Mostrar mensagens com a etiqueta capitalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta capitalismo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

desigualdade

Um estudo recentemente encomendado pela Comissão Europeia analisou a forma como têm sido repartidos os sacrifícios, em termos de perda de poder de compra, pelos diversos estratos sociais, em 6 países da União.

No caso português, em resultado direto das medidas de austeridade tomadas pelo Governo entre 2009 e Junho de 2010, os 20% mais pobres perderam 6,1% do seu poder de compra, enquanto os 20% mais ricos perderam apenas 3,9%!

Estes resultados não são, para muitos de nós, surpreendentes. Pelo contrário reconfirmam as suspeitas de muitos cidadãos em relação ao sentido das políticas dos nossos governos e demonstram a sabedoria do velho ditado popular “quem se lixa sempre é o mexilhão”!

De entre Grécia, Portugal, Irlanda, Estónia, Reino Unido e Espanha somos o único país onde isto sucede. Em todos os outros, foram os cidadãos mais abastados e não os mais pobres que tiveram de suportar maiores sacrifícios. Este exemplo, o Governo português – sempre tão bom aluno em questões europeias – não quis seguir.

O paradoxo é que a própria Comissão Europeia – a mesma que encomendou este estudo – não se cansa de elogiar a forma como Portugal tem imposto as medidas de austeridade. Então são todos os outros países que estão errados, apesar de terem melhores desempenhos económicos? Em que ficamos?

É importante notar que este estudo abrange o período de governação de José Sócrates e reflete os efeitos dos seus sucessivos PEC’s. Foi este agravar das injustiças e dos problemas do país, foram esta política e as suas consequências que ditaram o crescente isolamento do PS e que o levaram a sofrer, nas urnas, uma das maiores derrotas da sua história.

No entanto, o novo Governo, não trouxe, como os portugueses desejavam, uma mudança de rumo. Pelo contrário, Passos Coelho segue, na substância, a mesma política de agravamento da desigualdade social, sacrificando os pobres para poupar os ricos. A única diferença é que o faz de uma forma muito mais brutal e com muito menos pudor de o assumir, mas o rumo é o mesmo.

A crise está a ser usada para cavar ainda mais fundo o fosso das desigualdades e causar profundas mudanças na distribuição do rendimento nacional. O atual Governo, tal como o anterior, está a criar um país com uma pequena elite privilegiada, muito próxima do poder político do qual depende, assente sobre uma massa indiferenciada de trabalhadores empobrecidos. É um retrato do futuro que tem assustadoras semelhanças com o passado que deixámos a 25 de Abril de 1974.

Apesar do discurso inter-classista e socializante, a verdade agora comprovada pelos factos é que estes governos beneficiam sobretudo as classes mais privilegiadas. Objetivamente é para elas que governam. O que até nem é assim tanto de estranhar se pensarmos no que é dança de cadeiras entre cargos políticos e conselhos de administração de grandes empresas, nas trocas de favores, nas relações pessoais e até familiares que existem entre a elite económica e a camada superior do poder político. Os dirigentes do PS, PSD e CDS-PP ao agirem assim estão a defender o seu próprio interesse de classe, mas também privado e particular.

A desigualdade social converteu-se no principal problema estrutural do nosso país. A fatia da riqueza nacional que é retirada ao comum dos portugueses, revertendo para uma pequena elite privilegiada tornou-se verdadeiramente insustentável. Desde logo, a redução do poder de compra dos cidadãos atinge duramente as empresas e o emprego, reduzindo a produção nacional e acelerando a espiral do empobrecimento do país. Consequentemente, o peso destes “novos pobres” sobre os sistemas de proteção e segurança social aumenta exponencialmente, ao mesmo tempo que, como já hoje assistimos, a receita dos impostos cobrados pelo Estado, que incidem sobre o trabalho e sobre o consumo, começa a reduzir-se.

Mas as consequências deste estado de coisas vão muito para lá da frieza dos indicadores económicos. A desigualdade afeta a capacidade de acreditar nos valores do trabalho honesto e da integridade que acabam hoje em dia por nunca ser compensados; atinge a confiança no sistema político e causa o abandono abstencionista de cada vez mais cidadãos.

O que está em crise, verdadeiramente não são as contas públicas. É o próprio projeto, que nos une enquanto portugueses, de criarmos em conjunto uma sociedade justa e equilibrada que está ameaçado pela continuação destas políticas.

Artigo publicado no Jornal Incentivo
13 Jan 2012

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

bancos a tostão furado


A credibilidade da banca privada portuguesa não vale já um tostão furado e estas desvalorizações são demonstrativas das suas dificuldades em financiar-se junto da banca internacional. Anos de apoio e patrocínio do Estado, nomeadamente através de fabulosos benefícios fiscais, ajudaram a inchar o balão da banca privada, que ainda há um ou dois anos continuava a apresentar lucros anuais de muitas centenas de milhões de euros. 

Favorecidos por uma política deliberada de não aproveitamento da Caixa Geral de Depósitos, os bancos privados envolveram-se tentacularmente em todos os sectores da economia e da forma mais destrutiva. Favorecendo o consumo descontrolado, emprestaram muitos milhões de euros aos portugueses e às empresas, pelos quais receberam e recebem ainda muitos milhões mais. Foram, desta forma, absorvendo, crescendo e concentrando em todos os sectores até se tornarem, hoje, neste monstro macrocéfalo insustentável que absorve os recursos do país.

Não vou ficar nada triste quando, em breve, ouvir dizer que faliram. Mas, desconfio que Passos Coelho depressa descobrirá mais uns quantos milhares de milhões de euros para os recapitalizar ainda mais uma vez.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

de necessária a urgente

Depois do triunfalismo das notícias de ontem sobre a Cimeira Europeia, a possibilidade de um acordo para a revisão dos Tratados Europeus foi afinal bloqueada pela Grã-Bretanha, que pretendia isentar-se das regras europeias sobre regulação do sector bancário e dos mercados financeiros.

À obsessão monetarista da França e da Alemanha, opôs-se o fanatismo desregulador da Grã-Bretanha. Interesses antagónicos que nem a ameaça do desastre comum consegue unir. Estamos já no campo das contradições irreconciliáveis que impedem a superação da crise. A situação está a amadurecer depressa para uma profunda mudança política que, de necessária, está a passar a urgente.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Коммунистическая партия Российской Федерации


O PCFR afirmou-se como a única oposição consequente à ditadura pouco encapotada de Putin e, ainda, o único que coloca como sujeito principal das suas políticas o Povo Russo, em vez dos oligarcas. Não. Não se trata de saudosismo soviético, nem de branquear todos os defeitos desse antigo regime. Trata-se de entender que o progresso e o desenvolvimento terão sempre de passar, em toda a parte, por uma melhor distribuição da riqueza na sociedade. E isso, os russos sabem há muito tempo.

sábado, 12 de novembro de 2011

os pesadelos de Pacheco


Quanto à análise do movimento e da sua composição, é convenientemente simplista, rotulando os indignados apenas como os filhos confusos do BE e do MRPP, assim obliterando a que será porventura a grande fatia dos que apoiam e participam neste movimento: jovens que nunca aderiram a nenhuma força nem credo político e, despidos por isso dessas referências, improvisam um protesto para dar voz à sua indignação. Esquece, também, aqueles que, como eu, participando, nos revemos noutras forças políticas.

Este texto não passa de uma tentativa de simplificar, de procurar rotular o que é complexo e plurifacetado e, no processo, desvalorizar as motivações e aspirações dos manifestantes, reduzindo-os a um bando de "pequeno-burgueses" desinformados, cuja única preocupação é sacudir a água do capote.

Adoro a forma como PP, querendo insultar, elogia, ao acusar o movimento de abusar do "“já”, uma das mais adolescentes das palavras". Uma acusação estranha para quem foi parte activa nos movimentos mais radicais e imediatistas de sempre na política portuguesa, afinal foi um dos fundadores do PCP-ML, de inspiração chinesa, que pretendia, saltando qualquer etapa, a transição directa do fascismo para o comunismo! É uma acusação que mostra o seu profundo ódio a tudo o que é novo e lhe recorda como se tornou tão inexoravelmente velho.

A palavra, que nunca surge no texto, está presente em cada entrelinha: medo. Pacheco Pereira tem medo de um movimento que ameça o seu "staus quo", lembrando-lhe certamente a sua juventude e os ideiais que continua a esforçar-se por renegar em absoluto. E por isso o profundo desprezo e arrogância do intelectual do regime perante a populaça agitada.

PP termina o seu discurso com a mais assustada das frases: "na crise que vivemos é uma força com futuro e, quando (...) se juntar nas ruas às filas disciplinadas da CGTP, (...) então a coisa fia mais fino." PP sabe que isso já está a acontecer. Por isso t(r)eme.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

duas velocidades para o inevitável

Merkel e Sarkozy falam cada vez mais abertamente de afastar os países europeus mais pobres do Euro, criando uma Europa a duas velocidades. Os ricos dos Euro e as economias periféricas e dependentes.

Nada de surpreendente porque, ainda que partilhando a mesma moeda, é já essa a situação actual, com o seu núcleo duro de estados-directores que conduzem os destinos da União da qual são os verdadeiros beneficiários. O afastamento dos estados membros mais debilitados do Euro servirá apenas para acelerar a sua ruína sem que, com isso, esteja garantida a solidez da economia da França e da Alemanha, antes pelo contrário. Esta Europa, seja a uma ou a duas velocidades, assiste ao fim definitivo dos princípios sonantes, mil vezes repetidos, e de união e partilha de um destino comum, de forma solidária, entre as nações da Europa.

Mantém-se muito actual - talvez mais actual do que eu próprio esperava - o que aqui escrevi em Outubro de 2010. E republico-me: "parece que cada vez mais assistimos à criação do sonho hitleriano do "Grossesdeutsches Reich", hierarquizando as nações europeias sob a batuta do estado director.(...)Perante isto, estamos já, de forma absolutamente clara, no campo de uma estrutura de estado colonial. Com ou sem independência simbólica (que é a única que ainda temos). O sonho europeu de uma associação de parceiros livres está oficialmente morto. Mas o seu cadáver começa mesmo a cheirar mal."

Apesar do conjunto desconhecido de problemas e ameaças que trará, esta morte do projecto europeu, tem o aspecto positivo de ser o fim de uma ficção política e económica que é, neste momento, o grande obstáculo à superação da crise e ao desenvolvimento de uma perspectiva de progresso e desenvolvimento para as nações da Europa.

O fim do projecto europeu, que nas últimas décadas tem sido o desígnio e pedra de toque dos governos da Velho Continente, a razão das políticas, o fundamento dos sacrifícios, o monstro sagrado do discurso político, irá pôr seriamente em causa as elites políticas europeias. Poderá nessa altura, eventualmente estar criado o espaço para a realização de profundas transformações políticas, económicas e sociais. Quando tombar finalmente, e com previsível estrondo, o cadáver apodrecido desta União Europeia, será a vez dos povos europeus falarem e decidirem o novo rumo. E não será um minuto cedo demais!

domingo, 6 de novembro de 2011

representantes do povo


Os deputados do PS grego quando impediram a consulta popular, em referendo ou eleições, não se importaram de abdicar do seu papel de representantes do Povo para assumirem a opção de representantes dos interesses do mercado.

Exactamente da mesma forma que o também PS (será coincidência?) português declara o seu apoio ao Orçamento de Estado, "cobardemente encavalitado numa abstenção", não por achar que essa é a vontade da maior parte dos portugueses, mas porque é desse mercado de interesses que tem de cuidar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

esta é a nossa cara

A fotografia desta manifestante anónima do movimento Occupy the London Stock Exchange, capturada pela Reuters e divulgada pelo Público, consegue, de certa forma, expressar muitas coisas sobre o que é este protesto global e quem são as pessoas que o movem.

Um traço comum em muitas destas manifestações, a máscara. Mas mais do que máscara que esconde, uma máscara que mostra. Mostra a despersonalização de quem foi alienado do seu direito à realização enquanto indivíduo, de quem se viu espoliado dos seus sonhos e da sua liberdade e reduzido a uma estatística, a um factor de produção, sem direitos nem personalidade. É, neste aspecto um bom retrato do anonimato forçado em que o mercado (também ele anónimo e sem rosto) nos afunda a todos.

Mas é também uma despersonalização de quem se encontra na nova identidade colectiva da multidão. Os 99%. A máscara, esta cara, outra cara - que importa? - de quem se sente irmanado no descontentamento e no protesto com milhões de outras caras em todo o mundo.

Os olhos, esses, olham para a frente, talvez sonhadores, mas bem abertos. Como se conseguissem atravessar a névoa diária de confusão e caos, a cacofonia das notícias e das declarações solenes. Como se derrubassem o muro mentiras que nos cerca há tanto tempo e vissem, límpido e luminoso, esse mundo novo que ainda vamos construir.

domingo, 30 de outubro de 2011

cegueira editorial


PS (que apropósito!) vai desenterrar o esqueleto de Adam Smith e o exemplo de Hong-kong para tentar mostrar que impostos baixos e pouca intervenção estatal são a receita para o crescimento e para a abundância, repetindo acriticamente o que viu no documentário da TVI24 que eu também vi.

Só que esquece, se é que o sabe, que na década de 70 estávamos perante um período de forte expansão económica em que um grande conjunto de capitais procurava, em mercados emergentes, melhores remunerações e que encontraram nos paraísos fiscais como Hong-kong a base ideal para as suas operações. Este cenário nada tem a ver a com a realidade actual. É talvez a nostalgia de uma "década de ouro" do capitalismo que leva PS a cantar-nos este fadinho do "Oh tempo, volta p'ra trás!". Além disso, mesmo agora, as coisas não andam assim tão famosas para as empresas de Hong-kong, ainda que protegidas pelo yuan, basta dar uma vista de olhos à secção de economia do The Standard.

PS, também não menciona o facto de Hong-kong ser permanentemente abastecida por uma abundantíssima vaga de mão-de-obra barata vinda da China que, sem qualquer direito ou reivindicação, montava transístores a troco de uma tigela de arroz por dia. Para mais, falar no PIB per capita de Hong-kong é uma falácia e um cinismo, porque esconde a profundíssima desigualdade entre os multi-milionários e as grandes empresas, dum lado, e a massa de trabalhadores explorados, por outro.

É bom lembrar que Hong-kong foi ocupada durante a 1ª Guerra do Ópio, em que os britânicos impuseram a livre circulação do ópio na China e para a Europa à força de canhoneira. Isto, sim, faz lembrar tempos mais actuais. Afinal, também nessa altura a motivação não era o desenvolvimento harmonioso, mas sim o lucro à custa do sofrimento humano. Mas de nada disto se falava no documentário que PS viu e repetiu aos seus leitores.

domingo, 23 de outubro de 2011

narrativas e falhas sísmicas

Li no Público de hoje duas frases que, na sua forma aparentemente obscura, acabam lançar luz sobre a origem dos problemas que enfrentamos.
A nossa actividade política contemporânea é, de facto, construída sobre narrativas, estórias narradas pelos actores políticos, seleccionando e valorizando alguns factos em detrimento de outros, apresentando encadeamentos causais que convidam o receptor da narrativa (os cidadãos) à adesão a uma ideia e, consequentemente a uma determinada acção (ainda que possa ser passiva, do género: "não se preocupem que estamos a trabalhar!").

Não creio que nenhum sector político ou ideológico esteja livre deste tipo de "vício de comunicação", a diferença reside em que alguns têm à sua disposição todos os meios para fazer passar a sua narrativa, que se torna auto-repetitiva e auto-evidente, enquanto outros, ao estarem essencialmente excluídos dos grandes meios de comunicação social, são forçados a procurar esse espaço, na que é a limitada e selectiva atenção dos receptores, usando formas e mensagens não-convencionais, ou procurando uma comunicação mais empática, ao nível das emoções (revolta, indignação, por exemplo).

A narrativa da gordura do estado, da crise da dívida e dos sacrifícios é, neste aspecto, exemplar. Após anos de repetição aturada (uma verdadeira cassete!), esta narrativa política tornou-se uma espécie de verdade intocável para os partidos de governo. Mas estas supostas "verdades", de tanto repetidas, perderam todo o sentido. Especialmente porque já não aguentam o mínimo teste com a realidade. Tornaram-se um muro que os vai separando das concepções dos próprios cidadãos, que a realidade vai moldando diferentes (perguntem a um desempregado se acha justificada a redução do subsídio de desemprego, por exemplo). Esta narrativa do capitalismo contemporâneo tornou-se uma espécie de um código linguístico vazio e incompreensível que por um lado afasta estes políticos do cidadão comum e por outro afasta os cidadãos da (desta) política.

A segunda frase, do Governador do Banco de Portugal, mostra como estes actores políticos se deixam convencer pela sua própria narrativa e a preferem à todo e qualquer sinal da realidade. Carlos Costa avisa sobre os supostos perigos de um perdão da dívida grega: A partir do momento em que um default é considerado, abre-se uma falha sísmica em toda a zona euro." Assumir que a dívida grega (ou portuguesa) é incobrável abriria uma "falha sísmica" catastrófica na narrativa do crescimento estimulado pelo crédito e na bondade das instituições financeiras internacionais. Apesar de tudo a ruir à sua volta, o Governador do nosso Banco Central (português) prefere a narrativa à realidade e luta por ela a todo o custo. Aliás, tal como o Primeiro Ministro, que se manifesta contra o perdão da nossa (deles) dívida, demonstrando o seu apego à narrativa e a sua profunda cegueira de julgar que, passada a crise, tudo ficará como dantes: "Porque, enquanto os credores tivessem memória, não emprestariam nem mais um euro.

Este é o perigo das políticas que se consideram auto-evidentes, inquestionáveis, e que em vez de abordarem problematicamente a realidade (tal como o cidadão comum é obrigado diariamente a fazer), se fecham na sua narrativa, tentando tapar com palavras a falha sísmica que se abre sob os seus pés.

sábado, 15 de outubro de 2011

o dia da ira

Ainda não consegui ter uma noção exacta da dimensão do protesto de hoje, mas já vou em 5 continentes e perto do milhar de cidades por todo o mundo (a propósito, três delas nos Açores). E a contabilidade não ficará provavelmente por aqui.

Este movimento, herdeiro da globalizadas lutas anti-globalização, tornou-se por sua vez também ele próprio global, de proporções quase bíblicas, na contestação a um sistema económico que rebenta pelas costuras. Quantos milhões de pessoas terão saído à rua hoje por todo o mundo?

E, para além da sua quantidade, penso que também a sua idade conta, neste caso. Uma geração que sempre foi desprezada, de quem se dizia que tinha tudo, mas a quem deram nada. Uma geração que a direita julgava ter dominada e que a esquerda nunca julgou capaz de se levantar. Uma geração rasca, à rasca, mas que mostra ao planeta que é capaz de fazer aquele que é provavelmente o maior protesto de toda a história humana.

Sobretudo, um protesto que não pode ser ignorado pelas elites governantes e nem pela esquerda, nem pela direita. Não é talvez por acaso que estamos perante o maior protesto de sempre em Portugal que não contou com o apoio e a mobilização directa dos sindicatos ou dos partidos. Pelo contrário, até. E não pode ser ignorado porque se trata já, claramente, da maior parte da humanidade a recusar um sistema económico inerentemente injusto e incapaz de assegurar o futuro das nossas sociedades. Somos mesmo os 99%.

Sei que me vão dizer que as reivindicações são vagas, talvez contraditórias, por ventura meio indefinidas; que se trata de uma espécie de revolta difusa. Sei que não há um programa definido que una estes muitos milhões de pessoas. Mas também sei que se aprende caminhando e que mesmo com todas as perguntas, dúvidas e hesitações, hoje aprendemos. Hoje ensinámos aos que gostariam de deixar tudo como está que isso não vai ser possível.

E enquanto escrevo ouço a televisão a destacar os desacatos, as violências e não consigo deixar de pensar na frase de Brecht, porque ninguém diz que são violentas as margens que comprimem este rio.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

recessão por João Paulo Guerra

A austeridade aprofunda a recessão e a recessão reclama mais austeridade.

E é assim, a receita do círculo vicioso e infernal, sem saída, em que Portugal vive mergulhado, não de agora, da crise em curso, mas das políticas de todos os governos reclamados de constitucionais. A austeridade estoira com o consumo e com o mercado interno e os alegados motores da recuperação da economia - exportações e outros mitos - não conseguem ultrapassar a recessão. E para a recessão, os poderes aplicam as receitas que a provocaram. E daqui não saímos, sendo que muitos não sairão vivos. Ninguém tenha ilusões: há doentes e velhos que vão morrer de crise. Mas com a morte sempre aliviam o Estado de subsidiar o tratamento de mais um paciente e de pagar a contrapartida de mais uma carreira contributiva para a segurança social.

A questão é que a crise presente é mais alguma coisa que os cenários de um presente e de um amanhã de sacrifícios, penúria, fome e terror. É um processo metodicamente aplicado para empobrecer a classe média e fabricar mais uns tantos nababos à custa de mais uns milhões de pobres. E, de caminho, cortar pela raiz qualquer vislumbre de Estado Social que ainda existisse e de direitos sociais que os titulares considerassem adquiridos. Não haja ilusões: o que a austeridade está a retirar jamais será devolvido, sejam as reduções de salários e pensões, seja o chamado 13º mês, seja o subsídio de desemprego. Os cortes são para ficar e, havendo meios e oportunidade, para cortar ainda mais e para sempre.

Claro que o "para sempre" é um conceito relativo. A História está carregada de "planos para dez mil anos", como escreveu Bertold Brecht no seu Elogio da Dialéctica, gizados para que a injustiça avançasse a passo firme. E nem sempre avançou.


João Paulo Guerra

E fica tudo dito.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Wall street é a nossa rua

We Are The 99% from socially_awkwrd on Vimeo.



Os média nacionais obedientemente esqueceram-se de nos informar que milhares de jovens ocupam Wall Street desde 17 de Setembro (o dia em que se celebra a assinatura da Constituição dos EUA), reclamando uma nova revolução americana, desta vez feita em nome dos 99% da população que não é milionária.

Que se passa na América? No passado recente dos EUA a juventude tem sido a consciência activa do descontentamentos, portadora dos ideais que fundaram aquele país e que inspiraram milhões em todo o mundo, Europa incluída. O peso simbólico da ocupação pacífica do coração do capitalismo moderno, utilizando as tácticas aprendidas nas revoluções do mundo árabe, é avassalador e inegável. E estes jovens sabem-no. Ainda que muitas das reivindicações sejam generalistas, ou mesmo imbuídas de uma certa ingenuidade, todos parecem ter uma consciência clara do problema que as sociedades modernas enfrentam e da sua causa.

Estes protestos espalham-se agora por muitas cidades dos EUA, colocando Obama perante a encruzilhada: parecer mudança ou mudar a sério. Mas colocam também, a todo o mundo que sofre os efeitos do desabar do sistema capitalista (e em Portugal andamos a aprender depressa o que isso é) um desafio: mudamos de políticas?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Misr (actualizado)

A situação no Egipto mostra-nos o retrato de um país dividido. Em duas margens opostas e distintas, tal como a sua própria geografia, em torno do rio Nilo.

De um lado, os que nada mais têm a perder, senão a opressão de um regime velho, corrupto e que facilmente vende esses mesmos interesses nacionais que tão assoberbadamente diz defender.

Na outra margem os que hesitam, os que temem a mudança radical, num país onde elas aparentemente não existem há mais de trinta anos.

Mas a verdade é que o conflito e a divisão entre os egípcios sobre o destino a dar à herança de Nasser e sobre as formas de prosseguir (ou não) os objectivos da revolução egípcia, há muito que lá está. Essa divisão estava lá no assassinato de Saddat, essa divisão estava lá nos protestos contra a aliança com Israel e os EUA, essa divisão está lá, muito nítida, muito real, no desmesurado crescimento da influência da Irmandade Muçulmana, principal partido (não legalmente reconhecido) da oposição.

A chocante desigualdade, entre as escalas mais baixas e mais altas da sociedade, mostraram-me, em primeira-mão há uns anos atrás, o quão longe se estava da visão de equilíbrio, igualdade e desenvolvimento dos tempos de Nasser.

Essa divisão, tornou-se algo muito mais profundo do que um fosso de opinião. "No Egipto, em 1991 foi imposto um devastador programa do FMI na altura da Guerra do Golfo. Ele foi negociado em troca da anulação da multimilionária dívida militar do Egipto para com os EUA bem como da sua participação na guerra. A resultante desregulamentação dos preços dos alimentos, a privatização geral e medidas de austeridade maciças levaram ao empobrecimento da população egípcia e à desestabilização da sua economia. O Egipto era louvado como uma “aluno modelo” do FMI." Estamos também perante um país que entrou em ruptura social, fruto das imposições aceites por uma elite política que era a única beneficiária da "ajuda" externa.

Os apelos das potências ocidentais a uma "transição pacífica", não passam da hipocrisia dos que procuram alguém, algum actor político, que possa continuar a levar a cabo, mais eficientemente, a mesma política. Por isso, esta revolução terá de proceder a profundas transformações sociais e políticas se não quiser correr o risco de mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Vêm nesse sentido as reivindicações do Partido Comunista Egípcio.

Num momento em que se fala tanto, em Portugal, da entrada do FMI na nossa economia, o Egipto, salvas as devidas distâncias, é pelo menos um exemplo para nos fazer pensar.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

a esquerda não tem nada a ver com isto



O aparente dramatismo mediático em torno das negociações entre PS e PSD sobre o Orçamento de Estado é revelador da urgente necessidade que estes partidos têm de aparentar divergências sobre políticas em que, no fundamental, concordam: fazer todo, mas mesmo todo, o possível para deixar intocado o status quo económico, à custa de continuar a agravar as desigualdades sociais, fazendo caír o grande fardo de sacrifícios sobre os que têm sido continuamente sacrificados, explorados e excluídos dos frutos da riqueza que gerámos nas décadas de oitenta e noventa.

E essa é a questão de fundo. Porque foi opção do PS, desde as primeiras horas do adensar da crise orçamental do país negociar sempre à direita e nunca à esquerda. PEC's (1, 2 e agora 3), revisão constitucional, orçamento, em todas as matérias mais fundamentais para o futuro do país, a opção do PS foi a de fugir para os braços calorosos da direita, fechando todas as portas a entendimentos com os partidos à sua esquerda, apesar dos evidentes sinais de abertura, por exemplo da parte do Bloco de Esquerda.

Essa opção diz muito sobre o distanciamento da actual direcção socialista em relação aos fundamentos ideológicos que estiveram na base da fundação do PS. Há uma geração de dirigentes socialistas que esqueceu todo um importante conjunto de lições, vindas do pós-guerra, sobre a necessidade de equilíbrio social, que foram duramente aprendidas pela social-democracia europeia. Interiorizaram, bem demais, o credo capitalista liberalizante. São agora prisioneiros do seu próprio pragmatismo a-ideológico.

Quando o país entrar em ruptura, como fatalmente vai acontecer em resultado das medidas recessivas, Passos Coelho e Paulo Portas irão tentar capitalizar o falhanço da "esquerda", mas enganam-se. A esquerda não tem mesmo nada a ver com isto.

terça-feira, 18 de maio de 2010

da natureza da Europa

O roubo praticado por via da especulação financeira às economias mais vulneráveis – feito a partir da dramatização artificial e selectiva dos défices públicos – é parte integrante do indisfarçável objectivo de construir os lucros do grande capital, sobre o peso crescente da exploração do trabalho e da pauperização da massa imensa de milhões de trabalhadores. A ingerência e a chantagem realizada sobre países soberanos, com a conivência dos respectivos governos, como Portugal, a Grécia e a Espanha, através da imposição de inaceitáveis condições – cortes nos salários, privatizações, aumento da idade da reforma, aumento da carga fiscal – são reveladoras da natureza de classe de que é feita a política de concentração e acumulação capitalista dirigida a partir do directório das grandes potências com destaque para a Alemanha.

excerto do Comunicado do Comité Central do PCP - 17 de Maio 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

capitalismo: um drama passional


Michael Moore consegue em "Capitalismo, uma história de amor" mais um filme de grande impacto, um retrato impressionante da crise económica global, as suas causas, os seus protagonistas e as suas vítimas.

Não pode deixar de impressionar o depoimento corajoso da Representante Marcy Kaptur sobre a forma como os órgãos legislativos americanos foram pressionados para a aprovação de um pacote de ajudas aos grandes bancos, sem qualquer avaliação, sem quaisquer contrapartidas.

O retrato da história de amor traído entre a América e o Capitalismo. A não perder!