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sábado, 10 de dezembro de 2011

pagar para não produzir

O candidato do PS Açores e ainda Secretário Regional da Economia, Vasco Cordeiro, anunciou com o triunfalismo habitual que o Governo Regional prepara-se para lançar uma nova operação de resgate leiteiro, no valor de 3,6 milhões de Euros.

Sob esta denominação técnica e aparentemente inocente, a realidade é que se pretende atribuir uma compensação aos agricultores que abandonem a atividade, resgatando o Governo a sua quota de produção. A justificação oficial é que as explorações mais pequenas serão supostamente menos rentáveis e menos produtivas e, assim, a sua quota fica disponível para as grandes explorações que pretendam aumentar a sua produção.

Para além da falácia da redistribuição das quotas leiteiras, que hoje foram tão ampliadas que é quase como se já não existissem, o Governo Regional persiste no erro de continuar a apostar apenas na grande produção, massiva e indiferenciada, das grandes explorações, como se fosse alguma vez possível aos Açores competir no mercado dos grandes produtores europeus, onde a quantidade e o preço são os fatores decisivos.

O Governo continua sem entender que o que valoriza o nosso leite é justamente a sua diferenciação e qualidade e sem perceber que a redução do número de produtores tem efeitos altamente destrutivos sobre as comunidades rurais e a economia das ilhas, que deles dependem.

Uma das razões que fazem com que as pequenas explorações sejam supostamente menos rentáveis prende-se com o facto de empregarem mais mão-de-obra. Ao incentivar o seu desmantelamento, o Governo Regional fomenta ativamente o desemprego, cego aos sinais, de que tem sido justamente o sector agrícola o que melhor tem resistido ao aumento do desemprego, como confirmado pelos números do INE e que será por algum “regresso à terra” que os Açores melhor poderão resistir melhor a esta crise.

O Governo Regional continua a acentuar o ciclo vicioso da desertificação e desemprego, sem querer saber do alto preço que pagamos, e pagaremos, por esta opção de utilizar o financiamento europeu da forma mais destrutiva: pagar para não produzir.

Texto publicado no Diário Insular
10 Dez 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

de necessária a urgente

Depois do triunfalismo das notícias de ontem sobre a Cimeira Europeia, a possibilidade de um acordo para a revisão dos Tratados Europeus foi afinal bloqueada pela Grã-Bretanha, que pretendia isentar-se das regras europeias sobre regulação do sector bancário e dos mercados financeiros.

À obsessão monetarista da França e da Alemanha, opôs-se o fanatismo desregulador da Grã-Bretanha. Interesses antagónicos que nem a ameaça do desastre comum consegue unir. Estamos já no campo das contradições irreconciliáveis que impedem a superação da crise. A situação está a amadurecer depressa para uma profunda mudança política que, de necessária, está a passar a urgente.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

bola de berlim

Aníbal Pires, do PCP, disse hoje à noite, no Parlamento, que o CDS não está ao serviço dos açorianos, mas sim para a "bola de Berlim". Junte-se o creme de ovo ao óbvio e não podia ter mais razão!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

duas velocidades para o inevitável

Merkel e Sarkozy falam cada vez mais abertamente de afastar os países europeus mais pobres do Euro, criando uma Europa a duas velocidades. Os ricos dos Euro e as economias periféricas e dependentes.

Nada de surpreendente porque, ainda que partilhando a mesma moeda, é já essa a situação actual, com o seu núcleo duro de estados-directores que conduzem os destinos da União da qual são os verdadeiros beneficiários. O afastamento dos estados membros mais debilitados do Euro servirá apenas para acelerar a sua ruína sem que, com isso, esteja garantida a solidez da economia da França e da Alemanha, antes pelo contrário. Esta Europa, seja a uma ou a duas velocidades, assiste ao fim definitivo dos princípios sonantes, mil vezes repetidos, e de união e partilha de um destino comum, de forma solidária, entre as nações da Europa.

Mantém-se muito actual - talvez mais actual do que eu próprio esperava - o que aqui escrevi em Outubro de 2010. E republico-me: "parece que cada vez mais assistimos à criação do sonho hitleriano do "Grossesdeutsches Reich", hierarquizando as nações europeias sob a batuta do estado director.(...)Perante isto, estamos já, de forma absolutamente clara, no campo de uma estrutura de estado colonial. Com ou sem independência simbólica (que é a única que ainda temos). O sonho europeu de uma associação de parceiros livres está oficialmente morto. Mas o seu cadáver começa mesmo a cheirar mal."

Apesar do conjunto desconhecido de problemas e ameaças que trará, esta morte do projecto europeu, tem o aspecto positivo de ser o fim de uma ficção política e económica que é, neste momento, o grande obstáculo à superação da crise e ao desenvolvimento de uma perspectiva de progresso e desenvolvimento para as nações da Europa.

O fim do projecto europeu, que nas últimas décadas tem sido o desígnio e pedra de toque dos governos da Velho Continente, a razão das políticas, o fundamento dos sacrifícios, o monstro sagrado do discurso político, irá pôr seriamente em causa as elites políticas europeias. Poderá nessa altura, eventualmente estar criado o espaço para a realização de profundas transformações políticas, económicas e sociais. Quando tombar finalmente, e com previsível estrondo, o cadáver apodrecido desta União Europeia, será a vez dos povos europeus falarem e decidirem o novo rumo. E não será um minuto cedo demais!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a chantagem do Euro (actualizado)


Ao mesmo tempo que comete um estrondoso suicídio político em que afunda também o Pasok, Papandreou mostra a todos os gregos e a todo o mundo que, nesta moderna Europa democrática, já nada resta das soberanias nacionais e do direito de cada povo decidir sobre o seu próprio destino.

É mesmo difícil chamar democrata a esta lógica da decisão ser demasiado importante para ficar na mãos do Povo, não vá o povo ter a veleidade de decidir contra o que mandam os patrões Merkel e Sarkozy.

a chantagem do Euro

Afinal a pergunta do referendo grego foi escrita pela Alemanha e pela França colocando a chantagem europeia com toda a clareza: ou aceitam o empobrecimento e o saque aos recursos do país através de um novo plano de austeridade, ou são afastados do Euro.

Facilitam assim também a vida a Papandreou acentuando a dramatização em torno do referendo que, originalmente era só sobre o novo plano de "ajuda", mas que passa a ser sobre todo o processo de integração europeia. E colocará a questão ao Povo Grego como uma escolha entre a miséria e o caos. Nas actuais condições, este referendo é como pôr perus a votar sobre o Natal. Perdem de qualquer forma.

Fica bem à vista a dimensão da solidariedade desta Europa: os estados-membro só interessam enquanto mercado e para acrescentar dimensão à economia das potências directoras. A este tipo de relações económicas chama-se colonialismo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

então o mundo não acabou?

50% da dívida grega foi perdoada após renegociação e, afinal, não se abriram as cataclísmicas falhas sísmicas na zona Euro, de que falava o Governador do Banco de Portugal; nem os mercados entraram em paralisía histérica; nem os investidores arrancaram os cabelos da cabeça e às mãos cheias, nem fugiram para outras paragens. Pelo contrário, as bolsas recuperaram e até foi um Passos Coelho todo bem disposto a dizer-nos que esta solução alivia a pressão sobre Portugal.

Agora, sim, vai ser difícil manter a tal narrativa política dos sacrifícios, sobretudo porque, agora, os portugueses sabem que não estão condenados ao pagamento de uma dívida que não criaram e que a renegociação não só é possível, como até parece ser uma boa solução. E que, no fim de contas, os sacrifícios nada têm a ver com a dívida. São apenas a opção do Governo PSD/CDS, na sua tentativa de destruição do Estado Social. As declarações recentes do Governo deixaram-no na posição vergonhosa de ser mais papista que o Papa quando se trata de sacrificar os próprios interesses nacionais. Que legitimidade lhe resta ainda?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

o Euro morreu, viva a Europa!

A genialidade manifesta-se muitas vezes na capacidade de, sem perda de rigor, tornar-se simples o que aparentava ser complicado. E essa é a característica do brilhante artigo de João Caraça no Público de hoje, sobre "A quimera do Euro".

Nos tempos loucos que vivemos faz todo o sentido relembrar o bê-á-bá: "a moeda modo muito eficiente de se avaliar um dado produto para troca comercial, sem ter de se recorrer aos complicados juízos que a troca directa requer." E que "o dinheiro, a moeda, as finanças, têm uma natureza imaterial, convencional, isto é, a sua operação repousa sobre princípios convencionados socialmente, consentidos e aceites. A base material da moeda é um acessório para a tornar mais credível: a moeda é um artefacto comunicacional."

A fixação monetarista em torno do Euro implica continuar a defender a ideia de uma moeda sem qualquer ligação à economia real, e à riqueza real, que lhe serve de suporte.

Procurar manter a ficção do Euro numa Europa cada vez mais desigual, a muitas velocidades diferentes, em nada vai contribuir para o futuro do Projecto Europeu, embora seja sem dúvida a morte deste projecto. Nem um dia cedo demais, se as nações europeias souberem aprender com o passado e quiserem, agora sim, começar a construir uma Europa de justiça social, igualdade e verdadeira coesão económica e social.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

antigamente chamava-se Europa


A utopia europeísta dos fundadores da comunidade está reduzida a isto: ao mais vil e pragmático monetarismo. E era perfeitamente expectável que assim fosse. A opção por avançar para o Euro "a toda a força", sem antes criar uma verdadeira coesão económica e social no continente, ía forçosamente trazer-nos a este ponto em que a debilitada economia de vários membros da União ameaça a solidez da moeda comum, que os restantes membros querem manter a todo o custo.

Sobretudo ficou por resolver o principal problema que a união pretendia resolver: criar as condições para transformar as nações que sempre se guerrearam e dominaram umas às outras, em parceiros de negócios, partilhando um destino comum. Pelo contrário, parece que cada vez mais assistimos à criação do sonho hitleriano do "Grossesdeutsches Reich", hierarquizando as nações europeias sob a batuta do estado director. E para tornar a analogia ainda mais clara, aí está a proposta de retirar o direito de voto aos países que não cumpram as respectivas metas de défice. Com a Alemanha e a França a tomarem à parte as decisões fundamentais sobre os destinos da união.

Perante isto, estamos já, de forma absolutamente clara, no campo de uma estrutura de estado colonial. Com ou sem independência simbólica (que é a única que ainda temos). O sonho europeu de uma associação de parceiros livres está oficialmente morto. Mas o seu cadáver começa mesmo a cheirar mal.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

nós protegemos, eles exploram

O Subsecretário Regional das Pescas assumiu publicamente o que de há muito se sabia: a redução da Zona Económica Exclusiva originou uma enorme pressão sobre a sustentabilidade ambiental dos nossos mares.

A abertura do mar dos Açores fez aumentar o esforço de pesca por parte de frotas internacionais de grande capacidade que passaram a operar nesta zona. Sobre o verdadeiro nível deste esforço apenas podemos especular, porque é uma actividade sem controle.

A proposta de criar uma zona de protecção de 200 milhas é meritória e útil, mas não consegue esconder a hipocrisia de quem apoiou um processo de integração europeia que nos conduziu à actual situação. Mas não basta proteger-mos, o que é preciso é que sejam em primeiro lugar os açorianos a beneficiar dos proveitos económicos do seu próprio mar. Mas nisso, nem o Subsecretário nem o seu partido estão interessados.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

aumentar o défice

Parece maluqueira, mas não é. Isto aconteceu realmente. A realidade está aí para o provar. A Irlanda foi dos primeiros países da União Europeia (UE) a decretar medidas drásticas de austeridade para reduzir o défice público (incluindo um corte de 10% nos salários da função pública, lembram-se?). Foi em 2008, quando a sua crise bancária se começou a propagar e o seu défice orçamental em percentagem do PIB atingiu 7,3 %. Resultado, a economia contraiu-se em 10 por cento e, surpresa das surpresas, o défice disparou para 14,3 por cento do PIB até finais do ano transacto, sendo actualmente o maior da UE. Dirão, mas a Irlanda é uma excepção. Não! A Irlanda é a regra, só que mais expressiva. Veja-se toda a UE, desde Maastricht, a traçar orientações e a tomar medidas para conter, a qualquer custo, o défice nos 3%. E o que aconteceu? De um reduzido número inicial de países com défices públicos superiores àquele valor (Portugal era um deles), passou-se, em finais de 2009, para uma UE quase toda ela acima desse valor (incluindo a guardiã do euro, a Alemanha, que já vai nos 5%). Mais rigorosamente a UE apresenta-se hoje em média com um défice das contas públicas de 6,5%, ou seja, acima do DOBRO do valor de partida que se obrigava a conter desde Maastricht!

E isto tão simplesmente porque um país, ou um conjunto de países, não pode matar-se de fome para prosperar nem tão pouco recuar para crescer. A austeridade é sempre má para a economia, por mais que as vozes oficiais de Angela Merkel, Durão Barroso, Sócrates ou Passos Coelho, com a anuência de economistas de serviço e dos governantes das praças regionais, proclamem o contrário.

Verificado que não se alcança a redução do défice com medidas restritivas para o combater, será ou não legítimo imaginar então que, a melhor maneira de o atenuar, será fugindo a esse ataque frontal e prioritário? Mike Whitney, um economista norte-americano “out of bounds” (independente) apresenta-nos uma visão que tem tanto de simples, como de fortemente perturbadora das certezas com que todos os dias somos bombardeados, para justificar a austeridade: “A causa profunda do(s) défice(s) é a queda da produção de riqueza e por isso os défices criam procura. A procura gera actividade económica. Esta, por sua vez, gera crescimento. O crescimento cria empregos. Os empregos aumentam as receitas do(s) estado(s). Logo: o défice gera o seu próprio controlo, e impede potencialmente a recessão.

Então porquê a receita geral do FMI e OCDE (assumida pela UE) da obsessão prioritária pelo combate político-administrativo ao défice? Olhando para as consequências já observadas antes, tudo indica que para enfraquecer o(s) estado(s) e transferir activos, a baixo custo, para mãos monopolistas e grupos financeiros, e para forçar a privatização dos serviços públicos.

Perante a poupança forçada pela quebra de rendimentos, a crise só se combate aumentando o défice público de forma controlada, para manter a economia a funcionar, inverter a quebra da procura e combater o desemprego. Na Europa, o que tem impedido, na prática, a crise de se transformar em recessão, tem sido o aumento efectivo do(s) défice(s) públicos.

Agora o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (visando em primeiro lugar os “párias” do sul) resolveram atacar, não a doença, mas o remédio. Não é difícil adivinhar pioras significativas, pois não?

O que vale é que o doente, seja na Grécia ou em Portugal, ainda tem voz para se queixar!
Mário Abrantes

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Defender os Açores

Intervenção de João Ferreira na discussão no Parlamento Europeu de medidas específicas no domínio agrícola a favor das regiões ultraperiféricas da União Europeia.

solidariedade à europeia


Mesmo a dar razão ao que postei aqui, surge a notícia de que a Alemanha pretende impor, usando o seu peso político, o cumprimento das regras de estabilidade orçamental. Merkel não hesita em sacrificar todas as nossas perspectivas de crescimento, condenando-nos à pura e simples recessão continuada, em prol dos seus próprios interesses. É, verdadeiramente, a assunção clara e final de que a União Europeia já não tem qualquer objectivo de coesão económica e social, mas apenas de estabilidade monetária.

É um caminho perigoso. Como será que o Reino Unido, confrontado com um défice de 12% irá reagir?

Serve, em todo o caso, para que entendamos claramente a forma como a Alemanha e as outras grandes potências olham para Portugal e para as outras economias periféricas: não somos parceiros de crescimento. Somos mercados. O nosso desenvolvimento apenas lhes interessa na medida em que permita a colocação dos seus produtos e a estabilidade do euro. Economicamente temos exactamente o mesmo papel que as colónias desempenhavam em relação às metrópoles nos séculos XIX e XX. E se isto não chegasse para entendermos a nossa posição subalterna, bastava a ideia da Comissão Europeia de aprovar (ou não) os orçamentos nacionais para melhor subjugar as economias periféricas aos interesses das grandes potências.

Não é sem alguma tristeza que assisto à agonia ao velho sonho europeu, de uma união de parceiros cooperando solidariamente para um futuro melhor, mas pergunto-me se, no âmbito do capitalismo, as coisas poderiam ter sido diferentes.

terça-feira, 18 de maio de 2010

da natureza da Europa

O roubo praticado por via da especulação financeira às economias mais vulneráveis – feito a partir da dramatização artificial e selectiva dos défices públicos – é parte integrante do indisfarçável objectivo de construir os lucros do grande capital, sobre o peso crescente da exploração do trabalho e da pauperização da massa imensa de milhões de trabalhadores. A ingerência e a chantagem realizada sobre países soberanos, com a conivência dos respectivos governos, como Portugal, a Grécia e a Espanha, através da imposição de inaceitáveis condições – cortes nos salários, privatizações, aumento da idade da reforma, aumento da carga fiscal – são reveladoras da natureza de classe de que é feita a política de concentração e acumulação capitalista dirigida a partir do directório das grandes potências com destaque para a Alemanha.

excerto do Comunicado do Comité Central do PCP - 17 de Maio 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

sufocar mas devagar

Afinal a SINAGA só vai poder exportar 10 mil toneladas de açúcar até 2015, A redução será progressiva, de 3 mil toneladas em 2011 até apenas mil toneladas em 2015.

Para que vai servir agora o plano de recuperação, anunciado pelo Governo quando entrou no capital da empresa, que previa aumentar a produção de beterraba para mais de 22 mil toneladas em apenas três anos?

Apesar das promessas e anúncios triunfalistas de Luís Paulo Alves e do Governo Regional, a verdade é que a sobrevivência da nossa indústria açucareira está refém de interesses que não são os nossos e que decretam a asfixia progressiva e inexorável (também) deste sector nos Açores.

Das duas uma: ou não é de todo possível fazer valer as nossas posições no quadro de uma Europa com parceiros mais poderosos, e aí poderíamos perguntar-nos, afinal para que serve a UE; ou, por outro lado, temos uma representação incompetente, passiva e conformista, que permite que sejamos olhados e usados apenas como mais uma economia periférica e dependente. O que é que parece mais provável?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

a defender os Açores


A intervenção do Deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Ferreira, denuncia os verdadeiros objectivos por trás da Reforma da Política Comum de Pescas, criar direitos privados sobre um bem público, os recursos pesqueiros, o que resultará necessariamente na sua concentração nas mãos dos grandes armadores e a destruição da pesca artesanal. Ao mesmo tempo, pretende-se centralizar em Bruxelas todas as decisões, enquanto se acena com uma falaciosa descentralização da aplicação dessas políticas. O PCP propõe um outro rumo:

"A defesa da sustentabilidade dos recursos exige, entre outras medidas, a garantia de um rendimento justo no sector. Isto, por sua vez, exige uma intervenção no mercado e uma melhoria da comercialização no sector. Melhorando o preço da primeira venda, aumentando a retribuição do trabalho dos pescadores. Reduzindo as margens de intermediação e promovendo uma justa distribuição do valor acrescentado ao longo da cadeia de valor do sector.

A realidade do sector das pescas na UE é complexa e diversificada. Nestas circunstâncias, a importância, consensualmente reconhecida, de uma gestão de proximidade, entra em profunda contradição com o quadro institucional criado pelo Tratado de Lisboa, que estabelece como uma competência exclusiva da UE a "conservação dos recursos biológicos do mar".

Precisamos de uma gestão apoiada no conhecimento científico, que tenha em conta a realidade e as particularidades de cada país, de cada zona de pesca, de cada frota e dos recursos, que envolva os pescadores nas soluções e na sua implementação. Isto é muito diferente da mera execução descentralizada de uma política centralmente definida."

Ao contrário da demagogia de Patrão Neves ou do silêncio de Paulo Alves, isto é defender os Açores.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

reviravoltas

Nem todas as reviravoltas políticas são negativas. Tudo depende do ponto de partida.

Exemplos recentes de reviravoltas são as de Paulo Rangel ao anunciar a candidatura à liderança do PSD, sete dias depois de anunciar que ninguém compreenderia a sua candidatura a tal cargo…

Ou a do Procurador Geral da República a eliminar escutas, um mês depois de ter afirmado que, para aliviar tensões, por sua vontade as punha todas cá para fora…

Ou a de Maria do Céu Patrão Neves, quando, após uma campanha eleitoral em que anunciou, caso fosse eleita, a sua intervenção firme como deputada europeia em defesa da manutenção do regime das quotas leiteiras, resolveu revisitar os lavradores dos Açores, já como deputada em exercício, mas agora com o objectivo prioritário de lhes tirar da cabeça a abstrusa ideia da continuidade desse regime…

O Leitor, em consciência, ajuizará sobre a qualidade destas reviravoltas, e daí tirará as ilações que muito bem entender.

Há no entanto reviravoltas indubitavelmente positivas, mesmo que à custa (e afinal por isso mesmo) de profundas desgraças.

Sócrates poderia ser tonto e irresponsável que ninguém lhe levava a mal, desde que não fosse Primeiro-ministro. Mas, por falta de juízo e responsabilidade institucional, enquanto no exercício de tal cargo, resolveu cortar verbas às Finanças Regionais da Madeira. Contra isso, embora sem adiantar rigorosamente nada em consequência, o Presidente do Governo Regional da Madeira, com tanto juízo e responsabilidade institucional quanto o Primeiro, gastou uma catrefa de dinheiro em eleições regionais antecipadas para, após a reeleição, adormecer, de consciência tranquila (?) sobre o corte de verbas decretado.

Não fora a perda da maioria absoluta, e o comportamento institucionalmente irresponsável, porque prejudicial aos madeirenses, do PS/Sócrates para com o PSD/Jardim teria ficado impune…

Mas assim não aconteceu, e o resto da história já todos sabemos como foi…

Sem querer pôr em causa se tudo ficou bem naquela que agora é a Lei de Finanças Regionais (em particular no acerto dos critérios da necessária discriminação positiva dos Açores), o certo é que, para a justiça, a razão, o bom senso e o juízo institucional serem repostos, foi necessário que, sobre a Madeira, caísse uma tragédia sem precedentes!

Sócrates “sem mágoa” e Jardim “esquecendo o que ficou para trás” acertaram agulhas institucionais. O primeiro desistiu de remeter para Tribunal Constitucional o pedido de inconstitucionalidade da Lei, e o segundo agradece a solidariedade activa da República.

Mas, em Democracia, não deveria ser assim, sempre? É que, em consequência de uma tal forma responsável de se estar (sempre) na política, muitas das tragédias que nos assolam o quotidiano… certamente nunca teriam acontecido!

Mário Abrantes

domingo, 21 de fevereiro de 2010

pigs

PIGS é o termo utilizado por especialistas financeiros para os países do sul da União Europeia (Portugal, Italy, Ireland, Greece, Spain).

Se, por um lado assume uma carga claramente pejorativa (eu odeio concordar com Teixeira dos Santos), por outro revela a clareza óbvia da fragilidade das economias destes países. Dá-nos a exacta medida de como somos vistos pelos mercados mundiais: o nosso papel é apenas o de fornecer bacon.

E depois andam alguns dos nossos pobres políticos muito preocupados com "passar uma imagem positiva lá para fora", como se no mundo em que vivemos pudessem ocultar as nossas dificuldades para como que "iludir" os investidores estrangeiros.

Vale a pena reflectir um pouco sobre o que une a afasta as economias destes países. Temos lições para aprender.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

a rolar encosta abaixo

Açores recuam em relação à média europeia

De acordo com a notícia de capa do AO de hoje (sem link), os Açores cairam em termos de riqueza produzida por habitante em relação à média europeia, de 68,6% em 2006, para 67,6% em 2007, de acordo com o Eurostat. E isto apesar de serem das regiões que recebem mais ajudas e apoios financeiros em toda a Europa .

Que lições podemos tirar deste desastre? A primeira e mais óbvia é a do completo falhanço das estratégias definidas em termos de modelo de desenvolvimento. As soluções de "text-book" de economia aplicadas sem qualquer ponderação da nossa especificidade e contexto dificilmente trariam alguma coisa de bom. A aposta teimosa, renitente e irrealista no turismo e serviços, vendo a terciarização forçada e sem sustentação como sinal de modernidade, deixaram a economia regional muito mais dependente, endividada e vulnerável aos contextos internacionais. Agora que esses contextos são maus, ficamos sem nada. Apenas potencial por realizar, expectativas por cumprir. Os investimentos nos sectores que são directamente produtivos foram sempre secundarizados e muito mais virados para a satisfação de clientelas políticas do que com uma real visão modernizadora.

Não há, naturalmente, modelos que nos permitissem permanecer incólumes à crise económica mundial. Mas com certeza poderíamos ter uma agricultura mais forte e produtiva, umas pescas mais modernas e dinâmicas, uma panóplia de produtos regionais específicos que, pese embora a pequena dimensão da produção, tivessem já conquistado nichos de mercado específicos, que trouxessem as mais valias para a Região, em vez de as atirar pela janela em incentivos e apoios a projectos megalómanos que nada produzem.

Responsáveis existem. E são, naturalmente, em primeiro lugar, os dois maiores partidos que nos têm governado. Mas pensando melhor, se calhar somos todos responsáveis. Aqueles de nós que fomos acalmando as preocupações porque o subsídiozinho lá estava certo ao fim do ano, aqueles de nós que nos fomos calando perante a incompetência e o esbanjamento porque, enfim, isso sempre houve, e não nos quisémos "meter em política", aqueles de nós que, eleição atrás de eleição, lá fomos "botando o votinho" certo, sem qualquer esperança de mudar para melhor. Não fomos todos que acalmámos, calámos e votámos, mas fomos a maioria infelizmente. Os tempos mudaram. O subsídio vai acabar e teremos agora, fatalmente, todos, de nos preocupar outra vez.