utilizado como o jarro dos trocos da família, o mealheiro sempre à mão para todo o tipo de negócios, mais ou menos ruinosos.
O BES conseguiu passar entre as gotas da chuva durante a crise de 2008 e mesmo passar incólume, senão reforçado, por todos os “testes de stress”, auditorias e supervisões do Banco de Portugal, certamente também graças ao longo braço e poderosa influência da família Espírito Santo. No entanto, depois do anúncio de prejuízos superiores a 3,5 mil milhões de euros, que não podiam mais ser ocultados, tudo ruiu subitamente.
Foi numa conferência de imprensa sem direito a perguntas dos jornalistas que Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, lívido, anunciou um “plano de recapitalização” de 4,9 mil milhões de Euros, feito através da criação de um “Novo Banco” para o qual serão transmitidos a generalidade dos activos e passivos, fundos e trabalhadores do BES. Este ex-BES será detido por um misterioso “Fundo de Resolução” que, no fim de contas vai pedir 4,4 mil milhões de Euros emprestados ao Estado para pagar as dívidas do ex-BES.
Depois, o Governador do Banco de Portugal olhou fixamente as câmaras e mentiu descaradamente a todos os portugueses, dizendo que “a solução adoptada não terá qualquer custo para o erário público”.
A mentira de Carlos Costa tem perna curtíssima pois é do conhecimento público que o Fundo de Resolução é um organismo do Estado, liderado pelo Ministério das Finanças e pelo Banco de Portugal, criado em 2012, com a missão de reagir às crises bancárias. Mas não o faz com palavras mágicas nem com pozinhos de prlim-pim-pim, fá-lo com dinheiro que o Estado aí injectou. Dinheiro público. Dinheiro nosso.
Depois, não há quaisquer garantias sobre quando ou como é que o Estado irá reaver esse dinheiro. Aliás, se depois de saldadas as dívidas e retomado o funcionamento regular o ex-BES valer menos do que os 4,4 mil milhões de Euros, o que parece quase certo, será o dinheiro público, o nosso dinheiro, a pagar a diferença.
A mentira do Governador do Banco de Portugal foi repetida até à exaustão por jornais, rádios e televisões, martelando a mensagem de fundo, a falsidade de fundo: de que a recapitalização do BES não custará um cêntimo aos contribuintes.
Depois do BPN e tudo o que se lhe sucedeu vemos a história a repetir-se. Um banco bem relacionado com o topo da hierarquia política e com os grandes negócios do país entra em dificuldades e é considerado como “demasiado grande para falhar”. Depois, inventa-se uma linguagem e uma solução criativa para disfarçar a operação e, de seguida, utilizam-se os recursos que pertencem a todos os portugueses para o recapitalizar, saldar-lhe as dívidas, levantá-lo do chão, sacudir-lhe a poeira do fato e devolvê-lo aos mesmo que o arruinaram.
Não sabemos ainda ao certo quanto irá custar no total a salvação do banco dos Espírito Santo, mas já podemos apostar sobre quem é que vai pagar a factura.

Texto publicado n0o Jornal Incentivo
8 Agosto 2014