sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Horta, século XIII

Ao percorrer a grande autoestrada de seis faixas de alta velocidade, a que os antigos faialenses chamavam Avenida 25 de Abril, tentei ver o Pico do outro lado do canal. Sem hipótese. Não havia uma brecha sequer na muralha continua de outdoors iluminados e painéis eletrónicos publicitários, ao longo da extensão da baía, que me bombardeavam com imagens brilhantes e mensagens optimistas, que mostravam todas as maravilhas realizadas pelo Governo Regional que continuava, há séculos, a modernizar os Açores.
Do outro lado da autoestrada, as fachadas espelhadas dos colossais hotéis não deixavam ver os extensos parques de estacionamento do interior da cidade, com as suas filas intermináveis de automóveis, entre os quais existiam ainda, aqui e ali, um ou outro edifício antigo e degradado, naturalmente já desabitado, relíquias do passado que o progresso pujante da nossa cidade ainda não fizera desaparecer.
Os múltiplos parques de estacionamento e as autoestradas para os vastos bairros-dormitórios dos Flamengos e da Feiteira, faziam com que fosse cada vez mais fácil trazer o carro para o centro e o recente projeto de um túnel a unir a Conceição a Almoxarife prometia fazer a inveja até da Madeira e de São Miguel.
Assim, todas as manhãs, os faialenses, cada um no seu carro, vinham para os seus programas ocupacionais, depois de finalmente se ter acabado com essa coisa primitiva dos contratos de trabalho, que tanto prejudicavam a produtividade. Felizmente já não existiam trabalhadores, só empresários subsidiados ou beneficiários de “ocupação”, privilégios generosamente distribuídos pelo nosso paternal Governo dos Açores.
A Horta tinha finalmente assumido a sua vocação de capital do turismo, abandonando a agricultura, antiquada e inútil depois de terem terminado os subsídios europeus, conservando-se apenas algumas vacas para os turistas fotografarem. Da mesma forma, o antigo porto de pescas fora encerrado, até porque há muito que não se encontrava qualquer peixe à volta das ilhas e fora reconvertido na grande central de aquacultura de perca-do-Nilo-dos-Açores. Os pescadores, esses, dedicavam-se agora a fazer passeios turísticos e a posar para as fotos. A cidade crescia a olhos vistos, com as carradas de gente que os voos low-cost despejavam no recentemente inaugurado aeroporto internacional das Dutras.
A autoestrada marginal desembocava numa rotunda à sombra da estátua, de dezenas de metros de altura, do Presidente da Câmara que em tempos antigos, nos inícios do século XXI, teve a visão de modernizar a nossa cidade. À direita, onde em tempos se erguia um velho terminal marítimo, um fluxo continuo de automóveis saia da ponte Vasco Cordeiro, que atravessava o canal, unindo Horta e Madalena, uma imponente realização da engenharia açoriana que, apesar dos cinquenta anos de atraso na obra e dos colapsos ocasionais, era o orgulho das duas ilhas.
Fatigado, estacionei junto ao edifício do Grande Hotel da Alagoa, que cobria por completo um antigo parque, coisa inútil e não produtiva com que os faialenses de outras eras teimavam em ocupar espaço urbano precioso, mas que fora, finalmente, “modernizado”. Um longo painel eletrónico, que cobria de ponta a ponta a frente da antiga praia, anunciava-me, em grandes letras luminosas: “BEM-VINDO À HORTA DO FUTURO!”
(Qualquer semelhança deste texto com a realidade pode não ser uma mera coincidência.)

Texto publicado no Jornal Incentivo
27 Fev 2015

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