domingo, 3 de maio de 2009

alertas difíceis de ignorar

Não tanto por contrariar, mas por uma questão de higiene mental, gostaria eu de saber que relação orgânica existe (se existe) entre os agressores e o partido de que sou militante há quarenta anos. São militantes também eles? São meros simpatizantes? Se são apenas simpatizantes, o partido nada poderá contra eles, mas, se são militantes, sim, poderá. Por exemplo, expulsá-los. Que diz a esta ideia o secretário-geral? Serão provocadores alheios à política, desesperados por sofrerem esta crise e que pensam que o inimigo é o PS e o candidato independente às eleições europeias?… Não se pode simplificar tanto, nem na rua nem nos gabinetes.

Embora o tenham incluído na lista dos candidatos, o Prémio Nobel de Literatura nunca se encontrará com o seu amigo Vital Moreira no Parlamento Europeu. Dir-se-á que a culpa é sua, pois sempre quis ir em lugar não elegível, mas também se deverá dizer que sobre ele em nenhum momento se exerceu a mínima pressão para que não fosse assim. Nem sequer a Assembleia da República pôde conhecer os meus brilhantes dotes oratórios… Não me queixo, mais tempo tive para os meus livros, mas o que é, é, e alguma explicação terá. Que espero que não seja por me considerarem a mim também traidor, pois embora militante disciplinado, nem sempre estive de acordo com decisões políticas do meu partido. Como, por exemplo, apresentar listas separadas para a Câmara de Lisboa, que, pelos vistos, vamos entregar a Santana Lopes, isso sim, sem que ninguém tenha perdido a virgindade do pacto municipal. Apetece dizer “Deus nos valha”, porque nós parecemos incapazes.

Saramago muitas vezes não tem razão. Mas vale sempre a pena escutá-lo. E pensar.

sábado, 2 de maio de 2009

novo modelo velhas ideias

Berta Cabral veio afirmar que o transporte marítimo de passageiros precisa de um novo modelo em que "o Governo Regional não deve ser armador nem deve ser uma empresa de transportes marítimos.", deixando o sector para os privados, remetendo-se o Governo Regional a uma posição de mero "regulador".

Nos dias que correm, com a retracção do investimento dos privados, Berta Cabral sabe que é uma declaração perfeitamente inofensiva, porque nenhum privado está seriamente interessado em assumir posições num sector tão oneroso, complexo, incerto e pouco rentável, como são os transportes marítimos inter-ilhas. E ainda bem!

É preciso entender que na nossa situação insular muitos destes transportes nunca serão rentáveis, mas são absolutamente necessários. Permitir que a selecção de rotas, ou a sua frequência, por exemplo, fiquem sujeitas apenas a critérios de gestão empresarial é prejudicar seriamente as ilhas mais pequenas e as suas populações.

Berta precisava do seu "sound-byte" diário e resolveu fazer a defesa ideológica da privatização mecânica, sistemática e imponderada que o PSD sempre defendeu. Nada de útil. Nada de novo.

lucidez no 1º de Maio

Sobre os incidentes com Vital Moreira no 1º de Maio em Lisboa já tudo foi escrito por essa blogosfera fora.

Desde os que aproveitam para espumar da boca, despejando o mais raivoso e primário anti-comunismo. Aos que tentam o jogo fácil do aproveitamento político, clamando contra o sectarismo. Aos que se vitimizam desavergonhadamente e sonham com o regresso a velhas Marinhas Grandes.

Mas há, também, felizmente, análises lúcidas e gente informada.

Vale a pena ler o que escreveu António Abreu no seu Antreus.

Também no Fiat Lux Carpe Diem encontrei uma boa dose de lucidez. No post. Nem tanto nos comentários.

E, porque nada como aproveitar esta possibilidade que a internet nos dá de ir às fontes reais da informação, deve ler-se o posicionamento oficial da Comissão Política do PCP.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

fazer de Maio a nossa lança

O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

José Carlos Ary dos Santos



Amanhã, 1º de Maio, milhões de mulheres e homens de todo o mundo saem à rua não por causa do passado, mas por causa de um futuro melhor. Porque a história não para e são esses mesmos homens e mulheres que a fazem.


por isso é que...

O cidadão comum não pode dizer o que pensa e o que sente. Por maior que seja a sua razão, não se pode afirmar descontente. Pelo menos no local de trabalho não pode. Qual nova pide instalada, há quase sempre, ao seu lado, um “amigo” que (às vezes nem sequer por delatória conveniência, mas antes, e até, por confrangedora boa fé) o aconselha à moderação ou mesmo ao silêncio puro e simples. E infelizmente as pessoas, apreciando-o ou não, precisam que o trabalho lhes providencie o rendimento, e por isso se remetem ao silêncio, se coíbem de emitir opiniões, se esquecem praticamente de que são alguém, num sufoco (egoísta, porque solitário) do seu sofrimento ou revolta. Manter o bico fechado (ou fingir) é estratégia de sobrevivência, e esta, como todos sabem, constitui o principal instinto dos animais, sejam eles racionais ou não.

Em suma, e admitindo ser verdadeiro aquilo que disse, existirá então de facto, nos dias que correm, para além de um grave problema de desemprego, sub-emprego, ou precariedade laboral crescentes, um grave problema com a liberdade de expressão.

Atrevo-me até a dizer, sem grande risco de engano, que um problema influencia o outro e vice-versa. Quanto mais desemprego e menos trabalho seguro e digno, menos liberdade.

Por isso é que, em geral por motivos de ordem laboral, há descontentes e revoltados que acompanham com fé, no dia 25 de Abril (em acto provocatório), a inauguração de uma praça com o nome de António de Oliveira Salazar ou, em concursos televisivos (pouco inocentes), elegem o ditador como maior português de sempre. Simplesmente perderam, em conjunto com o emprego ou outros direitos sociais e laborais, a capacidade individual de serem livres...

Por isso é que é importante lembrar o 25 de Abril. Os que penaram. Os que morreram. Os que foram torturados. Para que, no país onde o 25 de Abril se deu, ninguém se atreva a desejar, na sua secreta esperança, que algum dia se voltarão a viver as mesmas aberrações.

Por isso é importante confirmar, em vésperas de 1º de Maio, que os trabalhadores não se libertam da ameaça do desemprego, e da perda de condições de trabalho, silenciando a sua voz e o seu descontentamento ou refugiando-se na esperança de que, para salvar o seu próprio destino, chegará de novo o homem forte e omnipotente para impor a lei e a ordem. Essa lei e essa ordem não são hoje, não foram ontem, nem serão amanhã, as suas. E o silêncio, esse, será sempre o penhor da sua liberdade.

Foi exactamente no dia 1º de Maio de 1974, 5 dias depois da revolta militar vitoriosa, que uma impressionante manifestação juntou de mãos dadas em Lisboa, cerca de um milhão de pessoas, para assinar com o país renascido um novo contrato social. Para além do fim da guerra colonial, as reivindicações expressas na manifestação, como o salário mínimo, as reformas e a segurança social, as férias, a igualdade e a segurança no trabalho, a regulamentação dos seus horários, a liberdade sindical, o subsídio de desemprego, o direito à saúde e à educação, de imediato passaram à lei, e à prática. Em liberdade e unidade, de viva voz se ouviram as grandes reclamações populares, o país emergiu das catacumbas, assinou o contrato, e andou para a frente.
É entretanto à quebra progressiva deste contrato aquilo que estamos hoje assistindo, por imposição de uma lei e uma ordem que, novamente nos são estranhas, e por isso o país anda para trás e somos hoje menos livres.
Mario Abrantes



[Inaugura-se hoje e aqui uma mais que benvinda colaboração regular do Mário Abrantes, que muito enriquece a Política. Benvindo, Mário!]

quarta-feira, 29 de abril de 2009

educar para a denúncia


Parece que, alguns meses depois de alguns alunos de uma Escola Secundária de Fafe terem atirado ovos à Ministra da Educação, esta enviou um inspector à escola para interrogar suspeitos e tentar obter delações.

É verdade que atirar ovos, mesmo à Maria de Lurdes Rodrigues, é crime. Só que compete exclusivamente às autoridades policiais a sua investigação. Paradoxalmente, parece que nenhuma queixa foi apresentada.

Assim, lá vai o Ministério da Educação, dando o exemplo, tentando criar uma jovem geração de pequenos denunciantes. Afinal são essenciais para a manutenção de qualquer poder autoritário que quer ser duradoiro, mesmo quando tenta dizer que é de "centro-esquerda"!

computação evolucionária

Na Universidade de Coimbra estuda-se um dos ramos mais avançados do conhecimernto e um dos grandes desafios científicos do nosso tempo: a computação evolucionária.

Trata-se de procurar na natureza as respostas para problemas complexos. Os sistemas naturais têm em muitos casos soluções simples para a selecção e gestão de informação complexa. Que têm a ver o sistema imunitário humano e os filtros anti-spam? Tudo.

um post quase perfeito

Carlos Santos n'O valor das ideias desmonta muitíssimo bem os argumentos neoliberais dos que defendem a necessidade de, no contexto da crise, proceder a reduções salariais e aumentar a flexibilidade laboral (leia-se: a facilidade para despedir), como forma de aumentar a nossa competitividade e vir, eventualmente, a subir os salários.

Sem entrar na questão da imoralidade desta ideia, vale a pena lembrar que em Portugal o custo do trabalho é apenas 49% da média da UE e a produtividade é 63%, portanto...

A outra ideia fundamental é a desmontagem da utopia do mercado europeu de trabalho. É que a instituição da livre circulação de trabalhadores não cria, automaticamente, um mercado flexível e dinâmico. Há barreiras culturais, sociais e até afectivas, que dificultam a circulação dos trabalhadores no espaço comunitário. Não há um mercado de trabalho europeu, mas sim uma soma de mercados, com pouca integração entre eles. Não se podem decretar fluxos migratórios por via da flexibilização das leis laborais.

Esquecer isto é esquecer que há pessoas por detrás dos números da economia.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Hamlet Ferreira Leite


Deve ser uma dúvida difícil para a líder do PSD, depois de o PS ter absorvido os conteúdos e as bandeiras políticas tradicionalmente social democratas, depois de anos na oposição, o suave perfume do vislumbre do poder há de ser muito tentador...

Por outro lado, denunciar esse secreto anseio a 6 meses das eleições está muito para lá do tiro no pé. É mesmo um suicídio eleitoral em toda a forma.

As coisas não estão mesmo nada bem para MFL. Algo está mesmo podre no reino da Dinamarca...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

a qualquer preço

Mão de obra oferece-se para trabalhar a qualquer preço
RTP - Açores

É assim que as coisas funcionam no mundo real, bem longe da propaganda do governo sobre a modernização das relações de trabalho. Estamos com certeza cada vez mais competitivos.

Vem-me à ideia a expressão: "lei da selva"...

purgas

Ministro das Finanças confirma afastamento de dez dirigentes de topo da função pública

Por não terem aplicado correctamente o novo sistema de avaliação de desempenho na administração pública, o famigerado SIADAP.

Um sistema burocrático, mal regulamentado, confuso que, entre outras maravilhas, implica a existência de quotas para as classificações mais altas, mas apenas nas categorias mais baixas. Um sistema que implica que um cantoneiro de limpeza, por exemplo, tenha de "trabalhar por objectivos" e onde mesmo as faltas por doença ou assistência à família, prejudicam a notação.

Um sistema que serve para uma coisa e para uma coisa apenas: impedir a normal progressão na carreira de funcionários competentes.

Os dirigentes da função Pública devem, antes de tudo, lealdade ao Estado, não às orientações ideológicas do governo do PS.

Açores com o dobro das gravidezes na adolescência


Haverá razões socio-culturais. Há. Isto não está forçosamente relacionado, em todos os casos, com situações de pobreza. É verdade. Sei até que se tratam, em muitos casos, de opções conscientes, que respeito.

Mas há um factor, causa e efeito, que está intimamente relacionado com todas as gravidezes adolescentes: o abandono escolar, questão que já abordei aqui.

Esse é o problema de fundo que tem ser enfrentado. Não basta o prolongamento artificial da escolaridade obrigatória, ao mesmo tempo que se mantém a idade mínima para trabalhar apenas nos 16 anos.

Não basta fazer umas campanhas de sensibilização modernaças, é preciso criar as condições para que as qualificações dos nossos jovem sejam valorizadas, do ponto de vista da sua carreira profissional e remunerações. Especialmente das jovens mulheres, que são as primeiras vítimas da precariedade e baixos salários e que, como tal, menos estarão interessadas em adquirir qualificações. Para que as suas escolhas possam ser livres e conscientes.

património mundial ou sorte de varas: agora escolha

Não consigo perceber como é que pode ser admissível a realização de touradas - e especialmente de sortes de varas - numa cidade Património Mundial.

Se, por um lado, nos interessa a distinção dada pela UNESCO a Angra do Heroísmo, temos também de aceitar os posicionamentos da UNESCO, por exemplo a Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Não faz sentido uma coisa sem a outra. E por isso estou completamente de acordo com a Associação dos Amigos dos Açores.

Penso que esta questão da sorte de varas nos coloca perante a pergunta: afinal o que é que é mais importante?

Sermos mundial reconhecidos por aquilo que temos de profundamente nosso, original e único, ou sermos mundialmente reconhecidos como um povo atrasado, com tradições culturais bárbaras e onde a vontade de uma minoria privilegiada fez com que perdessemos uma distinção da UNESCO?

Agora escolha!

sábado, 25 de abril de 2009

onde é que você estava no 25 de Abril?


[Reportagem TVI que, infelizmente, não identifica os profissionais que a produziram]

De lá para aqui, o que mudou? O mundo mudou? Eles mudaram? Mudámos nós? Mudaram as nossas expectativas que eram tão grandes? Acomodámo-nos ao Abril possível? Ou passámos a achar impossíveis as esperanças de Abril?

De lá para aqui, o que mudou? Tanto... E tanto que ficou por mudar...

A 25 de Abril de 1974, eu estava apenas nos olhos esperançados de dois jovens que, não muito tempo depois, se tornaram meus pais.

A 25 de Abril de 2009 sei onde vou estar. Ao lado da minha gente, dos meus iguais, ombro a ombro, braço a braço, sem desistir de agarrar os impossíveis que a manhã de Abril nos prometeu.

E você? Onde é que vai estar no 25 de Abril?


quinta-feira, 23 de abril de 2009

ilícito? qual ilícito?


Afinal, se se pretende, com seriedade, combater a corrupção, seria coerente penalizar uma das suas mais óbvias consequências.

Mas não... Esta recusa do PS, mas também o indisfarçável mal-estar no PSD (merece aplauso Rangel por o enfrentar!), transmitem uma imagem muito complexa à opinião pública. Especialmente com nos dias que correm em que a credibilidade da justiça e da classe política está de rastos.

Afinal é preciso combater a corrupção. Mas não muito.

Açores e Guantanamo: a verdade não passou por aqui


Contra todas as crescentes evidências os partidos do centrão e a sua muleta resolveram continuar a tentar abafar a verdade óbvia da cumplicidade das autoridades portuguesas nas sinistras manobras da CIA, a mando de George W. Bush.

Tentando esconder um paquiderme atrás de um arbusto, tentaram falar de tudo menos deste assunto e acenaram com o empobrecido argumento de que "não há confirmações oficiais", pretendendo que os culpados venham voluntariamente confirmar a sua culpa. Defendiam também que não fazia sentido que o Parlamento açoriano discutisse isto, como se os Açores nada tivessem a ver com o assunto.

Com essa atitude reconheceram que são pequenos demais para se ocuparem do que diz respeito ao nosso arquipélago e que a palavra Autonomia (que usam com tanta ligeireza para os seus fins politiqueiros imediatos) afinal nada vale perante a vontade dos poderosos. Triste.

Sara Tavares: xinti

Vem aí mais um grande álbum de outra grande senhora da música portuguesa.

Chama-se Xinti e sai dentro de dias. "Música para sentir", diz Sara. A poesia das coisas simples, digo eu.

A não perder, em qualquer caso. Oiça e veja:

quarta-feira, 22 de abril de 2009

factos

José Sócrates foi longe demais no ataque à TVI e sabe-o muito bem.

As suas declarações são ofensivas para uma instituição inteira, insultuosas para os seus profissionais e uma demonstração clara da má convivência que o Primeiro Ministro sempre teve com o pluralismo e a liberdade de imprensa.

José Eduardo Moniz tem toda a razão. Sendo verdade que a TVI tem, por opção, uma linha editorial que dá espaço e atenção aos múltiplos descontentamentos que grassam no país, a verdade é que apenas relatou factos. J.E.M. não chegou ontem ao mundo do jornalismo e nunca daria o flanco, permitindo um processo por difamação por parte do Primeiro Ministro.

Ao contrário, Sócrates dá o flanco todo, mostrando ao país o triste espectáculo do seu desespero. Foi emocional, irreflectido, contraditório e conseguiu com isso arranjar um inimigo extremamente perigoso, especialmente para um político que enfrentará eleições dentro de poucos meses...

Sócrates já não engana ninguém: o problema não é a linha editorial da TVI. O problema são mesmo os factos.