sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

asas cortadas

Nas últimas semanas, a situação da SATA fez correr rios de tinta e ocupou horas de emissão. No entanto, como tantas vezes acontece, o aumento da quantidade de informação não significou que ficássemos mais esclarecidos em relação aos problemas de fundo que afectam a nossa transportadora aérea regional. Pelo contrário, o que tivemos foram declarações contraditórias, números desencontrados, anúncios e desmentidos, promessas de prosperidade futura e garantias de falência eminente, num espectáculo mediático que se destina sobretudo a desviar a nossa atenção do que é essencial.
O Governo Regional, como de costume, geriu cuidadosamente a comunicação do assunto, libertando informação a conta-gotas, procurando marcar o debate e influenciar as opiniões ainda antes de ser conhecido, na íntegra, o seu “Plano Estratégico” para a SATA. Desta forma, o que devia ser uma discussão pública séria e transparente tornou-se um diálogo estranho, no qual um dos lados tem toda a informação e ou outro lado só tem a informação que o primeiro quer.
Esta forma profundamente desonesta de fazer política, não sendo nova, conheceu um novo patamar na discussão em torno da SATA. O Governo Regional apresentou ao Parlamento um documento que já tinha enviado dias antes a um grupo escolhido de jornalistas, mas que era, pasme-se, uma versão censurada do verdadeiro Plano Estratégico da SATA, no qual faltavam informações e opções fundamentais.
No meio da indignação generalizada e compreensível dos deputados dos partidos da oposição e do lamentável silêncio da Presidente da Assembleia Regional, alguém que desconheço, mas certamente bem colocado na administração da SATA ou do aparelho do Governo, publicou na internet a versão integral do plano de negócios, só que desta vez sem qualquer consideração pelo mínimo atendível de segredo comercial, indo ao ponto de divulgar tarifas e planificações de voos, fragilizando a SATA em relação aos seus concorrentes.
Este jogo de claro-escuro, jogado por actores que se movem na sombra ao serviço de interesses desconhecidos tem certamente pelo menos dois objetivos:
Em primeiro lugar, continuar a fragilizar a posição e a imagem da nossa transportadora aérea pública, favorecendo a concorrência privada e tornando mais “aceitável” para a opinião pública açoriana o seu desmantelamento progressivo, com vista talvez à sua privatização futura, como aliás já prevê o famoso “plano estratégico”.
Em segundo lugar, distrair-nos do que são as responsabilidades directas e exclusivas dos Governos Regionais do PS, que está sozinho no poder na nossa Região há quase 20 anos. Têm sido anos e anos a usar a politicamente a SATA, aumentando frequências e criando ligações para ganhar votos, sem preocupações com a sustentabilidade financeira das opções tomadas. Foram anos e anos de nomeações partidárias para a administração do Grupo SATA, uma prática que continua com Luís Parreirão, homem do aparelho do PS, muito ligado a Jorge Coelho, de quem foi Secretário de Estado e com quem foi para a Administração da Mota-Engil, antes de ser chamado por Vasco Cordeiro para presidir à administração da SATA.
E, de forma ainda mais escandalosa, têm sido anos e anos com o Governo Regional a financiar-se à custa da SATA, pura e simplesmente não lhe pagando o que lhe deve, nomeadamente pelo serviço público, e obrigando assim a SATA a recorrer ao crédito bancário para tapar o buraco. Assim, agravam-se as dificuldades da companhia, mas que têm sobretudo a ver com as dezenas de milhões de Euros que o Governo Regional lhe deve e que continua a recusar pagar. Pague-se o que se deve à empresa pública e ela poderá ser sustentável, senão lucrativa, se for bem gerida.
Mas não é isso que perspetiva, no concreto, o “plano estratégico”. Para além da cosmética mudança de imagem e nome para “Azores Airlines”, que não se sabe quanto vai custar, a solução é a do costume: despedimentos de pessoal, disfarçados como também é costume sob o eufemismo de “não-renovação de contratos”, assumindo o Governo Regional uma vez mais o papel de promotor activo do desemprego na Região.
E, sob os nossos olhos, o Governo Regional continua o seu moroso trabalho de cortar as asas à SATA, desmantelando a mais estratégica e essencial das empresas regionais, património nosso, que custosamente pagámos ao longo de décadas. Vamos permitir que isto aconteça?

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