sexta-feira, 23 de outubro de 2015

para que serve um governo?

Pela primeira vez em muitos anos, a questão da formação do Governo não ficou definida na própria noite das eleições. E no momento em que escrevo, mais de duas semanas depois do acto eleitoral, ainda não é claro o futuro.
O costume é que, o descontentamento com o governo do PSD resulte numa vitória do PS, com absoluta ou relativa maioria, ou, ao invés, que o descontentamento com o governo do PS, resulte exactamente na mesma coisa para o PSD, num rotatisvismo bipolar que, até ao passado dia 4, não parecia ter saída nem alternativa, verdadeiro parafuso-sem-fim político.
Mas tudo mudou e os resultados ditaram que essa rotação eterna e sem sobressaltos, fosse finalmente interrompida. Espera-se que a bem de nós todos e do País que, legislatura após legislatura continuava teimosa e inexoravelmente a afundar-se numa crise e recessão sem fim à vista.
Sobretudo, creio que o voto dos portugueses foi extremamente inteligente. Condenaram de forma clara a política do PSD e do CDS, fazendo-os perder 700.000 votos, 12,5%, 25 deputados e a maioria para governar, demonstrando o profundo isolamento social e político do seu Governo e da sua política de austeridade brutal.
Mas, e ao contrário do que era hábito, desta vez não deram a vitória ao PS, mostrando assim que não querem políticas de “mais do mesmo”, mesmo que com uma imagem mais simpática. Em vez disso, fizeram crescer as margens, o BE e a CDU, tornando-os determinantes essenciais do próximo Governo, que terá forçosamente de ter em conta as suas ideias.
Assim, embora haja ainda muita coisa por esclarecer, nomeadamente se o PS será ou não capaz de se entender com os seus parceiros à esquerda, parece óbvio que o próximo Governo, não pode servir para continuar a mesma política de austeridade e sacrifícios que, no fim de contas, não conseguiu reduzir nem a dívida, nem o défice, nem a recessão, nem o desemprego.
O novo Governo não vai, infelizmente, servir para começar as grandes rupturas e mudanças de que Portugal precisa, enfrentando os problemas da submissão ao Euro e do Tratado Orçamental da UE, que tem destruído a nossa economia e roubado a soberania nacional porque andamos a lutar há quase mil anos.
Mas também não pode servir para apenas disfarçar a política de sempre, atirando um rebuçado do “pão por Deus” aos portugueses e deixando outras mudanças como promessas faseadas ao longo da legislatura, provavelmente acabando esquecidas e engavetadas com os habituais argumentos da “mudança de conjuntura” e da “pesada herança” que os governos sucessivamente sempre utilizam para não cumprir o que prometem.
Mas mesmo assim, o novo Governo pode e deve servir para aliviar algumas das nossas dificuldades e, quem sabe, começar a traçar um rumo de retoma económica. O novo Governo pode e deve servir para aumentar o salário mínimo para os 600 Euros já em 2016, uma actualização mais do que necessária para tirar milhares de portugueses da miséria em que foram mergulhados apesar de trabalharem e gerarem riqueza para o país.
O novo Governo pode e deve servir para devolver o roubo nos salários (não foi corte, foi roubo mesmo!) da função pública, que afectou muitos milhares de trabalhadores que não são privilegiados, nem auferem um salário chorudo, antes pelo contrário, têm salários médios bem inferiores ao privado e aumentos zero há muitos anos.
O novo Governo pode e deve servir para reduzir os impostos que esmagam famílias e empresas e que são um enorme obstáculo à recuperação económica do país e que têm sido encaminhados, de forma quase directa, para os cofres dos credores internacionais e para pagar as dívidas dos banqueiros do regime.
Sobretudo, o novo Governo pode e deve servir para mostrar, contra o que nos diziam, que há alternativa à política de empobrecimento, que há esperança para este país. E mesmo que só venha a servir para isso, já não será pouco.

Esta é a 100ª crónica que publico nas páginas deste jornal. Em primeiro lugar agradecimentos são devidos à incansável equipa do Incentivo, que teima em publicar um jornal diário nesta ilha, contra todas as dificuldades. Aos leitores, obrigado pela atenção e ainda mais pelas críticas e sugestões. Este espaço também é vosso.

23 Out 2015