sexta-feira, 3 de julho de 2015

reabilitação... de fachada!

A Câmara Municipal da Horta continua na crista da onda da modernidade, dando o exemplo de inovação e elevando a fasquia da qualidade na gestão autárquica, com rompantes de genialidade que lhe são muito próprios. Desta vez os nossos brilhantes autarcas viraram o seu olhar penetrante para a questão da reabilitação urbana e rapidamente encontraram a solução que há muito o nosso Concelho procurava: se não há dinheiro para recuperar os edifícios degradados, sempre se arranjam umas latas de tinta para lhes pintar as fachadas. Genial!
Assim, a Assembleia Municipal aprovou na sua última sessão, um programa de recuperação de fachadas de edifícios no centro histórico. Quando confrontado com a pergunta se este programa iria abranger também os edifícios que estão degradados e inabitáveis, o nosso incansável Edil... esqueceu-se de responder, demonstrando com o seu silêncio que, se calhar, pintar ruínas é justamente um dos principais objectivos deste programa inovador.
A proposta foi aprovada apenas com os votos favoráveis do PS e uma tática abstenção do PSD, diga-se, porque é importante notar quem é que apoia, ou não condena, medidas para enganar, senão os indígenas, pelo menos os visitantes, que ficarão a pensar que a Horta é um modelo de uma cidade histórica bem preservada, onde se sabe dar valor ao passado e estimar a memória colectiva, enfim, muito o contrário do que é na realidade.
Diga-se, em abono da verdade, que não há verdadeiramente grande problema que a CMH institucionalize e torne permanente a distribuição de baldes de tinta, que normalmente só perto das eleições costuma acontecer. E diga-se também que são positivos todos os apoios que se possam dar à reabilitação urbana e aos proprietários que querem recuperar os seus edifícios. Mas, na verdade, este não é um apoio à reabilitação. É um apoio à não reabilitação, a deixar tudo como está, abandonado e degradado, por trás da brilhante fachada pintada de fresco. Dentariamente diríamos, branquear as cáries, sem lhes tapar os buracos.
Os recursos financeiros públicos são escassos e preciosos. E o que se vai gastar nas latas de tinta para esconder a degradação do edificado da Horta seria muito melhor empregue a apoiar os proprietários que querem recuperar o seu património, a ajudá-los a conseguir crédito bancário, por exemplo, ou a realizar obras coercivas em casos mais graves.
A visão de uma cidade de belas e brilhantes fachadas que escondem uma profunda degradação e abandono é o espelho de uma determinada maneira de entender a política, dando valor à aparência e não ao conteúdo, preferindo o espectacular ao trabalho honesto e persistente. Uma política de fachada, pintada de fresco, naturalmente.
Texto publicado no Jornal Incentivo
3 Jul 2015

2 comentários:

Anónimo disse...

Nada novo... visitem Barcelona.

Tiago R. disse...

Pois... mas o Gaudi que a uns sobeja a outros falta!
Em todo o caso já o Santana Lopes, quando na Câmara de Lisboa, teve a mesma ideia.