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domingo, 30 de outubro de 2011

cegueira editorial


PS (que apropósito!) vai desenterrar o esqueleto de Adam Smith e o exemplo de Hong-kong para tentar mostrar que impostos baixos e pouca intervenção estatal são a receita para o crescimento e para a abundância, repetindo acriticamente o que viu no documentário da TVI24 que eu também vi.

Só que esquece, se é que o sabe, que na década de 70 estávamos perante um período de forte expansão económica em que um grande conjunto de capitais procurava, em mercados emergentes, melhores remunerações e que encontraram nos paraísos fiscais como Hong-kong a base ideal para as suas operações. Este cenário nada tem a ver a com a realidade actual. É talvez a nostalgia de uma "década de ouro" do capitalismo que leva PS a cantar-nos este fadinho do "Oh tempo, volta p'ra trás!". Além disso, mesmo agora, as coisas não andam assim tão famosas para as empresas de Hong-kong, ainda que protegidas pelo yuan, basta dar uma vista de olhos à secção de economia do The Standard.

PS, também não menciona o facto de Hong-kong ser permanentemente abastecida por uma abundantíssima vaga de mão-de-obra barata vinda da China que, sem qualquer direito ou reivindicação, montava transístores a troco de uma tigela de arroz por dia. Para mais, falar no PIB per capita de Hong-kong é uma falácia e um cinismo, porque esconde a profundíssima desigualdade entre os multi-milionários e as grandes empresas, dum lado, e a massa de trabalhadores explorados, por outro.

É bom lembrar que Hong-kong foi ocupada durante a 1ª Guerra do Ópio, em que os britânicos impuseram a livre circulação do ópio na China e para a Europa à força de canhoneira. Isto, sim, faz lembrar tempos mais actuais. Afinal, também nessa altura a motivação não era o desenvolvimento harmonioso, mas sim o lucro à custa do sofrimento humano. Mas de nada disto se falava no documentário que PS viu e repetiu aos seus leitores.