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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal em Gaza

Maryam nasceu em Gaza, na Palestina, há vinte anos atrás. Cresceu, estudou e casou neste emaranhado de ruelas, onde se acotovelam dezenas de milhares de refugiados, expulsos dos territórios palestinianos que Israel foi ocupando ao longo das últimas décadas. Quarenta por cento deles estão desempregados e mais de metade depende exclusivamente de programas de ajuda humanitária internacional para sobreviver.

O cerco israelita à Faixa de Gaza, por terra, mar e ar, impede o acesso a um terço das terras aráveis, proíbe a pesca para lá das três milhas e fez com que noventa e cinco por cento das indústrias fechassem portas por falta de matéria-prima e impossibilidade de exportarem os seus produtos.

Maryam, uma jovem professora, sabe como a vida é difícil no território. Apesar de ter um emprego fixo e relativamente seguro, está há vários meses sem receber salário porque Israel retém as verbas destinadas à Autoridade Palestiniana. O embargo afeta todos os sectores da sociedade e todos os aspetos da existência.

Desde a tomada do poder pelo “Hamas” (uma fação da Organização de Libertação da Palestina, fundada por Yasser Arafat) e consequente afastamento da mais moderada “Fatah”, Israel agravou o cerco à Faixa de Gaza, impedindo a entrada dos bens mais básicos. Combustíveis, materiais de construção, eletricidade, ou mesmo livros e até comida e medicamentos têm sido barrados, como é relatado por várias agências internacionais.

Com um passo apressado e olhos atentos Maryam percorre as ruas poeirentas para chegar à pequena escola arruinada onde dá aulas. Mas sorri quando vê as crianças a brincar à sombra do grande muro. Com o argumento de derrubar o Hamas e de parar os ataques com rockets disparados em direção a Israel, o governo israelita começou recentemente a construção de um muro, de dezenas de metros de altura, separando também fisicamente Gaza do resto do mundo e transformando-a numa enorme prisão. Mas em vão. Nem o Hamas foi derrubado, nem os ataques pararam.

Para se sobreviver em Gaza há que desenvolver um tipo de resistência mental e de astúcia para encontrar janelas à medida que mais portas vão sendo fechadas à volta da cidade. Apesar da escassez de recursos Maryam vive numa casa erguida recentemente pelo seu marido Yusuf, usando sacos de cimento contrabandeados com a ajuda do sogro, através de uma rede de túneis clandestinos que atravessam o grande muro que os cerca, e onde muitos deixam a vida, à mercê de desabamentos e balas israelitas.

Maryam conhece bem esse caminho noturno de escuridão e medo, única ligação com o mundo exterior. Complicações com a gravidez e a impossibilidade de realizar em Gaza uma simples ecografia obrigaram-na, grávida e assustada mas decidida, a rastejar dezenas de metros na mais absoluta escuridão e silêncio, para obter a ajuda médica de que precisava.

A perspetiva de uma sobrevivência incerta e sob permanente ameaça não atemorizam Maryam. Quando lhe perguntam porque regressou à cidade, limita-se a responder: “A minha casa e a família estão aqui. Para onde iria?” A criança está bem agora e recebe suplementos alimentares de uma agência internacional. Yusuf, pedreiro de profissão, vai conseguindo arranjar pequenos trabalhos e ela, ocasionalmente, lá recebe o seu salário, o que lhes permite pagar algumas contas e arranjar comida para mais uns dias. Maryam acredita que as coisas vão mudar em Gaza e que Israel não poderá manter para sempre o cerco à cidade. Quando acabar o bloqueio, diz, levará o marido e o filho que há-de nascer a Ramallah, para conhecerem os tios e os primos e hão-de fazer uma grande festa.

Algures para o final de Dezembro, na cidade-prisão de Gaza, Maryam vai dar à luz um menino a que chamará Raja, que significa em português: “esperança”.

Nota do Autor: Qualquer semelhança desta história com a realidade é intencional e deliberada. Um bom Natal para todos os leitores.

Texto publicado no Jornal Incentivo
16 Dezembro 2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

o sonho de Arafat


Quase vinte anos depois dos Acordos de Oslo, que Arafat assinou com Yitzhak Rabin, a retirada das forças israelitas da faixa de Gaza e da margem ocidental do Jordão continuam por cumprir, inviabilizando a criação efectiva de um Estado Palestiniano livre e independente. Pelo contrário, o Governo Israelita, aproveitando o facto de a atenção da opinião pública mundial estar virada para a crise financeira, tem mantido o cerco a Gaza e acelerado, nos últimos tempos, a construção de colonatos, como forma de tentar matar definitivamente o sonho de uma Palestina livre. O que os falcões militaristas que dirigem o estado de Israel ainda não perceberam é que, sem um estado palestiniano, não haverá paz. Mas, na verdade, o seu próprio poder interno depende, em boa medida, de um estado de guerra permanente, daí que a paz não esteja no topo das suas prioridades...

Arafat conseguiu atravessar essa fronteira simbólica e perceber, há muitos anos, que o único caminho para a paz era a coexistência. Teve a enorme coragem de levar a OLP a reconhecer o Estado de Israel, enfrentando a oposição dos sectores mais radicais.

Um homem corajoso, que sobreviveu a inúmeros atentados dos assassinos da Mossad, que lutou toda a sua vida pela libertação do seu povo, e que teve a sabedoria entender que a vitória só é possível trilhando os caminhos da paz. O sonho de Arafat continua e vai continuar a ser sonhado por todos os palestinianos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

a incongruência, a gripe e outros agressores

Fugido de um laboratório norte-americano (provavelmente militar) o virus foi ao México e regressou a casa começando a vitimizar os seus próprios produtores. “A gripe suína já matou 53 pessoas no mundo”. Com este “já”, na notícia, está-se a contribuir para o pânico, universalmente lançado há cerca de um mês, o qual, por sua vez, fomenta a compra de vacinas aos milhões, num negócio altamente rentável para quem a produz (provavelmente também na América do Norte). Mas se dissesse: “Apesar do pânico lançado e do empolamento do perigo da gripe suína, esta, até agora, apenas provocou 53 mortes no mundo, enquanto a gripe comum já provocou, só este ano, mais de 1 500.” Esta outra notícia colocaria o problema de uma forma mais objectiva. No entanto, de entre as duas, como sabem, a escolha caiu sobre a mais incongruente...

Há outras notícias onde a incongruência, felizmente não colheria. Imaginemos esta: “O agredido matou a agressora na cama, com um martelo de pedreiro!”. Claramente o sucedido nesta semana foi antes o anúncio do julgamento de “um agressor que, com um martelo de pedreiro provocou a morte da agredida, enquanto esta se encontrava na cama”.

Todavia, quanto a agressões (particularmente militares), a congruência entre agredido e agressor, ao contrário do que aconteceu no caso anterior, nem sempre é facilmente detectável. Tal como foi noticiado: “Os terroristas do Hamas atacaram Israel com roquets, e os soldados israelitas, em legítima defesa, viram-se obrigados a entrar em território palestiniano para eliminar os atacantes”. Ou, como não foi noticiado: “Para se defenderem do cerco e do bloqueio israelita, os guerrilheiros palestinianos, a partir do seu reduto recorreram ao disparo de roquets artesanais contra Israel e estes, aproveitando-se do facto, invadiram toda a faixa de Gaza, ocupando-a militarmente, destruindo escolas e hospitais, e chacinando as populações.” Já a frio, um relatório independente feito por um grupo de peritos internacionais, esta semana divulgado, conclui que do lado palestiniano foram mortas 1400 pessoas, das quais 300 eram crianças e 100 eram mulheres, e do lado israelita morreram 4 civis. Este relatório conclui ainda que, além de crimes de guerra cometidos por ambas as partes, os israelitas cometeram crimes contra a humanidade e são suspeitos de crime de genocídio. Então em que ficamos? Quem é o agressor e o agredido? O criminoso e a vítima? Qual a notícia mais objectiva? E qual a mais incongruente? A que foi dada, ou a que não foi dada?

O Iraque é de momento a ilustração mais profunda e dramática das consequências da notícia incongruente e tendenciosa. Em nome duma mentira (que transformou convenientemente o agressor em agredido) um povo inteiro sofre o destino quotidiano da morte, da guerra e da fome, e os seus agressores mandados para o terreno (os jovens soldados norte-americanos), totalmente desorientados e sem convicções sustentáveis, acabam a matar-se uns aos outros, conforme notícia (bem objectiva…) de segunda-feira passada. Da incongruência inicial da notícia, passámos para a incongruência terrível da realidade.

Pelo país, em versão menos mortífera (felizmente), também se vão confundindo agredidos e agressores. Aproveitando a boleia do candidato socialista às europeias ter sido mimado no 1º de Maio, por vítimas da política do seu governo, com apupos e empurrões, vem agora outro agredido queixar-se, em entrevista ao Jornal de Notícias: “Também eu tenho sido vítima do PCP…” (José Sócrates)

Mário Abrantes

segunda-feira, 30 de março de 2009

manchas que não se lavam

Exército israelita arquiva investigação a denúncias de abusos em Gaza

Sobre as denúncias que transcrevi neste post, decidiu o exército israelita fazer um breve e ligeiro inquérito para rapidamente ilibar os seus soldados das atrocidades que cometeram sobre o povo palestiniano em Gaza.

Bem podem os israelitas tentar lavar as mãos, mas há manchas que não se apagam e crimes que não se perdoam.


quinta-feira, 19 de março de 2009

crimes em Gaza

Começam a vir a público as dimensões dos crimes de guerra praticados pelo exército israelita (também) durante as últimas operações militares na Faixa de Gaza. Leia aqui um artigo do diário israelita Haaretz com relatos dos próprios soldados.

E, se levantam questões sobre a indigna e subserviente posição diplomática da UE perante este Estado-fora-da-lei, também colocam questões profundas sobre a própria sociedade israelita.

Décadas de cultura de medo permitiram criar gerações de soldados movidos pelo ódio racista ao árabe, que cometem as piores atrocidades com a maior tranquilidade.

Podia tudo resumir-se à declaração do anónimo soldado israelita que afirmou aos jornalistas: "devíamos matá-los a todos (no centro de Gaza), todos lá são terroristas" (tradução minha).

Assim, que espaço poderá haver para a reconciliação?