sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

je suis Baga

Os ataques ocorridos em Paris no passado dia 7 de Janeiro provocaram uma onda de indignação e choque que abalou o nosso mundo. Nos média e nas redes sociais a expressão “Je suis Charlie” (“eu sou Charlie”) tornou-se o símbolo da consternação e solidariedade espontânea de milhões de cidadãos em relação ao ataque ao jornal humorístico Charlie Hebdo.
A fortíssima reação aos atentados de Paris fizeram, no entanto, que passasse quase completamente despercebido um massacre de dimensões inacreditáveis, que aconteceu apenas 3 dias depois. No norte da Nigéria, a milícia fundamentalista islâmica Boko-Haram entrou sem aviso na cidade de Baga e executou a tiro, de acordo com os relatos obtidos pela Amnistia Internacional, cerca de 2000 pessoas. Soube-se esta semana que a cidade de Baga basicamente foi riscada do mapa, pois mais de 3700 casas foram incendiadas e arrasadas.
Esta milícia foi responsável pelo rapto, no ano passado, de 276 raparigas (das quais continuam desaparecidas 219) de uma escola, para se tornarem “esposas” dos seus guerrilheiros e move uma guerra civil contra o Estado Nigeriano que causou mais de 10 mil mortos no ano passado e que criou cerca de um milhão de desalojados.
A milícia Boko-Haran, cujas origens são muito mal conhecidas, tem uma visão extremamente primária do Islão e uma abordagem absolutamente reacionária e radical da organização da sociedade. Consideram que é perfeitamente correto, se não mesmo uma virtude, eliminar todos os que não aderirem exatamente à sua conceção e prática religiosa. As suas preocupações estão centradas no combate ao que chamam “educação ocidental”, que pensam ser uma influência perniciosa e que pretendem banir. Por isso, consideram as escolas modernas, os seus professores e alunos como alvos militares válidos que não hesitam em atacar. Uma das marcas mais sinistras do caráter desta milícia é a sua utilização recorrente de crianças raptadas como bombistas suicidas. Não parece haver um limite para a monstruosidade de que são capazes.
O valor de uma vida humana é infinito e, por isso, são inúteis as matemáticas comparativas. Um morto é um morto, seja em França ou seja na Nigéria. Mas não deixa de ser muito significativo o facto de uns provocarem entre nós uma onda generalizada de indignação e choque enquanto os outros provocam... nada.
A banalização das imagens de violência no continente africano (basicamente as únicas notícias que nos mostram) relativizaram o valor da vida dos africanos e das barbaridades que sobre eles se abatem. Mortes violentas em Paris são notícias bombásticas, enquanto mortes violentas em África, enfim..., são o costume há muitos anos. Enquanto se mantiver este desequilíbrio, enquanto o ocidente agir com dois pesos e duas medidas, os extremistas continuarão a encontrar razões para a violência.
Fiquei, como tantos outros, chocado com o brutal assassinato dos cartoonistas do Charlie Hebdo, mas isso não me impede de ver a hipocrisia dos média e dos nossos governantes, que ficou bem marcada pelo facto das 17 vítimas de Paris provocarem logo grandes manifestações e promessas de ações militares de combate aos fundamentalistas, enquanto as 2000 pessoas assassinadas em Baga provocaram apenas uma indiferença generalizada. Quantos mortos nigerianos são necessários para igualar um francês?

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