domingo, 24 de maio de 2009

85.000

A CDU inaugurou ontem, de maneira espectacular, uma nova forma de campanha política, nunca antes realizada em Portugal, que reuniu em Lisboa, de acordo com os números dados pela comunicação social, mais de 85.000 pessoas.

Este formato de acção de campanha permite potenciar o que a CDU sabe fazer melhor: juntar as pessoas, mobilizá-las em torno de causas. E, também do ponto de vista político, deu um sinal muito preocupante para José Sócrates. Ali estavam dezenas de milhares de pessoas dispostas a darem o passo seguinte, necessário e consequente, na demonstração de descontentamento contra a sua política: apoiar a CDU e continuar com o seu voto os protestos que têm juntado muitas centenas de milhares de pessoas de todo o país.

A CDU irá ganhar o voto de todas as pessoas que têm participado nas manifestações? Provavelmente não. Mas tem o mérito de recolocar na agenda política o poder das ruas, a soberania das multidões, que são a base da nossa democracia. Esta é que é a verdadeira sondagem.

Há mais algum partido, coligação ou coisa híbrida que consiga fazer o mesmo?

Veja também as fotos da Marcha.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

socialistas ao mar

Deputados do PS / Açores viajam em Corveta da Armada portuguesa

Para o Partido Socialista não parecem existir fronteiras entre aparelho partidário e aparelho de Estado. Nem limites para a instrumentalização do segundo ao serviço do primeiro.

Tanto se utiliza a Direcção Regional de Educação do Norte para recolher imagens de crianças para tempos de antena como se "manda parar" uma corveta da Armada Portuguesa, para transporte e animado passeio (adivinho) dos deputados socialistas no parlamento Regional.

Apesar das dúbias e titubeantes desculpas do líder parlamentar socialista sobre o facto de corveta nem se ter desviado da sua rota (era só o que faltava, mesmo!), ficam muitas perguntas e enormes perplexidades: quem é que contactou o comandante da embarcação? A que título? As chefias militares tiveram conhecimento do passeio? A viagem terá sido gratuita? Se sim, está então a via aberta para todos os deputados de todos os partidos utilizarem para os seus fins pessoais o equipamento das forças armadas? Se não, então a nossa Armada dedica-se agora também ao transporte de passageiros?

Muitas dúvidas, mas algumas certezas. Da parte da Armada: não duvido que o comandante da embarcação vá incorrer no respectivo processo disciplinar por andar a usar os nossos navios para "dar boleias".

Da parte do PS: tratou-se de mais um episódio vergonhoso de instrumentalização do aparelho de Estado, demonstrativo da forma antidemocrática como vêm o "seu" poder.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

organicamente portugueses

(foto de Leonardo Braga Pinheiro - www.olhares.com)

A propósito do debate sobre o movimento independentista nos Açores, e sem querer entrar na discussão das suas peripécias e vicissitudes - discussão para a qual não me sinto minimamente habilitado e sobre a qual, tal como acontece com as gerações de açorianos mais jovens, quase nada sei - quero partilhar algumas reflexões.

Parece iniludível que o eventual apoio internacional à independência açoriana, nos idos de 75, foi sempre muito maior do que o seu verdadeiro apoio popular, que não só foi sempre inconstante e dividido, como volátil.

E penso que a razão disso reside no facto de, no mais profundo do nosso inconsciente colectivo, nós açorianos sermos organicamente portugueses. No facto de não se entender a portugalidade sem a açorianidade. O difícil processo de adaptação e sobrevivência nas duríssimas condições das nossas ilhas trouxeram ao de cima muito do melhor - mas provavelmente também do pior - das características distintivas dos portugueses.

Entre essas características avultam a adaptabilidade e o sentido imediato da sobrevivência. Depressa a necessidade da subsistência ensinou o agricultor a ir ao mar, o pescador a plantar a sua horta, a passar do pastel, ao trigo, à laranja, ao leite, à carne, à baleia, ao atum, ao goraz. Com a sua adaptabilidade os portugueses, e os açorianos, demonstraram sempre ser trabalhadores incansáveis, e como tal reconhecidos, do calor tropical da América do Sul aos frios polares do Canadá.

Nestas e noutras viagens, - destino de romeiros - e também nas viagens dos que visitaram e visitam o nosso arquipélago-no-centro-do-mundo ganhámos a vocação do universalismo, a vontade de receber o estrangeiro, de o acolher como um igual, de encontrar na diferença o regozijo da fraternidade de todos os homens. Sabedoria espontânea, quase inata, das nossas gentes, colhida nos ensinamentos do pescador da Galileia a quem chamamos nas nossas festas Santo Cristo, mas confirmada na comunhão de perigos e trabalhos, essencial à sobrevivência no duro vento das ilhas isoladas, sob este céu sempre belo e sempre inclemente. A vontade e o trabalho da comunidade que, enfrentando unida os piores cataclismos que a natureza criou, encontra a abundância, ainda que simbólica num mesa do Espírito Santo.

Provavelmente muito do melhor da natureza do povo português foi sublimado na dureza vulcânica da rocha açoriana.

E, a verdade, é que a palavra Pátria vai muito mais ao emocional do que ao racional e ao político. Portanto, deixo para outra ocasião o balanço materialista de ganhos e perdas num processo de independência açoriana, para dizer apenas que não se pode separar o que é um. Conservamos nos Açores parcelas estruturais da portugalidade. Não se pode entender o Povo Açoriano sem o que tem de genuinamente português.

E vice-versa...

desemprego para lá da crise

É já uma infeliz banalidade a lamentação sobre o crescimento dos números do desemprego, nomeadamente sobre os que acabam de ser publicado na estatística mensal do IEFP.

Deles, no entanto, destaco um número que, creio, merece reflexão: O facto de 39,7% dos desempregados alegaram que perderam o emprego por "fim de trabalho não permanente". Na prática, não renovação de contratos a prazo.

O que também significa que estes postos de trabalho continuam lá, só que agora ocupados por um novo trabalhador precário. E essa é a questão. Não desvalorizando a intensa destruição de postos de trabalho causados pela crise, uma parte significativa destes números têm a ver com a generalização (que se aproxima da absolutização) do trabalho precário. E essa, não começou em Setembro de 2008!

As empresas sabem assim que podem contar com uma multidão de trabalhadores desempregados, muitos deles altamente qualificados, que vão fazendo passagens breves e sucessivas pelo mercado de trabalho (veja-se também a percentagem de desempregados de curta duração). Isto permite-lhes, na prática, pagar sem preocupações os salários mais baixos possíveis e retirar quaisquer direitos laborais ou capacidade de reivindicação a estas pessoas.

É nesta camada pobre, sem perspectivas, poupanças, direitos ou influência social que estão a cair cada vez mais portugueses. É melhor começarmos a pensar na sociedade que estamos a criar, para lá do nevoeiro informacional da crise.

escravos da humanidade

"É usual esgrimir-se que só pode ser “do contra”quem não percebe a mística da Sorte de Varas e de todo o cerimonial envolvido. Como se para avaliar o bem do mal ou o mau do bom, fosse necessário ter certificado. Este solipsismo que exorta a ignorância alheia, refugiando-se na fidelidade a uma expressão performativa, artística, esquece que a fidelidade ao absurdo representa apenas outro absurdo. Admita-se que o acto de picar, de sangrar ferozmente o touro numa praça, possa ter uma sustentação artística, do mesmo modo que uma instalação plástica que expõe um cão faminto aos visitantes, com um aviso para o não alimentar. Em qualquer caso não estamos perante sofrimento retratado ou simulado, mas tormento vivo, vivido e a três dimensões, no momento em que o homem tira “férias em sê-lo” para em acto contínuo recostar-se no sofá, condenar a violência no mundo e clamar contra imoralidade dos jovens de hoje. Se uns classificam isto de arte, eu, pobre ignorante, dou dois nomes: no máximo, voyeurismo sádico; no mínimo, hipocrisia velada."
Não planeava retomar aqui o tema das touradas picadas, mas o texto de Paulo Jorge Gomes, publicado hoje no diário Insular é demasiado brilhante para ser ignorado.

Uma reflexão profunda, a recordar nos futuros debates sobre esta matéria.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

no pelotão da frente

Portugal entre os maiores exportadores do vírus


Ora finalmente um sector em que as nossas exportações dominam! Perante esta realidade e perante a evolução da epidemia no nosso próprio país, como é que é possível estar contra (ou hesitar, ou ter dúvidas) sobre a distribuição de preservativos nas escolas?

Estes números deveriam fazer empalidecer de vergonha as forças e partidos retrógados atrasaram durante décadas a introdução da educação sexual nas escolas e a distribuição de preservativos gratuitos. Daqui a muitos anos a Igreja Católica e estes movimentos ainda terão de fazer uma dolorosa reflexão sobre o seu papel no combate à difusão desta epidemia.

O atraso nas ideias de uns trouxe-nos o avanço na doença de muitos.

eles

Se um desempregado inscrito no fundo de desemprego, na semana das Festas do Senhor Santo Cristo e na anterior, não provou à Segurança Social que procurou emprego activamente, ou melhor, mesmo que o tenha feito, ou mesmo que tenha arranjado um gareto na instalação das luzes no Campo de S. Francisco, deixou de se apresentar na Segurança Social e de comprovar perante ela que continua desempregado, cessa de contar oficialmente para o número de desempregados, e a estatística de imediato dá conta disso mesmo, afirmando que o número de desempregados diminuiu (só este ano, além do número crescente dos apresentados, já há mais de 115 000 desempregados “desaparecidos” em todo o país...)

São assim as contas do nosso desemprego oficial. Mas as contas do nosso desempregado que começa a desesperar de procurar e por isso desiste de correr à procura do nada durante uns tempos, ou que, depois de muito procurar, apenas consegue garetos momentâneos aqui ou ali, são outras…bem diferentes dos números oficiais.

Somemos a estes os que têm trabalho precário ou a tempo parcial, os que vão à pesca, os que se vêem obrigados a vender a lavoura por tuta e meia, os que fecham a loja porque de um dia para o outro lhes nasceu um casino e um novo centro comercial ao lado, ou os que, concluída a obra, não sabem quando é que a firma para quem trabalham contratará uma nova (ou sequer se continuará a existir), e digam-me lá se convencem algum Deles a votar nas eleições para o Parlamento Europeu do próximo mês?

E por mais que as actuais orientações de política económica e social da União Europeia sejam, embora imperceptivelmente, as responsáveis pelo estado de degradação a que se chegou nessas áreas, qual Deles tem tempo, fé ou disposição para acreditar que vale a pena votar neste ou naquele partido para o Parlamento Europeu, estrutura esta que, além do mais, pouco se tem afirmado perante as pessoas (e na realidade) como agente efectivo na (re)orientação útil de políticas comunitárias?

Lá por ser um centralista (como os há também no PSD) que foi inscrito no Partido Comunista, o Dr. Mota Amaral escusava de ter mencionado preconceituosamente esta ex-condição partidária de Vital Moreira, pois no país, como o Sr. Dr. muito bem sabe, há muitos bons comunistas, como por exemplo Ilda Figueiredo, que não são centralistas. Mas será por Eles ouvirem o Dr. Mota Amaral, recomendar que nenhum açoriano deve votar no PS do centralista Vital Moreira, que Eles decidem afinal ir todos a correr votar no PSD?

Será por ouvirem dizer, como fez o 1º candidato do BE em visita à Região, que é necessário acabar com as vacas, que Eles vão mudar de opinião e tomar a iniciativa de votar BE?

Será por terem ouvido o Primeiro-Ministro a trocar tintas e renegar a consulta em referendo ao povo português sobre o Tratado de Lisboa, que Eles vão deitar para trás das costas os seus graves problemas e lembrar-se de ir votar PS?

Se a intenção de votar, da parte Deles, já não era muita, certamente que, com tais incentivos, vindos da boca e das acções de tão proeminentes responsáveis partidários, será quase nenhuma…

Dos ditos proeminentes, virão depois as lágrimas (de crocodilo) a propósito das abstenções, que Eles (os abstencionistas) apenas de relance eventualmente verão jorrar, enquanto mudam de canal televisivo…
Mário Abrantes

do optimismo eleitoral


Nunca percebi bem estes governantes que julgam ser sua missão pregar com toda a cegueira o optimismo mais serôdio e descabido. Será que julga assim instilar a tal "confiança", esse ingrediente metafísico e milagroso das nossas modernas economias?

No momento em que todos os indicadores são mais negativos do que nuca, talvez Teixeira dos Santos anseie que tenhamos finalmente batido no fundo e, de acordo com a lógica mecanicista que hoje se aprende e se ensina nas universidades, se siga a inevitável recuperação. Talvez repetindo-o frequentemente, o Ministro das Finanças tenha a esperança de eventualmente um dia acertar.

Até Outubro, vamos certamente ouvir ainda muitas vezes esta mesma profecia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

a coisa complica-se

Empordef avança com providência cautelar

A empresa detentora dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo não se vai limitar a ficar de braços cruzados em relação à devolução dos 32 milhões de Euros já pagos pelo Atlântida.

Apesar das declarações optimistas do Secretário Regional da Economia no parlamento, este é um cenário que se esperava. A isto seguir-se-à, provavelmente, um longo e atribulado processo judicial de resultado incerto.

Não sei bem, como o resto dos açorianos também não sabe, de quem são as maiores responsabilidades, se de quem não construiu o que estava no projecto, se de quem fez um projecto inexequível, se de quem devia ter acompanhado e fiscalizado a obra e não o fez. E este é o esclarecimento que continua a faltar...

os Açores no centro do mundo

No dia 17 de Maio de 1919, o Capitão Albert C. Read e a sua tripulação de cinco homens a bordo do Curtiss NC-4, aterravam na cidade da Horta, naquela que viria a ser a primeira travessia aérea do Atlântico Norte.

Abriam assim caminho para o estabelecimento de rotas aéreas regulares que faziam escala obrigatória no nosso arquipélago. A bordo destes aviões chegaram e partiram pessoas, ideias, desenvolvimento, cultura e uma parte incontornável da nossa história.

o fim dos bairros sociais


Finalmente os nossos governantes começam a perceber que empilhar centenas ou milhares de pessoas com problemas sociais graves e baixos rendimentos em blocos de apartamentos, tantas vezes de baixa qualidade, normalmente isolados das cidades, é uma receita para o desastre. Partilho da opinião expressa na lúcida 1ª coluna do Diário Insular.

Se os fundos utilizados na construção de habitação social nova passarem a servir para adquirir e reabilitar imóveis degradados no centro das nossas cidades e vilas, poderemos estar perante uma mudança importante.

Uma mudança do ponto de vista urbano, mas também social, mais do que tudo importa acabar com a criação de guetos e permitir a diversidade social, a diversidade de estratos sociais, no centro das cidades. Ganha a reabilitação e protecção do património construído, ganham os pequenos comerciantes, ganha a segurança urbana.

Mas o realojamento em meio urbano é sempre um processo complexo, por causa da disponibilidade dos fogos, tipologias adequadas, etc. Esperemos que este anúncio não vá apenas no sentido de distribuir cheques-habitação, demitindo-se o Governo Regional de garantir directamente a reabilitação das habitações necessárias. Seria a maneira rápida de estragar uma boa ideia...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

actual

Poema de José Gomes Ferreira - Música de Fernando Lopes Graça

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Há poemas e músicas que o tempo não esgota

assim já é democrático

Depois das críticas às faltas de transparência, seriedade e democracia no referendo irlandês que ditou a morte do Tratado de Lisboa, Luís Amado considera que agora, sim, o referendo em que os irlandeses serão mais uma vez convidados a aprovarem o tratado, será correcto e democrático, pois as sondagens dão vantagem ao sim.

Se as coisas não correrem bem e os irlandeses votarem errado, quantos vezes mais irão referendar o tratado? E, já agora, será que o PS voltará a prometer um referendo aos portugueses? Não acredito. Como diz Vital Moreira, tratam-se de matérias muito complicadas e o nosso povo, ignorante como sempre, ainda fazia asneira e rejeitava o belo desígnio europeu de Sócrates-Barroso.

Ainda vamos ver Luís Amado e José Sócrates, de mãos dadas em torno duma mesa de pé-de-galo a tentar ressuscitar o defunto Tratado de Lisboa!

nós europeus


Estamos definitivamente no pelotão da frente dos países que mais sofrem com a crise económica. Somos mesmo europeus!

Cai, com estrondo, o mito sempre propagandeado de que a integração europeia protegeria a nossa economia.

Torna-se incontestável, também a dimensão do erro que foi tentar orientar a nossa capacidade produtiva apenas para as exportações, em vez de se ter dinamizado a procura interna e lançado as bases de um sólido mercado interno.

Será que ainda vamos a tempo de mudar de rumo?

polemiko


Um projecto polémico, a todos os níveis, mas que pretende estudar, compreender, traçar rumos possíveis para a evolução da língua portuguesa, com a generalização deste tipo de linguagem estenografada das mensagens SMS. Não consegui evitar uma primeira reacção de algum choque perante a ousadia de "esseémizar" um dos grandes nomes da nossa literatura.

Desconfio sempre um pouco destas teoria que pretendem influenciar ou prever a evolução das línguas. Estas são organismos vivos e devem evoluir, com liberdade, claro. As recentes introduções de palavras de origem africana e brasileira são prova da vivacidade do português. As novas tecnologias certamente também terão contributos importantes para a evolução da nossa língua.

Mas lamentarei sempre todas as evoluções que nos façam perder partes importantes do nosso riquíssimo vocabulário, ou que tendam a uniformizar em demasia os estilos locais da utilização da língua.

Este é mais um campo onde a diversidade será sempre sinónimo de riqueza. Podemos orgulhar-nos do nosso português. Claramente uma das línguas do futuro.

sábado, 16 de maio de 2009

anedota

Afinal - e para grande e indisfarçável desgosto dos sectores da esquerda que obsessivamente ansiavam pela aproximação aos sectores mais "à esquerda" do PS - Manuel Alegre não sai do PS nem vai formar um novo partido.

Assume que há divergências e não vai integrar as listas para a AR (a reforma por inteiro como deputado já tem), mas fica-se pelo mero verbalismo crítico, pela crítica sem consequência. Alegre não passa dum ligeiro sorriso eleitoral no canto da boca de José Sócrates. Alegre é inofensivo. A sua atitude até cheira a medo de um mau resultado eleitoral!

Para uma determinada geração de jovens de esquerda é uma decepção. Para as gerações mais antigas, que conhecem Alegre há muito tempo, não é nenhuma surpresa.

pôr o mar a render

foto de Ricardo Alfredo Santos - www.olhares.com

Ernâni Lopes coordenou um estudo da empresa SAER sobre linhas de desenvolvimento estratégico para a economia portuguesa e propõe a criação de um Hypercluster do Mar, que pode ter potencial para vir a representar mais de 12% do nosso PIB.

Transportes, construção naval, pescas e mesmo exploração mineira poderão ser os sectores em que reside a chave do nosso desenvolvimento. A crise pode, apesar de tudo, ser uma boa oportunidade para abandonar a opção errada da orientação de Portugal como um paíse de serviços, para passarmos a ser muito mais um país de recursos.

Um estudo para se analisar atentamente. Parabéns ao Expresso pela sua disponibilização integral on-line.

democracia digital

Sem querer discutir quais foram os reais impactos da pressão exercida pelos blogues na discussão da questão da sorte de varas, penso que se lançou uma discussão muito interessante nalguma blogosfera açoriana sobre os papel dos blogues na participação democrática.

(alguns exemplos: no Açores SA, no Máquina de Lavar, no In Concreto ou no Fiat Lux)

É uma discussão que não é nova, que é realizada em muitos sítios e países, mas acho especialmente interessante que nos Açores a façamos não por importação, mas baseando-nos na nossa própria experiência de participação, que teve, pelo menos dois momentos altos nas mobilizações sobre a Fajã do Calhau e sobre a Sorte de Varas.

A discussão política na blogosfera tem vários pontos muito positivos. Como já por aí escrevi numa caixa de comentários, o facto de não conhecermos o autor, nem o seu contexto, em muitos casos, obriga-nos a pensar apenas nas ideias que defende, sem que os preconceitos que possamos ter sobre os seus posicionamentos e opções nos condicione. Como tal, pode corresponder a uma dose maior de racionalidade e, eventualmente, respeito mútuo.

Por outro lado, tende a nivelar os participantes. Aqui, somos de facto todos iguais. Não há autoridades reconhecidas, nem doutores, nem engenheiros e, uma vez mais, valemos apenas pela força das nossas opiniões. Por outro lado, ao divulgarmos a nossa opinião estamos a expor-nos à crítica, a abrir-nos ao debate.

Mas a questão central é a de recolocar a opinião individual do cidadão no centro do debate político. Porque, por trás do acto de criar ou frequentar um blog está o reconhecimento implícito de que todos têm direito a ter uma opinião e todas as opiniões são igualmente válidas. Há uma valorização da nossa própria opinião, que pensamos que merece ser ouvida. Isto é algo a que os partidos políticos, pela sua natureza colectiva e pela sua estrutura hierárquica têm dificuldade de se adaptar, mas que não podem definitivamente ignorar.

Agora, um dos grandes problemas, que provavelmente contradiz tudo o que atrás escrevi, é que a maior parte das pessoas não participa neste medium. A verdade é que os bloggers são apenas uma pequena parte da sociedade. E não podemos confundir a sua opinião com a opinião pública, no sentido clássico do termo.

E esta tem de ser a prioridade: pôr mais gente a aceder, pôr mais gente a participar. Para que a nova democracia digital de que estamos, objectivamente, a construir nunca se transforme numa oligarquia digital.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

bem pior do que se esperava

Ao contrário dos que diziam que a nossa "pequenez" económica nos protegeria dos vendavais económicos que assolam os países europeus, as novas previsões do próprio Governo assumem a esmagadora dimensão númérica da crise que atravessamos.

Os impactos sociais destes números já são claros para todos os que não se limitam a ver os telejornais das televisões oficiosas do Governo (a RTP, mas sobretudo a SIC) os encerramentos diários de empresas, as multidões nos centros de emprego, o abandono das actividades, a emigração.

Paradoxalmente, ou talvez não, os lucros da nossa banca continuam em alta. 533 milhões de euros no primeiro trimestre, qualquer coisa como 6 milhões de euros por dia. Sendo uma redução em relação a anos anteriores, pode-se dizer que não estão nada mal. Neste caso, ao contrário do título deste post, foram bem melhores do que se esperava!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

últimas varas



Quero terminar aqui esta série de posts sobre a sorte de varas com esta bela foto que mostra o touro, esse esplêndido e belo animal, no seu lugar próprio, no seu habitat, longe de faenas e crueldades, integrando harmonicamente o eco-sistema das nossa ilhas.

A minha primeira reflexão é numa nota positiva: a Autonomia cresceu, amadureceu, consolidou-se. Numa questão importante, que motivou paixões diversas não tivémos um resultado pre-definido por maiorias e lideranças. Podia ter havida mais, mas houve algum debate, a sociedade civil movimentou-se, tomou partido, organizou-se e manifestou-se. Isto é Democracia, e os Açores nalguns aspectos, não pede meças a ninguém.

Numa nota menos positiva, a existência de eventuais pressões menos claras e um peso grande da negociação de corredor, demonstram ainda tiques antigos no nosso parlamento. Por outro lado o resultado da votação demonstra que ainda há um longo debate para se fazer no seio da sociedade açoriana sobre os direitos dos animais. Esta é, se conheço alguma, uma questão fracturante e sobre a qual há uma divisão real de opiniões nos Açores. E esta divisão não me convida a efusividades insensatas.