sexta-feira, 22 de maio de 2015

Quatro tábuas

Os trágicos naufrágios no Mediterrâneo mostram uma face da União Europeia que não estamos habituados a ver, mas que é real e que, sob o palavreado óptimista da “Europa dos Direitos Humanos” e da “Europa dos Cidadãos” que a propaganda eurocêntrica matraqueia, revela muito do carácter imperial e agressivo do Projecto Europeu.
Ao longos destes últimos meses milhares de pessoas têm morrido nas águas do Mediterrâneo, que tentam atravessar ilegalmente em embarcações precárias, às vezes pouco mais do que velhos botes de borracha sempre sobrelotados.
São movidos por aflições profundas, que se relacionam com a fome, a miséria, a repressão política e a guerra que grassa em tantos países africanos e do Médio Oriente. Em muitos casos já não se trata do sonho do imigrante, que nos Açores conhecemos bem, de trabalhar e conseguir uma vida melhor noutro país, mas sim o frio desespero da sobrevivência, em que ficar do lado de lá significa a morte certa, ou quase. Assim, com quatro tábuas, vontade de viver e nada mais, fazem-se ao mar.
Desde há muito que o Norte de África e Médio Oriente eram destinos habituais de imigração para cidadãos de países pobres e populosos da África Subsariana. Só que, as mais recentes “intervenções” mais ou menos humanitárias dos países europeus e da Nato acabaram por lançar no caos estas regiões, aumentando ainda mais o número de refugiados/imigrantes. Resultado: multidões incontáveis de gente desesperada, que não pode voltar e que não tem nada de seu, lançam-se à aventura, nas mãos de máfias criminosas de contrabandistas de seres humanos, tentando atingir senão a prosperidade, pelo menos a segurança.
Um dos exemplos mais claros deste processo é a Líbia. Tratava-se de um país relativamente abastado, para os níveis africanos e não só, estável, embora com uma democracia bastante “musculada” e um bom parceiro de negócios da União Europeia, a quem vendia (e continua a vender) gás natural, nomeadamente para Itália, França, Espanha e Portugal. Quem não se lembra da visita a Portugal de Kadafi e das suas cordialíssimas e afáveis relações com o então Primeiro-Ministro José Sócrates?
Mas os tempos mudam e as simpatias políticas ainda mais e, poucos anos depois, a campanha de bombardeamentos da Nato, a entrega de armas e financiamento a milícias rebeldes levaram à queda do regime e à morte violenta do presidente Líbio. Depois disso o país caiu numa situação de caos completo. Essas mesma milícias e grupos irregulares que tinham sido proclamados pelo Ocidente como “lutadores pela democracia e liberdade” dedicaram-se a saquear o que a guerra civil ainda não tinha destruído, recusando a autoridade de qualquer Governo, levando a que o país se partisse novamente em dois, com dois governos, em duas capitais, que se combatem mutuamente pelo domínio dos recursos petrolíferos. Toda a administração pública, serviços de segurança, educação e mesmo saúde, acabaram por ficar paralisados, podendo-se mesmo dizer que actualmente não existe Estado na Líbia, uma situação análoga ao que já tinha acontecido na Somália, que é aliás outro exemplo dos resultados das intervenções do ocidente.
Assim, os muitos emigrantes que a Líbia acolhia e empregava passaram a ter de ir mais além, para a Europa, só que agora acompanhados também de muitos líbios desesperados que não conseguem sobreviver no seu próprio país. E se falei da Líbia, poderia ter falado da Síria, do Iraque, do Egipto, do Iémen, entre outros.
A nossa Europa, como os EUA, tem enormes responsabilidades nestes processos e vê-se agora confrontada com os resultados da sua política agressiva, a que responde com deportações sumárias para a origem, campos de detenção de imigrantes e mesmo, casos houve relatados, o puro e simples abandono no mar, para que as ondas resolvam “o problema”. Na nossa moderna Europa bem-falante, na Europa “dos Direitos Humanos”, só é humano e só tem direitos quem tem um papelinho com a nacionalidade certa e os imigrantes africanos e do Médio-Oriente não se qualificam.
Texto publicado no Jornal Incentivo
22/05/2015

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