Mostrar mensagens com a etiqueta Governo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Governo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de abril de 2010

assuntos e desgraças

Confesso estar a ficar enfastiado! É a omnipresença da pessoa do Primeiro-ministro, em dezenas de mensagens que me caem todos os dias no correio electrónico, ou em títulos de primeira página, constantes em qualquer tablóide ou ecrã. Pelo facto de ser PM, há um indivíduo sobre quem se pretende fazer recair, todos os dias, tudo o que de bom, ou de desgraças e reveses, acontecem no país.

Na internet pontificam as caricaturas e o ridículo da figura do PM onde Sócrates é transformado em depósito de lixo emocional. Nos tablóides e nos ecrãs, em primeiro plano de ataque, aparecem os projectos indevidamente assinados há 20 anos por um deputado a tempo inteiro. Mas há também, em simultâneo, a comissão de inquérito que o quer ver a depor sobre o negócio da PT para comprar a TVI, ou sobre o seu intervencionismo ilegítimo na comunicação social. São antigos admiradores da sua “corajosa” política de controlo do défice (e cortes nas reformas) a queixarem-se do desaire actual dos 9,3%. É o diploma universitário passado à má-fila. A Face Oculta, o Freeport, etc.

Não pretendendo negar a importância destes assuntos, constituirão eles, contudo, problemas ultrapassáveis pela simples substituição da pessoa que ocupa actualmente o cargo de PM? Penso bem que não e, apenas como exemplo, aí está o negócio dos submarinos para o provar. Muito menos serão estes os assuntos que materializam verdadeiramente os reveses e desgraças que assolam o país. As suas vítimas, entretanto, vêem-se por eles de tal forma enredadas, que acabam por se dividir (em claques rivais) entre a solidariedade instintiva com os acusadores ou a solidariedade cega com o acusado, esquecendo-se por momentos do encerramento da sua empresa, na semana anterior, ou das dívidas em que se viram atolados, há meses a esta parte.

Este tipo de assuntos, dirigidos sobre alvos personalizados e tratados com importância suprema e exclusiva, geram em regra achincalhamentos inconsequentes, por um lado, ou solidariedades acríticas, por outro. Veja-se o caso paradigmático da figura de Alberto João Jardim.

Enquanto o alvo é a pessoa, os problemas não se resolvem. Enquanto se procura desacreditar o modo e a ética do fulano, não se desacreditam as políticas erradas de que ele, e outros, são responsáveis. Apenas se cria (artificialmente) a ideia aleatória de que a substituição da pessoa arrastará consigo o fim das desgraças e dos reveses.

Não estando mobilizada e participativa, com sentido crítico em relação às políticas vigentes, a sociedade e o país acabam vítimas indefesas destas e manipulados por interesses de grupo (que não os seus), enquanto as substituições de fulano por beltrano se processam, os grupos sobrevivem com privilégios acrescentados, e as desgraças vão alastrando…
Mário Abrantes

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

reviravoltas

Nem todas as reviravoltas políticas são negativas. Tudo depende do ponto de partida.

Exemplos recentes de reviravoltas são as de Paulo Rangel ao anunciar a candidatura à liderança do PSD, sete dias depois de anunciar que ninguém compreenderia a sua candidatura a tal cargo…

Ou a do Procurador Geral da República a eliminar escutas, um mês depois de ter afirmado que, para aliviar tensões, por sua vontade as punha todas cá para fora…

Ou a de Maria do Céu Patrão Neves, quando, após uma campanha eleitoral em que anunciou, caso fosse eleita, a sua intervenção firme como deputada europeia em defesa da manutenção do regime das quotas leiteiras, resolveu revisitar os lavradores dos Açores, já como deputada em exercício, mas agora com o objectivo prioritário de lhes tirar da cabeça a abstrusa ideia da continuidade desse regime…

O Leitor, em consciência, ajuizará sobre a qualidade destas reviravoltas, e daí tirará as ilações que muito bem entender.

Há no entanto reviravoltas indubitavelmente positivas, mesmo que à custa (e afinal por isso mesmo) de profundas desgraças.

Sócrates poderia ser tonto e irresponsável que ninguém lhe levava a mal, desde que não fosse Primeiro-ministro. Mas, por falta de juízo e responsabilidade institucional, enquanto no exercício de tal cargo, resolveu cortar verbas às Finanças Regionais da Madeira. Contra isso, embora sem adiantar rigorosamente nada em consequência, o Presidente do Governo Regional da Madeira, com tanto juízo e responsabilidade institucional quanto o Primeiro, gastou uma catrefa de dinheiro em eleições regionais antecipadas para, após a reeleição, adormecer, de consciência tranquila (?) sobre o corte de verbas decretado.

Não fora a perda da maioria absoluta, e o comportamento institucionalmente irresponsável, porque prejudicial aos madeirenses, do PS/Sócrates para com o PSD/Jardim teria ficado impune…

Mas assim não aconteceu, e o resto da história já todos sabemos como foi…

Sem querer pôr em causa se tudo ficou bem naquela que agora é a Lei de Finanças Regionais (em particular no acerto dos critérios da necessária discriminação positiva dos Açores), o certo é que, para a justiça, a razão, o bom senso e o juízo institucional serem repostos, foi necessário que, sobre a Madeira, caísse uma tragédia sem precedentes!

Sócrates “sem mágoa” e Jardim “esquecendo o que ficou para trás” acertaram agulhas institucionais. O primeiro desistiu de remeter para Tribunal Constitucional o pedido de inconstitucionalidade da Lei, e o segundo agradece a solidariedade activa da República.

Mas, em Democracia, não deveria ser assim, sempre? É que, em consequência de uma tal forma responsável de se estar (sempre) na política, muitas das tragédias que nos assolam o quotidiano… certamente nunca teriam acontecido!

Mário Abrantes

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o que vem de trás

Dois anos antes de se começar a falar de crise financeira internacional (estávamos em 2006), em paralelo com o anunciado desaparecimento de 1/5 (21%) das explorações agrícolas regionais (entre 1999 e 2005), o desemprego começou a crescer nos Açores, ao contrário da tendência nacional da altura. Partindo de uma situação anterior, considerada estatisticamente residual (cerca de 2%), estava-se então a chegar oficialmente aos 4%!

Perante esses números e em nome da boa gestão política da Região, quanto a perspectivas e medidas de futuro, longe de estabelecer um inevitável relacionamento (directo ou indirecto) entre os abandonos da actividade primária e o aumento do desemprego que então se registavam, o Governo Regional optou antes por enfatizar as flutuações mensais deste último, descansando tudo e todos, ao afirmar que se tratavam de variações momentâneas e pouco significativas. Sem medidas preventivas portanto, e ainda sem a crise internacional para o justificar, o certo é que os números do desemprego nos Açores não pararam de subir desde essa altura.

O quadro em presença completava-se (dever-se-ia dizer, preocupantemente) com o registo regional da mais baixa taxa de actividade do país (46% da população), o menor poder de compra (por cabeça), e os menores salários da União Europeia…

Dois anos passados, embora oficialmente tida como de chegada mais tardia e de mais rápido desaparecimento que no restante território nacional, a crise teimava em acentuar-se, e, confrontado com os oficiais 7% de desempregados em finais do ano transacto, a resposta do Governo Regional era agora: “A dimensão do desemprego nos Açores ainda continua a ser inferior à situação nacional. Foi apenas uma tempestade que se abateu.” Logo o sol voltaria a raiar, portanto! E logo aconteceu sim, não o sol a raiar mas uma sucessão de falências e empresas em dificuldades no sector hoteleiro e da construção civil, o terramoto na fileira do leite e a contínua e acentuada quebra do turismo, a atirarem com os números do desemprego para valores talvez nunca atingidos, desde que a Região é região!

Após o pouco responsável e desarmante cenário de recuperação anunciado para finais de 2009, quando afinal ainda a crise não se fazia sentir com todo o seu peso nos Açores, em 2010, na Assembleia Legislativa da RAA o Presidente do Governo proclamava agora que: “Seria absurdo encontrar razões locais para os problemas da crise, no sentido do seu agravamento na Região”(?)

Através, primeiro, da sub-valorização da situação anterior à crise, e depois, pela responsabilização exclusiva dos factores externos, para justificar a sua presença, assim se vem assistindo, na prática, à sucessiva auto-desresponsabilização governativa pelos graves desequilíbrios estruturais existentes (que subsistem por fuga continuada ao seu combate prioritário), e pelos números do desemprego, que nos Açores se vêm agravando constantemente.

E não vale a pena persistir na justificação de que eles são menores que a média nacional, pois além do que foi dito, é conveniente assinalar que o impacto negativo do desemprego aumenta na proporção inversa da taxa de actividade. E é por cá que ela continua a ser a menor do país…

Mário Abrantes

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

tapar o sol com a providência

Providência cautelar tenta impedir publicação de mais escutas no semanário "Sol"

Sem discutir a legitimidade jurídica da providência cautelar, o que é certo é que a imagem que os envolvidos transmitem é terrível. Se as escutas não os envolvem em nada ilegal, porquê toda esta intranquilidade?

Impedir a saída de um grande semanário nacional não é brincadeira nenhuma e mostra-nos que alguém está disposto a tudo para a impedir a sua divulgação. Ficam muito poucas dúvidas que o conteúdo destas, seja ele qual for, é certamente bombástico. Paradoxalmente, esta tentativa pública de ocultação poderá acabar por ditar a morte política de José Sócrates. Se é que ela não aconteceu já. Novas eleições à vista?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

100 dias

Como bem diz o Samuel, a vantagem de assinalar os 100 dias de governo é principalmente a de lembrar-nos quantos dias ainda faltam para que se vão finalmente embora.

Mais do que um governo de projecto, com um programa para cumprir, temos um governo de bombeiros, ocupados a apagar os diversos fogos políticos que por pouco custavam o poder ao PS.

Mais do que um partido legitimado por uma maioria, embora relativa, temos uma equipa governativa de combate, a gerir dossiers a quatro anos, sempre com o pé no acelerador da dramatização e da crispação institucional.

Mas, sobretudo, temos 100 dias de velhas receitas que não anunciam nada de novo para o restante mandato: redução dos salários, obsessão pelo défice, privatizações, escândalos, pressões sobre os média. E nem as poucas medidas "fracturantes" aprovadas até agora conseguem ocultar que José Sócrates continua a governar como sempre o fez: à direita.

Em 100 dias, afinal, o que mudou?

solidariedade insular

As recentes trocas de mimos entre os presidentes dos Governos dos Açores e da Madeira são extremamente negativas para ambas as regiões.

Não é fácil decidir qual deles é o mais deselegante na crítica ao trabalho do homologo, metendo com despudor a foice na seara alheia. Nem isso é muito importante. Para o comum dos portugueses do continente, os governos regionais vão continuar apenas a parecer apenas sorvedouros de dinheiros públicos, geridos por autocratas ambiciosos. Triste... O que é certo é que a imagem das regiões autónomas não vai com certeza melhorar nem ganhar apoios com este tipo de Carnaval, mesmo sendo quase tempo dele.

Entretanto, a tentativa de bloqueio e a inflexibilidade absoluta do PS na Assembleia da República, em relação à Lei das Finanças Regionais, também não beneficia ninguém. As prioridades partidárias e a busca de conflitos institucionais artificiais puseram-se decididamente à frente dos interesses regionais e da busca de uma solução equilibrada e justa para ambas as regiões.

Vamos infelizmente acabar por ter uma Lei manca, que será alterada mal a relação de forças na AR se altere. Todo este festival político acaba por ser uma lamentável perda de tempo. Tempo que o desenvolvimento das nossas ilhas não pode esbanjar. As duas regiões autónomas teriam tudo a ganhar entendendo-se. É pena que mais uma vez se sobreponha o interesse partidário.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

tudo dito sobre o orçamento

As razões anunciadas por Bernardino Soares para o voto contra do PCP no Orçamento de Estado 2010 põem claramente a nu as orientações que não mudam e as políticas que permanecem no Governo PS, apesar dos novos parceiros e protagonistas, novas roupagens e novos constragimentos orçamentas mesmo a jeito. Delas, destaco duas questões fundamentais:
"
A proposta de orçamento apresentada à Assembleia da República tem como eixo fundamental, mais uma vez, a política monetarista de obsessão pelo défice público. Num país que desde 2001 diverge da União Europeia e aprofunda o seu atraso e dependência económica, aplicar as receitas cegas de correcção apressada do défice das contas públicas - aliás convenientemente afastadas quando se tratou de injectar milhares de milhões de euros para a banca – significa aceitar a continuação desta situação. Mais do que isso, a política de obsessão do défice serve de alavanca e justificação para a destruição progressiva da administração pública, a degradação de salários e pensões e a continuação das privatizações. O PCP reafirma que, sendo o equilíbrio das contas públicas um objectivo que não pode deixar de estar presente na condução da política orçamental, ele deve ser obtido ao ritmo do crescimento económico e corrigindo as graves injustiças sociais e na distribuição da riqueza."

E sobre a Lei das Finanças Regionais:

sábado, 16 de janeiro de 2010

Orçamento: une valse à trois temps


A notícia é reveladora da forma como este governo sobrepõe o tacticismo político (e o objectivo do enfraquecimento do PSD) a todo o projecto político, a toda a orientação ideológica. Sobretudo demonstra que há muito que José Sócrates não tem qualquer ideia política concreta para Portugal, tem apenas apego ao poder.

Tendo todas as condições para governar efectivamente à esquerda, o PS prefere antes construir entendimentos à direita. É uma linha de actuação que conhecemos bem aqui nos Açores, em que o CDS-PP é tantas vezes a pequena cereja no bolo socialista.

Depois do tempo da "abertura ao diálogo", seguido pelo tempo da vitimização, chegamos finalmente ao terceiro tempo na valsa do orçamento socialista: rodar para a direita! Tão fácil como 1, 2, 3. 1, 2, 3!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

obviamente demita-se


As recentes revelações do jornal Sol, com base nas escutas a Armando Vara, vêm mostrar a face oculta do nosso Primeiro-Ministro. Não apenas as mentiras no Parlamento, mas também os escuros financiamentos da campanha socialista, envolvendo bancos, grupos empresariais e celebridades.

Em qualquer outro país do mundo, o PM já se teria demitido. É que o facto de ter havido legislativas recentemente não lhe devolve as condições políticas que já não tem para o cargo que ocupa. Nem esse cenário obrigaria a novas eleições. Tivesse Sócrates uma gota de dignidade ou coluna vertebral e teria entregue hoje mesmo a demissão. Caso não o faça, a possibilidade de uma moção de censura ao governo impõe-se com toda a justiça.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

política à média luz


É positivo que o Presidente do Governo Regional pretenda transmitir um sinal de abertura e cooperação institucional depois de uma campanha eleitoral dura e tensa e a velha tática do charme do jantar à luz de velas tem resultados comprovados pelo tempo.

Agora, o que é de admirar é esta estranha discriminação de convidar apenas os autarcas do PSD, excluindo os do seu próprio partido, com os quais, qual namorado enganador, promete jantar noutra ocasião, em separado.

A abertura institucional é importante, ainda para mais conhecendo o que tem sido a actuação do governo em relação aos municípios de outra cor partidária. Agora, ao separar assim as cores partidárias dos autarcas, o Presidente transformou uma acção institucional numa iniciativa política. E, para essa, não tem qualquer direito de utilizar nem meios nem fundos públicos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

a bola do nosso lado

Toma posse amanhã a nova Assembleia da República, fruto das eleições de 27 de Setembro. Vai inaugurar-se uma legislatura num quadro político diferente, apesar de tudo, e com uma nova correlação de forças.

Os deputados do PS e do seu aliado natural, o BE, não atingem sozinhos o número mágico de 115, limiar da maioria absoluta. Neste quadro as posições do PCP e do PEV tornam-se determinantes para a possibilidade da condução de uma governação de esquerda em Portugal.

Óptimo. Há muito que o PCP lutava por esta possibilidade de determinar o rumo a imprimir ao país. É tempo, então, de se mostrar à altura da responsabilidade que assume.

E, na minha própria e pessoal opinião, essa responsabilidade passa, em primeiro lugar, por uma avaliação muito rigorosa das condições concretas para entendimentos parlamentares. O programa de Governo que José Sócrates apresentar será uma peça naturalmente decisiva, a analisar com a maior objectividade e, sobretudo, sem apriorismos mecânicos.

Estando mais confortável enquanto oposição radical e combativa, esta nova responsabilidade obriga o PCP, no seu conjunto, a um reajustamento. Um reajustamento que exige a compreensão de que a participação em entendimentos parlamentares pontuais não significa a aplicação imediata, mecânica e total do seu próprio programa. O PS apresentará, com certeza, medidas com as quais o PCP não poderá, nem deverá, estar de acordo. E também seria irrealista exigir do PS que queimasse todo o seu passado governativo, destruindo todas as reformas que levou a cabo no último mandato. Terão certamente de existir cedências. Mas tal não impede que se possam imprimir políticas diferentes em muitas áreas e aprovar propostas úteis em muitas situações.

Uma atitude precipitada de queimar pontes ou exigir tudo ou nada seria um erro político grave e de pesadas consequências. Esta pode ser uma oportunidade única de inverter o rumo do país. A confiança que os portugueses depositaram no PCP obriga-o a não a desperdiçar em nome de uma suposta e mal fundamentada postura "ideológica". Deve, sim, conservar a máxima firmeza na defesa dos objectivos políticos concretos que consubstanciam uma política de esquerda para Portugal.

O PS tomará as suas próprias decisões e será livre, se assim, optar, por continuar a mesma política dos últimos quatro anos, apoiando-se naturalmente na direita. Mas não deve ser o PCP a empurrá-lo para essa opção. Compete ao PCP, justamente, demonstrar a abertura que permita uma política diferente. A bola está do nosso lado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

da reprodução do poder

Depois de uma prolongada ausência motivada pelo meu envolvimento na dupla jornada eleitoral que acabamos de atravessar, regresso para subscrever na íntegra o bom post de JRV no Activismo de Sofá.

De facto, temos nestas eleições autárquicas um bom exemplo da maneira como o poder instituído tem tendência para se reproduzir, difundindo-se e tornando-se potencialmente hegemónico.

No concreto da realidade açoriana, vemos como a desiquilibrada relação de poder entre o governo Regional e as autarquias tende a permitir ao partido que dominar o primeiro vir, a prazo, a dominar também o segundo.

Esta tendência só pode ser contrariada pelo reforço de meios, competências e autonomia das autarquias locais. Defendi-o antes de 11 de Outubro e continuo agora a fazê-lo.

Em sentido inverso ao que vinha sucedendo nas eleições europeias e legislativas, assistimos a um reforço significativo da bipolarização PS-PSD, com uma perda de pluralismo que certamente não trará efeitos positivos para os nossos concelhos.

Uma nota final para a atitude de Carlos César: Depois de afirmar múltiplas vezes que este seria o seu último mandato à frente do Governo Regional vem agora, no calor da vitória autárquica do PS, declarar que, afinal, sempre poderá voltar a candidatar-se.

Constatamos então duas coisas:

em 1º lugar as públicas e notórias lutas internas pela sucessão dentro do PS Açores estão longe de serem conclusivas. Perante a confusão e mal-estar, o líder prefere suceder-se a si mesmo como forma de evitar a implosão do Partido. A concentração do poder absoluto na figura do Presidente do Governo torna agora a sucessão extraordinariamente difícil. Franco, Pinochet e Idi Amin tiveram o mesmo problema...

em 2º lugar, afinal vemos que o que Carlos César temia era um resultado eleitoral desfavorável nas Regionais de 2012. Perante o cenário actual, com um PS hegemónico, reforçado por uma máquina autárquica relevante, o Presidente do PS já se sente mais confiante e resolve, portanto, voltar a candidatar-se. Uma atitude característica de quem concorre apenas pelo poder e não por um verdadeiro projecto político.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

coup d'État


As suspeitas agravaram-se na Madeira, onde Sócrates nomeou um dos membros do seu Gabinete para ir recolher informação sobre a visita presidencial, infiltrando-se na sua comitiva.

Perante os factos, o PR teve a pior das actuações possíveis: ir "encomendar" uma notícia ao Público, com um claro objectivo de prejudicar eleitoralmente o PS. Se tinha provas, tinha outras atitudes que poderia ter tomado. Não o fez, lamentavelmente.

Mas nada disto apaga a enorme gravidade do facto de o Governo andar a espiar o órgão máximo da República. Mais do que um desrespeito ao prestígio devido ao PR (gostemos ou não dele. E eu não gosto, como é sabido), estamos perante a violação dos princípios basilares do nosso sistema democrático. Este novo "incidente" coloca-nos a um passo de um golpe de Estado.

A centralização dos serviços de informações e segurança sob controle governamental só poderia resultar nisto: é uma ferramenta demasiado tentadora para não ser usada em proveito político próprio. Estas alterações já vêm do tempo em que o próprio Cavaco Silva era Primeiro-Ministro. Na altura, houve quem alertasse e, como costume, não foi escutado. A criação da sinistra figura do Secretário-Geral do sistema de Informações e Segurança da República Portuguesa, em 2006, foi mais um passo nesta direcção. Como afirmou António Filipe, na altura: "O poder que é conferido ao Secretário-Geral do SIRP, sobre todos os serviços de informações, não tem precedentes na República Portuguesa. Nunca ninguém deteve tanto poder em matéria de informações estratégicas e de segurança."

Recoloca-se assim ainda mais alta a fasquia da importância das eleições de 27 de Setembro: trata-se não só de substituir um mau governo. Trata-se defender a Democracia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

sábado, 25 de julho de 2009

vendidos e comprados

Como bem se escreve hoje na 1ª Coluna do diário Insular, os postos de trabalho na Base das Lejs, a sua qualidade e as suas remunerações, são a única contrapartida que nos resta pela utilização da base pelos EUA.

O fim do inquérito salarial, que num assomo de entusiasmo porventura irreflectido, o Secretário da Presidência revelou ter sido uma ideia do próprio Governo Regional, vem representar um retrocesso inegável, garantindo que a prazo as Lajes sairão ainda mais baratas aos americanos.

Tudo isto se passou, claro, nas costas dos trabalhadores da Base, que começam infelizmente a habituar-se a serem comprados a baixo preço. Os interesses da Região, esses, mais uma vez foram utilizados como moeda de troca política em transacções obscuras, por quem tinha a obrigação de os defender.

terça-feira, 21 de julho de 2009

tanto sacrifício para nada

Défice das contas públicas sobe em 284 por cento


Depois de muitos anos a apregoarem-nos a cantiga da contenção orçamental para mais tarde termos alguma folga, chegamos hoje à situação de o défice quase triplicar num semestre.

É normal que as despesas sociais aumentem devido à crise e é certamente dinheiro que tem de ser gasto.

Mas o facto de o Estado ter passado anos e anos a abdicar de receitas, nomeadamente através das isenções fiscais ao sistema financeiro e bancário deixaram-nos assim. Sem mais furos no cinto.

Mais uma para agradecer ao centrão!

terça-feira, 30 de junho de 2009

quem pode manda


Parece que o Presidente do Governo Regional se prepara para dar a machadada final na sua já fragilizada Secretária Regional da Educação e Formação. Carlos César está certamente muito preocupado com a fuga dos votos dos professores para o Bloco de Esquerda, facto que amargamente verificou nas passadas europeias. Daí que prefira desautorizar publicamente Lina Mendes a entrar numa guerra que apenas daria força aos seus adversários.

E a SREF? como fica no meio disto tudo? Como vai aceitar esta menorização da sua figura e - mesmo - do seu cargo? Com que credibilidade poderá agora ir às escolas ou enfrentar os professores? A verdade é que a sua enorme falta de talento governativo conseguiu em poucos meses arruinar todas as expectativas que sobre ela foram depositadas. Estaremos assim perante a 1ª remodelação governamental, a menos de um ano das últimas eleições regionais?

Fica sobretudo uma lição sobre como funciona o Governo Regional. Todo o poder reside no Presidente. Um poder absoluto e pessoal que só admite relações de subordinação e obediência ao chefe. Alguém fica surpreendido?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

a política é uma coisa muito complicada

Do debate sobre o Estatuto da Carreira Docente nos Açores (que a incompetência governamental obriga a corrigir em Junho, depois de ter sido aprovado em Março), ressalta a sanha anti-professores que tão bem conhecemos dos socialistas do Continente.

A maioria socialista açoriana, sem conseguir disfarçar o tique autoritário, pretende penalizar na avaliação os docentes que tenham de faltar, por exemplo, por doença ou assistência à família. E, naturalmente, contra tudo e contra todos: professores, sindicatos, partidos da oposição, toda a lógica e toda a ética.

Duas figuras ressaltam também. Pela negativa, Lina Mendes, Secretária Regional da Educação e Formação, que além de ser cofrangedoramente limitada em termos de dotes para a oratória, passou o debate a tentar ocultar-se atrás de silêncios inexplicáveis. Os quais só abandonou para breves e irritadas tiradas, como se o parlamento não tivesse o direito de a questionar. Pela positiva, a deputada socialista Cláudia Cardoso que, apesar de não ter um pingo de razão nesta matéria, soube dar o peito às balas que vinham das bancadas da esquerda e da direita e defendeu com inteligência uma proposta que competia à SREF defender.

E a pergunta torna-se inevitável: como é que tendo uma parlamentar com as capacidades de Cláudia Cardoso se tem uma Secretária Regional com as fragilidades de Lina Mendes?

A política é uma coisa muito complicada...

domingo, 14 de junho de 2009

quando tudo o resta falha

Foi "estúpido" o que se passou com a abstenção nas eleições

Carlos César está nitidamente a acusar o toque da derrota eleitoral que o seu partido sofreu nas últimas eleições.

Não querendo assumir as próprias culpas, nomeadamente pela sua total ausência da campanha eleitoral que poderia, objectivamente, ter feito alguma diferença e depois de atirar com as culpas para o candidato-bode-expiatório, Vital Moreira, César continua sem perceber o protesto que muitos milhares de açorianos expressaram com a sua abstenção. Não se apercebe que, com a sua imponderada declaração está a ofender mesmo muito gente, muitos açorianos que o elegeram.

Para César, quando tudo os resultados não são bons, recorre-se à obrigação administrativamente imposta do voto. Mas, se mesmo isso falhar, então, recorre-se ao insulto.