
A escolha do local para uma celebração religiosa multitudionária com o Papa, foi tudo menos acidental. O Terreiro do Paço, histórica sede do poder político em Portugal, onde sucederam tantos e tantos momentos decisivos da nossa história, possui ainda uma enorme carga simbólica, que a igreja católica, nitidamente, pretende explorar a seu favor.
É, de certa forma, um insulto aos portugueses que o conceberam e que aí lutaram e viveram, sejam ele os restauradores da independência, Pombal, os revoltosos republicanos ou mesmo às chaimites de Salgueiro Maia. É, sobretudo, a negação da natureza laica do Estado Democrático e uma demonstração de força por parte da igreja. A tolerância de ponto concedida, o encerramento de escolas, os cortes de trânsito e o não disfarçado apoio estatal envergonham-nos.
Tivemos de esperar até 2010, por um governo laico e socialista e por um presidente da Câmara socialista e laico, para deixarmos assim, invadir o espaço mais simbólico da nossa República. A inscrição do arco que coroa a praça soará, hoje à tarde, como uma triste ironia: "Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de ensinamento. Dedicado a expensas públicas."
