sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

isto diz-nos respeito

Desenganem-se os que julgam que o despedimento de 500 trabalhadores portugueses da Base das Lajes é um problema da ilha Terceira. Pelo contrário, é muito mais um problema regional e nacional de primeira ordem, que diz respeito a todos os açorianos e, verdadeiramente, a todos os portugueses.
O impacto dos despedimentos no plano económico é enorme. Para além dos 500 postos de trabalho directos, de acordo com a União dos Sindicatos de Angra do Heroísmo, poderão estar em causa cerca de 2500 postos de trabalho indirectos – entre empresas que trabalham para a Base e outro pessoal que presta serviços à comunidade militar norte-americana, nos concelhos de Praia da Vitória e Angra do Heroísmo. 3000 desempregados mais significa elevar outra vez o desemprego na nossa Região bem para cima dos 20%, sem programas ocupacionais ou estágios inventados que o consigam disfarçar.
Para além do custo directo, em termos de prestações sociais e subsídios de desemprego para todas estas pessoas, estes 3000 novos desempregados terão um impacto enorme no mercado de trabalho regional. Os poucos empregos que existem serão agora procurados por muito mais gente, pressionando ainda mais para baixo os salários e as condições laborais.
Serão também, no fim de cada ano, milhões de euros que deixam de entrar na economia regional, o que irá afectar todas as ilhas, não só pela perda de receita fiscal para os cofres da Região, como também pela redução da actividade e das trocas no nosso mercado interno, para o qual trabalham bem mais de 90% das empresas da Região.
Recorde-se que os norte-americanos nunca pagaram um tostão que fosse pelo uso da Base. A única “contrapartida” que cobriram foi a construção do porto da Praia da Vitória, gigantesco elefante branco, concebido para os seus interesses militares e não para a dimensão das nossas ilhas. Os únicos benefícios da sua presença militar nos Açores eram apenas os salários que pagavam aos trabalhadores.
Mas acaba também por ser um problema nacional, que diz respeito a todos os portugueses, especialmente por que mostra como são tratados os interesses do país por parte daqueles que elegemos para os defender.
Soube-se esta semana que, afinal, o Estado Português sabia da intenção norte-americana de reduzir drasticamente no número de trabalhadores portugueses na Base das Lajes desde Abril de 2013! Ao que foi noticiado, essa ideia foi comunicada à parte portuguesa, que não só não a contestou, como se limitou a tentar negociar contrapartidas militares, em formação e equipamentos.
Afinal o Governo da República sabia e as suas declarações consternadas e aparentemente surpreendidas não passaram de uma descarada hipocrisia. E não é claro se o representante do Governo Regional nessa Comissão Bilateral teve ou não, também, conhecimento das intenções norte-americanas.
Trocar os trabalhadores da Base das Lajes por equipamentos e facilidades militares nas costas dos açorianos é uma clara traição aos interesses nacionais, que devia ser severamente punida, talvez mesmo por via criminal, já que esse crime até está previsto no nosso Código Penal, sob o título de “infidelidade diplomática” ou mesmo de “traição à Pátria”.
Este não é um momento para bairrismos ou pequenas rivalidades de ilha, mas também não é admissível que os investimentos e as medidas estruturais de que a Terceira irá precisar sejam feitos com sacrifício ou em prejuízo das restantes ilhas. E, nomeadamente, não podemos consentir que, a coberto desta catástrofe social, se procure ressuscitar a ideia peregrina da plataforma logística, encarecendo os custos da carga marítima para o resto do arquipélago, para abrir uma nova frente de negócio para os grandes armadores regionais.
O caminho tem de ser outro, nomeadamente exigindo aos Estados-Unidos que assumam a responsabilidade pelo desastre social que criaram e essa exigência deve unir todos os portugueses e todos os açorianos. Porque isto diz-nos respeito. 
Texto publicado no Jornal Incentivo

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