segunda-feira, 23 de novembro de 2015

a chama de Paris

Os terríveis atentados de Paris deixaram-nos a todos chocados e assustados, pela brutalidade da violência empregue, pela calma implacável dos homicidas, pelo balanço pavoroso dos 129 mortos e mais de 300 feridos, mas talvez por algo mais profundo do que isso.
Não só porque é uma cidade próxima, no coração da Europa, estivemos lá ou conhecemos quem lá vivesse, vimos as imagens dos filmes e as fotografias dos bilhetes postais, mas sobretudo porque Paris é um símbolo. Trata-se da cidade fundadora dos nossos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, da primeira capital multi-cultural da Europa, Cidade-Luz, insígnia de uma sociedade determinada a manter-se aberta, tolerante e livre, acolhendo gente de todos os cantos do mundo, muitos portugueses também, num processo de integração, que naturalmente não se faz sem atritos, mas que continua a representar o melhor dos nosso valores.
É este símbolo, são estes valores, que os fundamentalistas temem e odeiam porque o seu poder assenta justamente na intolerância e no medo, na necessidade de segurança a sobrepôr-se a todas as outras considerações, na lógica do destruir o outro antes que o outro nos destrua a nós, no medo de perder a própria identidade quando em contacto com o estrangeiro, com o diferente. Conhecemos bem, também no ocidente, esta forma de pensar que, não há muitos anos nos mergulhou numa Guerra Mundial. Os fundamentalistas são iguais em toda a parte, mesmo que o radicalismo dos seus métodos vá variando.
Foi justamente contra o que Paris simboliza que estes ataques foram dirigidos e, por isso, atingiram-nos a todos de uma forma muito mais intensa do que horrores similares recentes, no Líbano ou na Nigéria, por exemplo.
Como vítimas dos atentados de Paris que também somos, cada um de nós vê-se confrontado com um desafio, o mesmo grande desafio que colectivamente se coloca às sociedades ocidentais: ou abandonar os nossos valores, abandonarmo-nos a nós próprios e refugiarmo-nos no medo e na intolerância, trocando a liberdade por uma promessa de segurança, em certa medida tornando-nos nós mesmos cópias dos fundamentalistas ou, pelo contrário, termos a coragem de aceitar a diferença, de usar a tolerância e a liberdade como armas para retaliar contra o fundamentalismo no único terreno em que o fundamentalismo pode ser derrotado: nos corações e mentes dos homens.
Esta última opção, se a quisermos tomar, obriga a que se olhem os problemas de frente, com mais racionalidade e menos emoção e se abordem as suas causas profundas, recusando as explicações superficiais e os supostos atalhos para a paz à força de bombas. A verdade é mais complicada do que o que nos explicam nos telejornais.
Ao contrário do que já por aí se diz, a vaga de refugiados não tem a ver com estes atentados. Dos terroristas identificados nenhum era refugiado e ainda antes de começar a migração em massa, em Janeiro passado, aconteceram os ataques ao jornal Charlie Hebdo, também em Paris. Não sendo impossível que existam fundamentalistas infiltrados entre eles, a verdade é que, esses, de há muito se infiltram ou estão presentes na Europa por múltiplas vias. Regra geral não se arriscam em travessias oceânicas em botes de borracha, preferindo usar meios mais sofisticados e caros, que não estão alcance de famílias pobres que fogem da guerra no seu país.
Outro facto cada vez mais claro, confirmado pela história, é o de que não vamos atingir a paz e a segurança que ambicionamos à lei da bomba. A única solução para enfraquecer seriamente o estado islâmico e as organizações que lhe estão associadas na Síria é dar início a um processo de paz, com negociações diplomáticas que conduzam a um cessar-fogo e a uma reconciliação nacional, algo que as potências ocidentais têm hesitado em fazer, devido à desconfiança que nutrem em relação ao actual governo sírio. Enquanto nos limitarmos a continuar a despejar material de guerra sobre a Síria, o EI continuará a ganhar força e a atacar o coração da Europa e os valores que nos unem. Despejar mais combustível na fogueira não apagará o fogo. O caminho da paz não é fácil, mas que outra escolha temos?

Texto publicado no Jornal Incentivo
23 Novembro 2015

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um Governo serve para isto:

Derrubou-se o Governo velho e tudo aponta para que tenhamos, nas próximas semanas, um Governo novo. Novo porque, espera-se, vai travar as velhas políticas de austeridade que nos deixaram a todos mais pobres e explorados, enquanto afundaram ainda mais o País na dívida, no défice e na recessão.
Espera-se que seja um Governo novo não apenas pela dança de cadeiras e mudança de protagonistas, mas novo sobretudo pelo que se espera que possa fazer por nós, portugueses explorados e empobrecidos por quatro anos do fanatismo da direita. Um Governo novo que sirva para isto:
Para dar o justo valor a quem trabalha: para repôr os feriados retirados; para combater decididamente a precariedade laboral, incluindo os falsos recibos verdes, o recurso abusivo a estágios e o uso de contratos emprego/inserção para substituição de trabalhadores; para revêr a base de cálculo das contribuições pagas pelos trabalhadores a recibo verde; para repôr os salários dos trabalhadores da Administração Pública em 2016 e para acabar com o regime de mobilidade especial; para repôr o horário de trabalho de 35 horas em toda a Função Pública, bem como para eliminar as restrições de contratação de trabalhadores na Administração Pública central, regional e local.
Para trazer equilíbrio e equidade aos impostos: para reduzir para 13% do IVA da restauração; para introduzir uma cláusula de salvaguarda impedindo aumentos brutais no IMI; para eliminar a sobretaxa do IRS; para aumentar o número de escalões e a progressividade do IRS; para alargar o estímulo fiscal às Pequenas e Médias Empresas em sede de IRC.
Para apoiar as famílias e os que mais precisam: Para descongelar as pensões; para repôr os complementos de reforma dos trabalhadores do sector empresarial do estado; para garantir que a casa de morada das famílias fique protegida de execuções fiscais e penhoras; para alargar o acesso e aumentar os montantes das prestações de protecção social e apoio social.
Para investir na educação e na ciência: Para reforçar a reforço da Acção Social Escolar directa e indirecta; e para dar um vínculo aos trabalhadores docentes e não docentes das escolas; para reduzir o número de alunos por turma; para tornar progressivamente gratuitos os manuais escolares; para integrar os investigadores doutorados em laboratórios e outros organismos públicos e substituir as eternas bolsas de pós-doutoramento por contratos de investigador; para impedir qualquer novo processo de privatização de empresas públicas.
Estas são apenas algumas das questões em que PS, PCP, BE e PEV convergiram, pondo de parte as profundas diferenças, que ninguém nega, valorizando o que é importante e urgente: inverter o desastre nacional e começar a traçar um rumo de esperança para o país e para os portugueses. Um Governo serve para isto.

Texto publicado no Jornal Incentivo
13 Nov 2015