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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

muros

Celebração da Europa reunificada. 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim. Vá-se lá saber porquê, mas foi uma festa desproporcionada, bem superior e mais internacionalmente emoldurada que aquela outra, já corriqueira (?) e humilde, da celebração do armistício que pôs fim à mais violenta, sangrenta e mortífera guerra suportada pela humanidade (e pela Europa em particular): a 2ª Guerra Mundial...

A festa foi grande e bem publicitada, apesar de comemorar resultados bem mais discutíveis e abstractos, para a Paz e para o futuro da Europa, que os da Grande Guerra. Gente importante mostrou-se aos olhos do Mundo, mas o povo não se lhes juntou nas ruas a comemorar esta outra paz proclamada…

Bem pelo contrário, no mesmo dia do festim da queda dos dominós gigantes em Berlim, uma sondagem (segundo notícia insuspeita de um correspondente da TSF) concluía que os alemães de Leste consideravam a reunificação como um logro, confessando, a esmagadora maioria, que se sentiam bem na antiga Alemanha Democrática e (pasme-se), numa percentagem significativa, até defendiam a reconstrução do muro!

E o correspondente remata sem hesitações: No Leste da Alemanha, grassa hoje o desemprego, os salários são mais baixos e o PIB é apenas 1/3 do registado no lado ocidental do País.

Mas a surpresa maior ainda ficou por vir, tanto para este correspondente português, como para qualquer outro cidadão. Um seu colega, do Jornal o Público, captou da Chanceler alemã, em pleno afã comemorativo dos 20 anos da queda do Muro, um desabafo capaz de fazer gelar o sangue a qualquer maniqueísta, comum a tantos outros que por aí persistem a agitar a maldade do comunismo contra as virtudes do capitalismo: “Nem tudo era preto no branco na antiga RDA”…”Eu era feliz e não tenciono esquecer os 35 anos de vida que ali passei”. Palavras de Ângela Merkel, cuja família se mudou do lado ocidental para a RDA em 1954. Não, não me enganei, caro Leitor. A actual Chanceler alemã não foi mais uma das vítimas do regime que, ambicionando alcançar “o paraíso da liberdade”, saltou desesperada o muro para o lado de cá. Ela mudou para lá, para a boca do lobo, e sentiu-se bem durante 35 anos…

Adquirido que está que o sistema implantado na RDA e noutros países, ditos do socialismo real, apresentava erros estruturais e por isso mesmo fraquejou e sucumbiu às investidas do império ocidental, cheiram-me no entanto a balofas (ideológicas?) estas ganas de sobredimensionar a festa da queda do Muro. Cheira-me a aproveitamento demagógico para ofuscar os erros estruturais de um outro sistema, que alguns até entendem representar o fim da história, mas que se tem revelado padrasto da Paz e da Harmonia entre os Povos e as Nações, padrasto do progresso socialmente justo que merecemos e porfiamos.

Exemplos não faltam e veja-se apenas mais um: Os glorificadores da queda do muro na Europa, como símbolo de reconciliação e reunificação, não hesitaram, entretanto, em promover posteriormente a construção de outros muros tão ou mais insanos e cristalizadores de divisões como aquele. Falo-vos daquele que foi erguido entre Israelitas e Palestinianos, na Faixa de Gaza, e, chamando-lhe fronteira, daquele outro, construído entre o México e os Estados Unidos da América do Norte.

Para lembrar que existem, e para que caiam depressa…

Mário Abrantes

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

o século da esquerda

O Diário.info publicou a interessante conferência do filósofo italiano Doménico Losurdo sobre o movimento comunista no século XX.

Os grandes avanços civilizacionais deste século estão indelevelmente ligados à luta contra a discriminação nas suas vertentes, racial, sexual e censitária, causas cuja defesa foi sempre encabeçada pelos comunistas e outras forças de esquerda.

Para além das vitórias sobre o imperialismo e sobre o nazi-fascismo, é importante não esquecer o papel desempenhado pelos países socialistas e pelas forças de esquerda na luta pela auto-determinação dos povos e contra as discriminações raciais, que permitiram mudar radicalmente o mapa do mundo e emancipar a maior parte da humanidade.

Também na igualdade, liberdade sexual e direitos das mulheres houve progressos inigualáveis.

Mas, talvez ainda mais importante, inaugurou-se uma nova época de progresso, com a afirmação da igualdade social como um valor basilar das nossas sociedades e, num processo ainda incompleto, deram-se passos de gigante no combate à desigualdade social e na criação do Estado Social, que permita o velho sonho da "maior felicidade possível para o maior número de indivíduos".

Estas conquistas e estes avanços são um incontornável património da esquerda, a que a direita e a social-democracia tardias tiveram, de forma mais ou menos contrafeita, de aderir.

E o autor coloca a questão com muita clareza: "A superação das três grandes discriminações foi tornada possível por um duplo movimento: com as numerosas e grandes revoluções a partir de baixo, que se desenvolveram quer nas metrópoles capitalistas quer nas colónias e muitas vezes inspiradas pela revolução de Outubro e pelo movimento comunista, combinaram-se revoluções pela cúpula, promovidas com o fim de impedir novas revoluções a partir de baixo e de defrontar o desafio do movimento comunista.

Fazem parte da democracia, como hoje é geralmente entendida, também os direitos económicos e sociais (direitos ao trabalho, à saúde, à instrução, etc.) E é justamente o grande patriarca do neo-liberalismo, Hayek, quem denuncia o facto de a sua teorização e a sua presença no Ocidente remeterem para a influência, considerada por ele funesta, da “revolução marxista russa”. Por conseguinte, o Estado social que se realizou no Ocidente, quer dizer, a tentativa de pôr limites ao pleno desdobramento do poder económico-social da riqueza, não pode ser pensado sem o impulso e o desafio provenientes da revolução de Outubro.
"

Os desafios que se nos colocam no século XXI obrigam a que se tenha plena consciência e memória destas conquistas. E orgulho, também.