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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

e não se pode exterminá-la?

A dívida do serviço regional de saúde atingiu o valor preocupante de 635 milhões de Euros. E a tentativa de minimização do Secretário Regional da Saúde e a sua argumentação de que são “só” 597 milhões e não 635 não nos deixam mais descansados. Aliás, as habituais guerrinhas de números entre Governo Regional e PSD servem como distracção noticiosa, mas pouco acrescentam ou retiram à realidade dos factos.

E os factos são graves. Não só pelo tamanho deste problema financeiro – de que não é certo que conheçamos toda a dimensão – como também pelo que pode implicar em termos de dificuldades futuras para os projectos em curso, como a ampliação do Hospital da Horta, por exemplo.

Entendo que é natural que exista um défice num sector que, pela sua natureza de serviço público essencial, não pode nem deve ser lucrativo. Ainda mais assim nos Açores, em que a nossa condição insular torna necessária a existência de mais profissionais, serviços e equipamentos, como também obriga, forçosamente, à deslocação de doentes para consultas e tratamentos especializados. Tudo isto, como é fácil de perceber, tem um custo elevado.

Entendo também que há problemas cuja raiz não está nos Açores. Quando nos anos noventa o então Primeiro-Ministro Cavaco Silva, limitou o acesso ao Ensino Superior, pela instituição dos chamados “numerus clausus”, reduzindo dramaticamente o número de alunos das faculdades de medicina, decretou a crónica falta de médicos com que Portugal atualmente se debate, ao mesmo tempo que empurrou para o estrangeiro os nossos melhores alunos. (Mais uma que os Açores têm para agradecer a Cavaco Silva…) É essa carência de profissionais que faz com que agora o peso das suas remunerações se torne esmagador. E soluções imediatas para isto, quem as tem?

Mas o problema é que não pagamos apenas os custos de estrutura do nosso Serviço Regional de Saúde, mas também o preço das políticas que lhe têm sido aplicadas. A crença cega na gestão de tipo empresarial como o método capaz de resolver todos os problemas, incluindo o de fazer omeletes sem ovos, bem à moda neoliberal, levou o nosso Governo Regional a criar, há alguns anos atrás, uma sociedade anónima de capitais públicos para resolver os problemas financeiros do Serviço Regional de Saúde: a Saudaçor.

Esta sociedade, criada no espírito da Lei de Bases da Saúde então em vigor, pretendia “combater o desperdício”, “agilizar, desburocratizar, mobilizar, gerir, inovar e facilitar a renovação” do Serviço Regional de Saúde, através de uma separação clara entre as funções de gestor/financiador (a Saudaçor) e prestador de cuidados de saúde (as unidades de saúde). Ao mesmo tempo, assumiu também a função de “central de compras” fornecendo equipamentos, medicamentos e outros materiais às unidades de saúde.

Na prática, veio retirar responsabilidades às direções dos hospitais e unidades de saúde, no que diz respeito à gestão dos seus orçamentos e no acompanhamento de obras nas suas infraestruturas. Concentrando poderes, acabou por afastar o centro de decisão para mais longe do utente e dos profissionais de saúde. Começou, logo, e ao contrário do que se propunha, a burocratizar as decisões, que passaram a ser tomadas por tecnocratas anónimos e longínquos, tantas vezes sem nenhum conhecimento da realidade concreta de cada uma das unidades de saúde que gerem.

Verificamos agora que, afinal, a Saudaçor não atingiu nem uma das finalidades a que se propunha. Não tornou a gestão da saúde mais eficiente. Não agilizou as aquisições nem melhorou o fornecimento de materiais e equipamentos às unidades do sistema. Não trouxe nem as poupanças nem os resultados prometidos em termos da construção e conservação das unidades de saúde. A Saudaçor SA não conseguiu cumprir nenhum destes objetivos.

Mas, os objetivos, nunca assumidos, de esconder o buraco financeiro, retirando do Orçamento Regional a despesa e a dívida, o objetivo de criar cargos de administração e direção para distribuir pela clientela política, de subjugar a autonomia das unidades de saúde, esses, sim, a Saudaçor cumpriu com mérito enquanto pôde.

Agora que finalmente já não serve para nada, resta perguntar: para que continuamos a arrastar este monstro de despesa pendurado no orçamento regional?

Artigo publicado no jornal Incentivo
18 Nov. 2011


E no Diário Insular
19 Nov 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

rica saúde


Construída e apoiada por fundos públicos, esta fundação não passou de um negócio privado e altamente lucrativo na área da oncologia e dos internamentos de longa duração. O pré-acordo que existia com o Estado para que a Fundação recebesse os doentes do SNS, e que agora está por concretizar, previa que fossem os dinheiros públicos a pagar os elevados preços das consultas, do que não resultará certamente nenhuma poupança, até porque serão consultados pelos mesmos médicos que também prestam serviço nos hospitais públicos. Quanto à suposta "investigação científica de excelência" parece estar apenas virada, mais uma vez, para a criação de patentes privadas e não a ampliação do conhecimento médico para benefício de todos.

Para quem ainda tinha dúvidas, andámos (e andamos) a pagar as despesas de uma clínica privada de luxo, engordando os lucros de uma família que foi o esteio do regime salazarista e que, ainda por cima, é gerida pela assassina politicamente responsável pela infecção de hemofílicos com o vírus do VIH. Podia ser melhor? Que seria destes dinâmicos empreendedores privados sem os fundos do Estado?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

bruxarias da época

Pelos vistos, ultimamente, não passa uma semana em que esta gente não trompique nos próprios pés. Não sei se por causa da época de bruxedo em que a democracia parece andar envolvida, se bloqueados pela falta de luz ao fim do túnel, se por ralharem sem razão numa casa onde os papás (ex-desavindos) já se entenderam para tirar o pão…

Cumulativamente com a data do corte da República nos abonos de família a 8 575 crianças e jovens açorianos e o corte nas comparticipações dos medicamentos, Miguel Correia, o Secretário Regional da Saúde, informou os açorianos que, por sugestão das próprias administrações hospitalares, o Governo resolveu, a partir de 1 de Novembro, cortar o horário de atendimento das urgências pediátricas. De imediato o corpo hospitalar desmentiu o governante dizendo de viva voz que nunca acordara tal desiderato. Alguém estava a mentir portanto!

César, contornando convenientemente a questão, resolveu célere o assunto deitando mais gasolina para o lume. Com ar ameaçador e as sílabas marteladas avisou, para quem o quisesse ouvir, que “não há sectores intocáveis!” E eu que o ouvi, pensei: Estou de acordo! Tal como para outras áreas, para a administração política da saúde pública, não há sectores intocáveis, isto, claro, na mira de melhorar a qualidade da prestação dos serviços (supunha eu...). Ora, segundo o corpo hospitalar e ao contrário do que afirmou o Secretário Regional, não é este o caso. Além disso o que parece também, é existir aqui uma manifesta falta de diálogo com os agentes da saúde pública, sendo essa falta substituída por indisfarçáveis e lamentáveis tiques de autoritarismo da parte do Governo.

Para quem afirma publicamente reconhecer os efeitos sociais nefastos das medidas previstas do orçamento de Estado, cozinhadas entre PS e PSD, além de ficar mal não subscrever tal crítica quando ela é apresentada no Parlamento Regional, mais mal fica ainda acrescentar, por sua lavra e para consumo específico dos açorianos, outras medidas com efeitos potencialmente perniciosos!

Entretanto, do outro lado das famílias desavindas, na passada 2ª feira, a líder do PSD atirava-se de cabeça ao Governo Regional, numa reunião com a Associação de Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, afirmando com toda a convicção do mundo que “importa não ter apenas verbas inscritas no Orçamento. Importa sim lançar as obras, executá-las…”!

Três dias antes, na reunião do Conselho Municipal de Educação, a Presidente da Câmara de Ponta Delgada, mostrando ao Governo como se deve fazer, anunciava que a autarquia tem “concluídos ou em fase de conclusão projectos de requalificação e ampliação de seis escolas de Ponta Delgada…”. Ora, das escolas então citadas, vem ao caso uma, a do Ramalho, que tem as verbas de requalificação inscritas no Orçamento do Município pelo menos desde Janeiro de 2009. Nesse mesmo mês, a Câmara anunciava que se preparava para intervir na sua beneficiação/ampliação com obras no valor de 800.000 euros. Estamos em finais de Outubro de 2010 e a única verdade testemunhável sobre estas obras é que elas permanecem…inscritas no Orçamento!

Serei eu que estou baralhado e, por bruxaria da época, a escola ficou pronta e eu fiquei cego? Ou a líder do PSD e a Presidente da Câmara de Ponta Delgada deixaram de ser a mesma pessoa?

Mário Abrantes

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

descubra as diferenças

Cá, como lá: na Região como na República o PS e a sua política não é muito diferente: Cortar primeiro nas áreas sociais essenciais

Esta notícia assume contornos de uma verdadeira obscenidade quando pensamos quanto é que se gastou no espectáculo das supostas maravilhas ou na famosa festa de bar aberto em Lisboa para promoção dos Açores.

Entre César e Sócrates, um doce para quem descobrir diferenças!

terça-feira, 27 de abril de 2010

poupar na saúde


A estas remunerações agradáveis somam-se 1080 euros por mês e 630 euros para os vogais do CA de despesas de representação (o que são e para que servem, afinal?).

Este tipo de números ajuydam-nos a compreender porque é que a Saudaçor é uma das principais responsáveis pelo crescimento descontrolado da dívida do sistema regional da saúde. Também desmontam claramente a falácia que nos estão sempre a repetir sobre a "gestão pública sair mais cara" e sobre as vantagens e suposta eficiência da "gestão empresarial". Está visto que as eventuais poupanças que a Saudaçor possa ter trazido devem ter sido todas à conta da qualidade do serviço prestado aos utentes, porque em termos de remunerações dos seus dirigentes, estamos conversados.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

a ministra não percebe nada de saúde

As recentes declarações da Ministra da Saúde, em que afirmou que os habitantes da vila minhota de Valença, que protestavam contra o encerramento da urgência do seu centro de saúde, "não percebem nada de saúde", mostra bem o fosso que existe entre as razões, muitas vezes puramente tecnocráticas, de quem decide e a percepção, humana, sentida, sempre a quente, dos que são os sujeitos dessas mesmas decisões.

A clara compreensão por parte dos cidadãos dos motivos das actuações dos governantes é um dos pressupostos básicos da boa governança. Essa falta de comunicação está na base dos descontentamentos, dos protestos, do alheamento dos portugueses em relação a essa coisa da política. Também aqui este governo falha redondamente. E nem sempre de forma inadvertida.

A saúde é um caso paradigmático: a frieza técnica dos números, das relações custo / benefício, dos ratios por utente, só muito dificilmente pode ser entendida por quem precisa de cuidados médicos e, portanto, sente uma necessidade absolutamente urgente, que se sobrepõe a quaisquer outras considerações, por muito lógicas ou racionais que sejam. Do ponto de vista do utente só há urgências.

Tomar decisões que dizem respeito ao que é sentido pelos cidadãos como uma questão de sobrevivência exige uma capacidade ainda maior de explicar razões, motivos e benefícios aos que irão sofrer os seus efeitos. Ficar admirado ou irritado com o descontentamento é a atitude de quem vê apenas números e se esquece do verdadeiro e essencial objecto do sistema de saúde: as pessoas. Não perceber isto é verdadeiramente não perceber nada de saúde.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

o que este inverno trouxe

Deprimentes baldes de água fria sempre enquadraram a manifesta falta de delicadeza e de conveniência com que a verdade frequentemente se declara.

Afinal foi granizo e não neve o que, no passado dia 29 de Dezembro pintou de branco os acessos às Sete Cidades. Correcção triste (em especial para os entusiasmados que, como eu por exemplo, espalharam rapidamente a notícia até às antípodas) mas irremediavelmente verdadeira. E isto porque, para aqueles que lidam quotidianamente com o clima e cientificamente aprenderam a explicá-lo, os meteorologistas, é muito improvável que alguma vez esse fenómeno venha a acontecer onde se disse (e se espalhou) que aconteceu… E já estou até capaz de dizer que, para eles, seria despiciendo ir ao local colher amostras comprovativas da sua afirmação.

Engano sem importância. O seu móbil foi inocente e tão simplesmente a ilusão da neve a alegrar os corações de quem, não estando acostumado com ela, já se desacostumara dos efeitos depressivos trazidos por um Inverno como há mais de uma década não acontecia por estas ilhas…

E, de constipação em constipação, esses rigores trouxeram uma pandemia que se espalhou em velocidade relâmpago pelo mundo, mais sob a forma de pânico instigado do que, como se está tornando progressivamente evidente, em consequências catastróficas pré-anunciadas. Engano premeditado este. O balde de água fria não caiu a tempo de evitar que se fizesse o maior negócio mundial do século. A gripe A, agora tida como menos agressiva e prejudicial que a gripe comum, encheu incomensuravelmente de satisfação (lucros, entenda-se) os laboratórios que produziram a respectiva vacina. Tudo à custa de uma monstruosa máquina de propaganda estimuladora, montada com acólitos nos governos e nos órgãos de comunicação do mundo inteiro. Em Portugal, seriam adquiridas mais de 2 milhões de vacinas, segundo a Ministra…e agora não há quem as queira. Lixo é o seu destino (ou os chamados países subdesenvolvidos, mesmo sem alguma vez as terem solicitado). Tão só um hediondo crime de lesa orçamentos públicos, em tempo de crise, cujos culpados nunca serão julgados!

E estará em vias de cair um balde de água fria sobre o “aquecimento global”? Que dirão os europeus ou os chineses, atravessando o Inverno mais rigoroso de há muitos anos a esta parte? E as calotes polares (se falassem…) recuando de um lado, mas crescendo do outro? E mesmo os atarefados criadores dos modelos de aquecimento, mudando oportunamente o termo para “alterações climáticas”, para prosseguir (e progredir) noutro incomensurável negócio à escala planetária: o da compra e venda de emissões de CO2?

A necessidade dos cuidados higio-sanitários para a prevenção da gripe, ou a necessidade do combate à poluição provocada pela actividade humana, são necessidades em si mesmo. Para os casos em presença, foram (estão) a ser utilizadas à escala do planeta como móbil ilícito (e delapidador de recursos) para acobertar incomensuráveis e lucrativos negócios que apenas beneficiam alguns.

Não foi o granizo em lugar da neve, foram baldes de água fria o que de importante este Inverno trouxe…
Mário Abrantes

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

nivelar por baixo


O nosso Governo Regional continua, a cada passo, a provar a sua coerência. Para resolver os problemas dos Açores, nada como nivelar por baixo! Há falta de médicos de família? Então a solução mais prática e barata é a de aumentar o número de utentes por médico, ao arrepio das recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Apesar de o Açoriano Oriental anunciar em título que vêm mais 37 médicos para a Região, lendo a notícia vemos que afinal para já são só 20 e que, destes, apenas 6 são médicos de família. É o que se chama não sair da cepa torta, especialmente se tivermos em conta que faltam cerca de 50 médicos de família nos Açores, de acordo com o Diário Insular.

Temos muito que agradecer a Cavaco Silva (e também à sua ex-Ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite), mas também a António Guterres por aqui há uns 13 anos atrás se terem lembrado que limitar o número de vagas nas faculdades de medicina era uma boa maneira de poupar uns cobres ao erário público. Muito obrigado!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

200

Ao contrário do Secretário Regional da Saúde, não me congratulo que haja "apenas" 200 casos de pessoas infectadas com SIDA na Região.

Pelo contrário, lamento o estigma, a discriminação, o abandono, a ignorância que se perpetua.

Pelo contrário, lamento o pouco apoio que têm para fazer face a despesas médicas esmagadoras, a situação económica em que são tantas vezes lançados.

Pelo contrário, acho que o Plano Regional de Combate ao VIH/SIDA vem com pelo menos uns dez anos de atraso e que vidas poderiam ter sido salvas se os nossos governos estivessem mais atentos ao problema.

Pelo contrário, prefiro prestar homenagem aos 200 lutadores que, dia a dia, lutam pela vida nos Açores.

terça-feira, 28 de julho de 2009

melhor negócio que a saúde, só o armamento


Mais um interessante artigo no E-Economia.info, desta vez sobre a continuação das parcerias público-privadas (PPP), desta vez com a Espírito Santo Saúde (quem disse que contar dinheiro todo o dia não dá saúde?) para a construção do Hospital de Loures.

O Tribunal de Contas e o insuspeito Guilherme de Oliveira Martins, já por várias têm apontado o resultado desastroso, quer em termos financeiros quer de resultados, destas parcerias para o Estado. Porque para os privados, é uma verdadeira mina de ouro.

É mesmo uma administradora do Grupo Espírito Santo que o reconhece, com uma frase verdadeiramente lapidar, daquelas que definem toda uma época:

terça-feira, 21 de julho de 2009

gerir a doença ou promover a saúde? (actualizado)

O início do processo de discussão pública do Plano Regional de Saúde seria uma boa oprtunidade para um debate que arejasse algumas das ideias tradicionais e erradas sobre o sistema nacional de saúde.

E, desde logo, o primeiro problema é que temos um Plano Regional da Doença e não um Plano Regional de Saúde. Todo o enfoque é posto no tratamento e nas suas unidades e meios, deixando como parente simpático, mas secundário e pobre, aquele que deveria ser o ponto principal: a prevenção.

E a medicina preventiva vai muito mais longe do que umas campanhas de sensibilização nas escolas e uns folhetos coloridos. A promoção de estilos de vida saudáveis implica com muitíssimas áreas sociais, que o Plano prefere deixar em omissão.

Desde logo, o trabalho: Ritmos de trabalho intensos, horários irregulares e que não reservam tempo para outras actividades, condições de higiene e segurança no trabalho deficientes ou mesmo impróprias, são um dos primeiros inimigos da nossa saúde colectiva.

Outro aspecto são os bastos incentivos à indústria automóvel, os incontáveis milhões gastos em estradas, auto-estradas e estacionamentos, para que possamos passar semanas sem ter de andar mais do que 50 metros a pé.

Também poderíamos falar da política desportiva orientada essencialmente para apoiar as modalidades de alta competição e especialmente o futebol, esse coveiro do desporto saudável e para todos.

Mas, o aspecto mais fundamental de todos tem directamente a ver com a desigualdade social, que se reflecte, também, gravemente, sobre a saúde. Existe uma relação directa estatisticamente comprovada entre o rendimento e determinadas doenças. Não só pela maior dificuldade que os que auferem menores rendimentos têm em fazer escolhas saudáveis (na alimentação, por exemplo, onde os piores alimentos são sempre mais baratos. Mercado dixit), como também por factores que se relacionam com stress (e tantas vezes depressão, mesmo) relacionado com ritmos de trabalho, emprego precário ou desemprego.

Na nossa sociedade desiquilibrada, o fosso entre ricos e pobres abrange já todas as dimensões humanas, incluindo natalidade, fertilidade, saúde e, obviamente, esperança de vida. Há até quem teorize que a continuação deste estado de coisas levará, no futuro, ao aparecimento de duas espécies de seres no planeta, economicamente relacionados, mas biologicamente distantes: ricos e pobres. Esperemos que não chegue a tanto...

É aqui que reside a razão das resistências da direita em relação às despesas com o Serviço Nacional de Saúde. É que esse é dinheiro que é gasto em primeiro lugar com as camadas mais desprotegidas da população. Por que a verdade é que só a melhoria da distribuição dos rendimentos pode trazer poupanças acrescidas em termos de despesas de saúde.

Enquanto não abordarmos seriamente e de forma integrada este problema, não passaremos de um simples plano de gestão financeira da doença.


Actualização:

Sendo este um post já longo, penso que o assunto o justifica. Não posso deixar de assinalar a verdadeira situação de ruptura nos centro de saúde por causa da falta de médicos de família. É perfeitamente sintomática da falta de aposta na medicina preventiva que é, também, em muito boa medida uma competência destes médicos. Precisamos de inverter este paradigma. E com urgência!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

as 2 gripes

Da honrosa passagem pelos Açores, em busca de raízes de 3ª geração, ficou-nos apenas isso: a honra do Nobel de Medicina ter sido recebido, conjuntamente por um governante que durante todos os seus mandatos sempre se fez acompanhar pela gripe comum, Carlos César, e por um ex-governante, Mota Amaral, desta feita herdeiro da antiga “gripe espanhola”, agora reaparecida numa versão moderada A(H1N1), e a pretender re-alastrar dentro do habitual quadro de convivência estabelecida e tolerante, que sempre soubemos manter com as maleitas da época.

Curioso foi apercebermo-nos, mesmo estando à partida pouco atentos, da visita propriamente dita de Craig de Mello e das honrarias que a rodearam, mas, paradoxalmente e face ao interesse estimulante provocado pelos ininterruptos alarmes da comunicação social sobre os perigos da A(H1N1), termos ficado por nos aperceber devidamente da opinião desse homem (julgo que qualificada) sobre o carácter desta nova versão da “gripe espanhola”.

Pondo um pouco de água na fervura dos nossos conselheiros mediáticos de circunstância, disse ele, em termos de consequências para os infectados, que a versão A(H1N1) tem grandes semelhanças sintomáticas e de tratamento com a gripe comum, sendo tão mortífera quanto esta! Nem mais nem menos…Ah! Um pormenor: enquanto isso, a Ministra da Saúde anunciava que já tinha encomendado vacinas contra a A(H1N1) para 30 % da população portuguesa. Está percebido porque já ninguém conseguiu ouvir a sensaborona opinião de Craig de Mello…

E eis pois a inevitável extensão do problema, também a Ponta Delgada. Por um lado uma estirpe reaparecida e aparentemente imparável que se propõe re-infectar em Outubro o Concelho, mas que, por pretender alastrar de seguida para toda a Região, já se sabe, amputará por sua própria iniciativa uma parte do mandato pelo qual, entretanto, se responsabilizou perante os seus eleitores. E, por outro, um paciente comum cujo advogado, caracterizando-o em tribunal, invocou como argumento o facto desse seu paciente ter sofrido danos irreparáveis, com mazelas físicas e psicológicas, e chegado ao seu fim político, por causa de uma noticia publicada num jornal. Duas maleitas que, ora uma ora outra, por mais que se pretenda diferenciá-las entre si, nos estão consumindo com os mesmos sintomas e os mesmos tratamentos há várias décadas, nas várias versões com que se nos apresentam.

E por isso, além da desmesurada percentagem de população inactiva, temos mais de metade da população activa com a doença da escolaridade até ao sexto ano; temos hospitais empresariais nados-mortos com prejuízos de 83 milhões; novos barcos e novas estações de tratamento, deficientes; próteses de betão e loteamentos desfigurados a invadirem o esqueleto urbano; faixas de alcatrão a mumificarem toda uma ilha.

Não é fácil erradicar as gripes, mas é possível combatê-las e diminuir-lhes os efeitos, com preserverança e sem alarmismos, sobretudo quando já as conhecemos…ou à medida que as vamos conhecendo. Mas, salvo raras excepções devidamente sustentadas, nunca o tratamento de uma se fará pela disseminação da outra.

E se a A(H1 N1) aparece hoje a pretender sobrepor-se à gripe comum, e amanhã vice-versa, ouçamos a sensaborona, mas oportuna e abalizada, opinião de Craig de Mello e tratemos as duas como maleitas que possuem entre si mais semelhanças que diferenças, sendo importante sobretudo reduzir-lhes a incidência, quer se trate de uma ou da outra…

Mário Abrantes

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Influenza, o velho inimigo

Como se previa, a gripe A chegou finalmente a Portugal e também aos Açores. O que talvez não se previsse era que o seu alastramento fosse tão rápido. Passámos de zero para mais de 20 casos em poucos dias.

Confesso que estou alarmado. O Influenza e particularmente esta sua estirpe H1N1, é um dos nossos mais antigos e mortíferos inimigos. Há menos de 100 anos atrás, este mesmo vírus infectou um terço da população do planeta e matou cerca 100 milhões de pessoas, ficando conhecido como "gripe espanhola". A diferença particular em relação a outros tipos de gripe é o facto de se revelar mortal em camadas etárias intermédias, jovens adultos e outros indivíduos saudáveis. Hoje em dia viajamos muito mais do que em 1918 e o contágio é virtualmente imparável, especialmente em países e destinos de férias como são Portugal e os Açores.

Embora não tenham uma eficácia a 100% alguns anti-virais como o Tamiflu têm-se revelado adequados. Importava evitar pânicos e corridas às farmácias, mas também tomar medidas acertivas e rápidas. Porque é que estes medicamentos ainda não estão a ser distribuídos gratuitamente aos grupos etários mais vulneráveis, como são as crianças e os idosos?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

o lado escuro dos hospitais privados

Beneficiários da ADSE queixam-se de discriminação nos hospitais privados

Já se sabia que os hospitais privados eram um grande negócio. Facilidades e isenções de impostos, uma torrente garantida de utentes desviados do Serviço Nacional de Saúde, governantes enaltecendo excelências em pomposas inaugurações e, sobretudo, aquela garantia que é o sonho de todos os comerciantes: o utente estará sempre disposto a pagar tudo o que for necessário, quando for necessário para aceder ao serviço prestado.

Agora o que se descobre é a sua verdadeira face: não é um negócio de venda de saúde. É um negócio de discriminar utentes em função do que estão dispostos a (ou são capazes de) pagar naquele momento.

Fica, sobretudo clara a sua pouca apetência para o serviço público e a dimensão do erro de contratualizar estes serviços com os privados em vez de fazer os investimentos que faltam no Serviço Nacional de Saúde.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

no pelotão da frente

Portugal entre os maiores exportadores do vírus


Ora finalmente um sector em que as nossas exportações dominam! Perante esta realidade e perante a evolução da epidemia no nosso próprio país, como é que é possível estar contra (ou hesitar, ou ter dúvidas) sobre a distribuição de preservativos nas escolas?

Estes números deveriam fazer empalidecer de vergonha as forças e partidos retrógados atrasaram durante décadas a introdução da educação sexual nas escolas e a distribuição de preservativos gratuitos. Daqui a muitos anos a Igreja Católica e estes movimentos ainda terão de fazer uma dolorosa reflexão sobre o seu papel no combate à difusão desta epidemia.

O atraso nas ideias de uns trouxe-nos o avanço na doença de muitos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

da eficiência da gestão privada



Hospitais de gestão empresarial com prejuízos de 192,7 milhões de euros em 2008


Um agravamento só de 35,6% em relação a 2007. Mas o Secretário de Estado da Saúde acha normal.

Os dogmas sobre a eficiência da gestão privatizada saiem caro...