sexta-feira, 29 de maio de 2009

Paz


Pese embora, por vezes, a política a mais, nas operações internacionais, o corpo de capacetes azuis, civis, policiais e militares, ainda representa a única esperança para muitas vítimas de conflitos em todos os continentes.

Desenvolvem não só programas de monitorização de cessar-fogos, actos eleitorais, operações de acantonamento e desarmamento, como também programas de desenvolvimento local, ajuda humanitária, formação, criação de infraestruturas, etc.

No ano de 2008, 132 homens e mulheres deram a sua vida
por este objectivo. Não temos o direito de os esquecer.

A arrogância das superpotências tem demasiadas vezes, ignorado, obliterado ou posto de parte a ONU, optando, como por exemplo no Iraque ou no Afeganistão, pela intervenção unilateral. Deixam, assim, por resolver problemas como a Somália, o Darfur, ou mesmo o esquecido Sahara Ocidental.

Mas, como a experiência destes últimos 50 anos prova à saciedade, só no âmbito de uma instância internacional como a ONU, através do diálogo e no respeito pelas regras do direito internacional é que é possível construir a paz entre as nações do mundo. Um obrigado aos homens e mulheres que andam por aí a construí-la.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

mar nosso


Na batalha pela gestão dos nossos mares, ao contrário de outras forças e vozes que derrotadas à partida, até porque aprovam o Tratado de Lisboa, e que vão prometendo tudo o que sabem que não irão cumprir, a CDU avança com a proposta arrojada de exigir o alargamento da nossa zona exclusiva.

Só partindo de uma exigência elevada, poderemos conseguir compromissos e negociações vantajosas. Uma postura que marca a diferença.

salário mínimo

Não podia deixar de assinalar o 35º aniversário da publicação do Decreto-Lei 217/74 de 27 de Maio que, pela primeira vez na história criou um salário mínimo em Portugal.

Nume época de grandes avanços este foi talvez um dos maiores e mais importantes direitos criados nessa altura.

A existência de um salário mínimo, algo que hoje nos parece tão natural e óbvio, permitiu arrancar uma grande parte dos nossos trabalhadores da miséria, e dar um mínimo de dignidade ao trabalho, revalorizando-o enquanto componente essencial da construção da riqueza do país. Hoje, infelizmente, em relação ao custo de vida, os actuais 472€ valem menos do que os 3.300$00 da altura. Dá que pensar...

O facto tantas vezes ocultado: foi o Primeiro-Ministro da altura o grande impulsionador desta lei. O seu nome: Vasco Gonçalves
.

Apesar da propaganda que sempre tentou demonizar o seu Governo, acusando-o dos piores crimes, a verdade é que este, como outros avanços sociais, como a criação do subsídio de férias, são da autoria do seu Governo. E a propaganda nunca apagará os factos.

[fotografia de Henrique de Matos]

quarta-feira, 27 de maio de 2009

o 28 de Maio e os comícios

83 anos passados da chamada revolução do 28 de Maio, que através de um golpe militar, liquidou a Primeira República e instaurou a Ditadura Nacional e, depois de 1933, o Estado Novo (ou o fascismo, para os mais desprevenidos), cito a mais recente publicação sobre a matéria (de Fernando Rosas e Outros) intitulada Tribunais Políticos: “Entre 1926 e 1974, existiram e funcionaram ininterruptamente tribunais especialmente criados para julgar o que a Ditadura Militar e o Estado Novo consideraram crimes políticos e sociais ou crimes contra a segurança do Estado”. Enquanto funcionaram, estes tribunais políticos do regime julgaram (e condenaram, na maior parte dos casos) 14.041 portugueses, cujos nomes aparecem referenciados nominalmente, um a um, na mesma publicação. A esmagadora maioria destes julgamentos punitivos, hoje obviamente ilícitos à luz do direito democrático (mas de cujos prejuízos físicos, morais e até mortais causados, nunca as vítimas ou seus familiares foram convenientemente ressarcidos pela Democracia), constituíam o culminar da intervenção da polícia política e incidiam sobre o exercício de garantias fundamentais dos cidadãos, proibição de partidos, associações e sindicatos livres, censura e repressão das mais diversas formas de expressão e de manifestação.

83 anos passados, há quem, desencantado(a) com a democracia portuguesa, e tendo de facto (forçoso é reconhecê-lo) boas razões para tal, exorciza os partidos, os “políticos”, ou as eleições e, em jeito de desabafo, clama por um novo Salazar. A esses apenas me ocorre dizer, falando metaforicamente e lembrando o aniversário da instauração do fascismo, que não é pelo segundo casamento estar a correr mal que se anulam as razões do divórcio do primeiro…

83 anos passados, há quem, opte pelo alheamento activo da coisa política e procure influenciar outros no mesmo sentido, proclamando como boa a sua desvinculação (e sugerindo a dos outros) de quaisquer responsabilidades pelos destinos comuns da sociedade. A esses, e porque a sociedade pressupõe, pela sua própria natureza, um mínimo de organização, apenas direi que seriam bem mais honestos se proclamassem o que verdadeiramente lhes vai na alma, isto é: “Deixa estar no poleiro os que lá estão, que eu assim é que me vou safando…”

83 anos passados, há outra vez quem, com altas responsabilidades políticas no país e com alta cobertura mediática, estou em crer que inadvertido(a) da própria lógica intrínseca, proponha (a brincar?) a suspensão da Democracia por uns meses, ou decrete de forma perfeitamente descontraída a era do fim dos comícios (quem diz dos comícios, diz das manifestações, e doutras coisas proibidas que os Tribunais Políticos julgavam, antes de Abril de 74).

A era dos comícios acabou para esses porque simplesmente, de tanto enganarem os seus participantes nos comícios anteriores, se viram incapacitados de convencer quem quer que seja a comparecer livremente aos comícios de hoje. Para outros, só não acabou porque, estando no poder, isso possibilita compor a plateia com a participação “voluntária” de muitos daqueles que ocupam cargos nas instituições públicas ou dos que não passam sem certos favores institucionais.

Mas, não estando no poder, só junta (de forma aliás inédita em campanha eleitoral) o número incontestado de 85.000 participantes num comício de protesto e luta, quem traz alguma razão consigo e não engana os que nele participam… E estes, por sua vez, sendo cidadãos tal como os outros de que falei antes, apenas recusam quedar-se pelo abstencionismo desencantado ou pela conveniência de serem apolíticos.


Mário Abrantes

terça-feira, 26 de maio de 2009

federalismo esquerdista

Mais um brilhante artigo de Filipe Diniz no Diário.info a pôr o dedo na ferida, de que não resisto a citar um trecho:

Sempre tão diligente a deturpar posições do PCP em público quanto em decalcar as propostas do PCP em privado, o Bloco de Esquerda (BE) descobriu agora que o PCP tem um projecto de «socialismo nacionalista». É uma forma perversa de, jogando com as palavras, manifestar o seu anticomunismo e juntar-se, de forma mais ou menos dissimulada, ao pensamento único sobre os caminhos da Europa. É também uma outra maneira de caricaturar o que constitui uma diferença intransponível entre o que são as posições do PCP em relação à UE e aquilo que o BE defende.

Porque, por mais palavreado com que o BE queira envolver a questão, o BE é federalista, tal como o PS e o PSD também o são. E o que procura desviar com a caricatura do «socialismo nacionalista» é que quem no quadro desta EU for federalista não está a defender outra coisa que não seja o reforço do domínio da «internacional capitalista» sobre as suas instituições.

Há quatro anos, o BE defendia uma Constituição Europeia elaborada por um Parlamento Constituinte. Desta vez recuou na formulação, não porque desistisse dela, mas porque receia os «profundos anticorpos» que a questão gera.

O deputado Miguel Portas, tão inactivo na intervenção no PE quanto viajante infatigável, vem, no seu jornal de campanha, embrulhar o projecto federal do BE «numa articulação entre cidadania europeia, com respeito pela componente Europa das nações». No programa de candidatura do BE a coisa é formulada como «uma refundação democrática e social do projecto europeu» passando, entre outros «pactos» e «cartas», por «um novo Tratado Europeu elaborado pelo Parlamento Europeu».
Merece a pena repetir: «elaborado pelo Parlamento Europeu»!



segunda-feira, 25 de maio de 2009

mais com menos


Lamenta-se que a edição online tenha resolvido nem colocar a foto do entrevistado no artigo. Silenciamentos? Yo no creo en las bruxas...

Destaca-se a afirmação de que os deputados comunistas trabalharam mais em prol dos Açores do que os deputados açorianos do bloco central. Na edição em papel, fundamenta-se com o número de iniciativas directamente relacionadas com o nosso arquipélago, entre relatórios, pareceres e resoluções:

Ilda Figueiredo e Pedro Guerreiro: 14
Paulo Casaca e Duarte Freitas: 6 (2 pareceres, 1 resolução, 3 relatórios).

Sendo que a quantidade não será tudo, penso que fica demonstrado quais são afinal os deputados "dos Açores" ou que, sem o ser, na prática defendem os interesses da Região. Afinal, mesmo pertencendo a uma família política de menor dimensão no PE, é possível fazer mais com menos.

domingo, 24 de maio de 2009

música para a semana que começa

A bela Norah e a sua bela voz a apontar o caminho.


ouro


Um dia histórico para Portugal e para o cinema português, apenas dias depois da morte de um dos seus maiores. Cruel ironia...

Boa João!

diz o roto ao nu

Luís Paulo Alves acusa o cabeça de lista do PSD de ser um dos rostos do centralismo

É pelo menos uma declaração descuidada. O centralismo de Vital Moreira não pede meças a ninguém e é certamente muito mais exacerbado do que o de Rangel, que se limitou a um mero pedido de fiscalização de constitucionalidade, que em última instância acabou por reforçar a legitimidade do nosso Estatuto.

Em todo o caso, PS e PSD estão de acordo e ambos têm razão na análise dos respectivos cabeças de lista. Para centralista, centralista e meio!

85.000

A CDU inaugurou ontem, de maneira espectacular, uma nova forma de campanha política, nunca antes realizada em Portugal, que reuniu em Lisboa, de acordo com os números dados pela comunicação social, mais de 85.000 pessoas.

Este formato de acção de campanha permite potenciar o que a CDU sabe fazer melhor: juntar as pessoas, mobilizá-las em torno de causas. E, também do ponto de vista político, deu um sinal muito preocupante para José Sócrates. Ali estavam dezenas de milhares de pessoas dispostas a darem o passo seguinte, necessário e consequente, na demonstração de descontentamento contra a sua política: apoiar a CDU e continuar com o seu voto os protestos que têm juntado muitas centenas de milhares de pessoas de todo o país.

A CDU irá ganhar o voto de todas as pessoas que têm participado nas manifestações? Provavelmente não. Mas tem o mérito de recolocar na agenda política o poder das ruas, a soberania das multidões, que são a base da nossa democracia. Esta é que é a verdadeira sondagem.

Há mais algum partido, coligação ou coisa híbrida que consiga fazer o mesmo?

Veja também as fotos da Marcha.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

socialistas ao mar

Deputados do PS / Açores viajam em Corveta da Armada portuguesa

Para o Partido Socialista não parecem existir fronteiras entre aparelho partidário e aparelho de Estado. Nem limites para a instrumentalização do segundo ao serviço do primeiro.

Tanto se utiliza a Direcção Regional de Educação do Norte para recolher imagens de crianças para tempos de antena como se "manda parar" uma corveta da Armada Portuguesa, para transporte e animado passeio (adivinho) dos deputados socialistas no parlamento Regional.

Apesar das dúbias e titubeantes desculpas do líder parlamentar socialista sobre o facto de corveta nem se ter desviado da sua rota (era só o que faltava, mesmo!), ficam muitas perguntas e enormes perplexidades: quem é que contactou o comandante da embarcação? A que título? As chefias militares tiveram conhecimento do passeio? A viagem terá sido gratuita? Se sim, está então a via aberta para todos os deputados de todos os partidos utilizarem para os seus fins pessoais o equipamento das forças armadas? Se não, então a nossa Armada dedica-se agora também ao transporte de passageiros?

Muitas dúvidas, mas algumas certezas. Da parte da Armada: não duvido que o comandante da embarcação vá incorrer no respectivo processo disciplinar por andar a usar os nossos navios para "dar boleias".

Da parte do PS: tratou-se de mais um episódio vergonhoso de instrumentalização do aparelho de Estado, demonstrativo da forma antidemocrática como vêm o "seu" poder.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

organicamente portugueses

(foto de Leonardo Braga Pinheiro - www.olhares.com)

A propósito do debate sobre o movimento independentista nos Açores, e sem querer entrar na discussão das suas peripécias e vicissitudes - discussão para a qual não me sinto minimamente habilitado e sobre a qual, tal como acontece com as gerações de açorianos mais jovens, quase nada sei - quero partilhar algumas reflexões.

Parece iniludível que o eventual apoio internacional à independência açoriana, nos idos de 75, foi sempre muito maior do que o seu verdadeiro apoio popular, que não só foi sempre inconstante e dividido, como volátil.

E penso que a razão disso reside no facto de, no mais profundo do nosso inconsciente colectivo, nós açorianos sermos organicamente portugueses. No facto de não se entender a portugalidade sem a açorianidade. O difícil processo de adaptação e sobrevivência nas duríssimas condições das nossas ilhas trouxeram ao de cima muito do melhor - mas provavelmente também do pior - das características distintivas dos portugueses.

Entre essas características avultam a adaptabilidade e o sentido imediato da sobrevivência. Depressa a necessidade da subsistência ensinou o agricultor a ir ao mar, o pescador a plantar a sua horta, a passar do pastel, ao trigo, à laranja, ao leite, à carne, à baleia, ao atum, ao goraz. Com a sua adaptabilidade os portugueses, e os açorianos, demonstraram sempre ser trabalhadores incansáveis, e como tal reconhecidos, do calor tropical da América do Sul aos frios polares do Canadá.

Nestas e noutras viagens, - destino de romeiros - e também nas viagens dos que visitaram e visitam o nosso arquipélago-no-centro-do-mundo ganhámos a vocação do universalismo, a vontade de receber o estrangeiro, de o acolher como um igual, de encontrar na diferença o regozijo da fraternidade de todos os homens. Sabedoria espontânea, quase inata, das nossas gentes, colhida nos ensinamentos do pescador da Galileia a quem chamamos nas nossas festas Santo Cristo, mas confirmada na comunhão de perigos e trabalhos, essencial à sobrevivência no duro vento das ilhas isoladas, sob este céu sempre belo e sempre inclemente. A vontade e o trabalho da comunidade que, enfrentando unida os piores cataclismos que a natureza criou, encontra a abundância, ainda que simbólica num mesa do Espírito Santo.

Provavelmente muito do melhor da natureza do povo português foi sublimado na dureza vulcânica da rocha açoriana.

E, a verdade, é que a palavra Pátria vai muito mais ao emocional do que ao racional e ao político. Portanto, deixo para outra ocasião o balanço materialista de ganhos e perdas num processo de independência açoriana, para dizer apenas que não se pode separar o que é um. Conservamos nos Açores parcelas estruturais da portugalidade. Não se pode entender o Povo Açoriano sem o que tem de genuinamente português.

E vice-versa...

desemprego para lá da crise

É já uma infeliz banalidade a lamentação sobre o crescimento dos números do desemprego, nomeadamente sobre os que acabam de ser publicado na estatística mensal do IEFP.

Deles, no entanto, destaco um número que, creio, merece reflexão: O facto de 39,7% dos desempregados alegaram que perderam o emprego por "fim de trabalho não permanente". Na prática, não renovação de contratos a prazo.

O que também significa que estes postos de trabalho continuam lá, só que agora ocupados por um novo trabalhador precário. E essa é a questão. Não desvalorizando a intensa destruição de postos de trabalho causados pela crise, uma parte significativa destes números têm a ver com a generalização (que se aproxima da absolutização) do trabalho precário. E essa, não começou em Setembro de 2008!

As empresas sabem assim que podem contar com uma multidão de trabalhadores desempregados, muitos deles altamente qualificados, que vão fazendo passagens breves e sucessivas pelo mercado de trabalho (veja-se também a percentagem de desempregados de curta duração). Isto permite-lhes, na prática, pagar sem preocupações os salários mais baixos possíveis e retirar quaisquer direitos laborais ou capacidade de reivindicação a estas pessoas.

É nesta camada pobre, sem perspectivas, poupanças, direitos ou influência social que estão a cair cada vez mais portugueses. É melhor começarmos a pensar na sociedade que estamos a criar, para lá do nevoeiro informacional da crise.

escravos da humanidade

"É usual esgrimir-se que só pode ser “do contra”quem não percebe a mística da Sorte de Varas e de todo o cerimonial envolvido. Como se para avaliar o bem do mal ou o mau do bom, fosse necessário ter certificado. Este solipsismo que exorta a ignorância alheia, refugiando-se na fidelidade a uma expressão performativa, artística, esquece que a fidelidade ao absurdo representa apenas outro absurdo. Admita-se que o acto de picar, de sangrar ferozmente o touro numa praça, possa ter uma sustentação artística, do mesmo modo que uma instalação plástica que expõe um cão faminto aos visitantes, com um aviso para o não alimentar. Em qualquer caso não estamos perante sofrimento retratado ou simulado, mas tormento vivo, vivido e a três dimensões, no momento em que o homem tira “férias em sê-lo” para em acto contínuo recostar-se no sofá, condenar a violência no mundo e clamar contra imoralidade dos jovens de hoje. Se uns classificam isto de arte, eu, pobre ignorante, dou dois nomes: no máximo, voyeurismo sádico; no mínimo, hipocrisia velada."
Não planeava retomar aqui o tema das touradas picadas, mas o texto de Paulo Jorge Gomes, publicado hoje no diário Insular é demasiado brilhante para ser ignorado.

Uma reflexão profunda, a recordar nos futuros debates sobre esta matéria.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

no pelotão da frente

Portugal entre os maiores exportadores do vírus


Ora finalmente um sector em que as nossas exportações dominam! Perante esta realidade e perante a evolução da epidemia no nosso próprio país, como é que é possível estar contra (ou hesitar, ou ter dúvidas) sobre a distribuição de preservativos nas escolas?

Estes números deveriam fazer empalidecer de vergonha as forças e partidos retrógados atrasaram durante décadas a introdução da educação sexual nas escolas e a distribuição de preservativos gratuitos. Daqui a muitos anos a Igreja Católica e estes movimentos ainda terão de fazer uma dolorosa reflexão sobre o seu papel no combate à difusão desta epidemia.

O atraso nas ideias de uns trouxe-nos o avanço na doença de muitos.

eles

Se um desempregado inscrito no fundo de desemprego, na semana das Festas do Senhor Santo Cristo e na anterior, não provou à Segurança Social que procurou emprego activamente, ou melhor, mesmo que o tenha feito, ou mesmo que tenha arranjado um gareto na instalação das luzes no Campo de S. Francisco, deixou de se apresentar na Segurança Social e de comprovar perante ela que continua desempregado, cessa de contar oficialmente para o número de desempregados, e a estatística de imediato dá conta disso mesmo, afirmando que o número de desempregados diminuiu (só este ano, além do número crescente dos apresentados, já há mais de 115 000 desempregados “desaparecidos” em todo o país...)

São assim as contas do nosso desemprego oficial. Mas as contas do nosso desempregado que começa a desesperar de procurar e por isso desiste de correr à procura do nada durante uns tempos, ou que, depois de muito procurar, apenas consegue garetos momentâneos aqui ou ali, são outras…bem diferentes dos números oficiais.

Somemos a estes os que têm trabalho precário ou a tempo parcial, os que vão à pesca, os que se vêem obrigados a vender a lavoura por tuta e meia, os que fecham a loja porque de um dia para o outro lhes nasceu um casino e um novo centro comercial ao lado, ou os que, concluída a obra, não sabem quando é que a firma para quem trabalham contratará uma nova (ou sequer se continuará a existir), e digam-me lá se convencem algum Deles a votar nas eleições para o Parlamento Europeu do próximo mês?

E por mais que as actuais orientações de política económica e social da União Europeia sejam, embora imperceptivelmente, as responsáveis pelo estado de degradação a que se chegou nessas áreas, qual Deles tem tempo, fé ou disposição para acreditar que vale a pena votar neste ou naquele partido para o Parlamento Europeu, estrutura esta que, além do mais, pouco se tem afirmado perante as pessoas (e na realidade) como agente efectivo na (re)orientação útil de políticas comunitárias?

Lá por ser um centralista (como os há também no PSD) que foi inscrito no Partido Comunista, o Dr. Mota Amaral escusava de ter mencionado preconceituosamente esta ex-condição partidária de Vital Moreira, pois no país, como o Sr. Dr. muito bem sabe, há muitos bons comunistas, como por exemplo Ilda Figueiredo, que não são centralistas. Mas será por Eles ouvirem o Dr. Mota Amaral, recomendar que nenhum açoriano deve votar no PS do centralista Vital Moreira, que Eles decidem afinal ir todos a correr votar no PSD?

Será por ouvirem dizer, como fez o 1º candidato do BE em visita à Região, que é necessário acabar com as vacas, que Eles vão mudar de opinião e tomar a iniciativa de votar BE?

Será por terem ouvido o Primeiro-Ministro a trocar tintas e renegar a consulta em referendo ao povo português sobre o Tratado de Lisboa, que Eles vão deitar para trás das costas os seus graves problemas e lembrar-se de ir votar PS?

Se a intenção de votar, da parte Deles, já não era muita, certamente que, com tais incentivos, vindos da boca e das acções de tão proeminentes responsáveis partidários, será quase nenhuma…

Dos ditos proeminentes, virão depois as lágrimas (de crocodilo) a propósito das abstenções, que Eles (os abstencionistas) apenas de relance eventualmente verão jorrar, enquanto mudam de canal televisivo…
Mário Abrantes

do optimismo eleitoral


Nunca percebi bem estes governantes que julgam ser sua missão pregar com toda a cegueira o optimismo mais serôdio e descabido. Será que julga assim instilar a tal "confiança", esse ingrediente metafísico e milagroso das nossas modernas economias?

No momento em que todos os indicadores são mais negativos do que nuca, talvez Teixeira dos Santos anseie que tenhamos finalmente batido no fundo e, de acordo com a lógica mecanicista que hoje se aprende e se ensina nas universidades, se siga a inevitável recuperação. Talvez repetindo-o frequentemente, o Ministro das Finanças tenha a esperança de eventualmente um dia acertar.

Até Outubro, vamos certamente ouvir ainda muitas vezes esta mesma profecia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

a coisa complica-se

Empordef avança com providência cautelar

A empresa detentora dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo não se vai limitar a ficar de braços cruzados em relação à devolução dos 32 milhões de Euros já pagos pelo Atlântida.

Apesar das declarações optimistas do Secretário Regional da Economia no parlamento, este é um cenário que se esperava. A isto seguir-se-à, provavelmente, um longo e atribulado processo judicial de resultado incerto.

Não sei bem, como o resto dos açorianos também não sabe, de quem são as maiores responsabilidades, se de quem não construiu o que estava no projecto, se de quem fez um projecto inexequível, se de quem devia ter acompanhado e fiscalizado a obra e não o fez. E este é o esclarecimento que continua a faltar...

os Açores no centro do mundo

No dia 17 de Maio de 1919, o Capitão Albert C. Read e a sua tripulação de cinco homens a bordo do Curtiss NC-4, aterravam na cidade da Horta, naquela que viria a ser a primeira travessia aérea do Atlântico Norte.

Abriam assim caminho para o estabelecimento de rotas aéreas regulares que faziam escala obrigatória no nosso arquipélago. A bordo destes aviões chegaram e partiram pessoas, ideias, desenvolvimento, cultura e uma parte incontornável da nossa história.

o fim dos bairros sociais


Finalmente os nossos governantes começam a perceber que empilhar centenas ou milhares de pessoas com problemas sociais graves e baixos rendimentos em blocos de apartamentos, tantas vezes de baixa qualidade, normalmente isolados das cidades, é uma receita para o desastre. Partilho da opinião expressa na lúcida 1ª coluna do Diário Insular.

Se os fundos utilizados na construção de habitação social nova passarem a servir para adquirir e reabilitar imóveis degradados no centro das nossas cidades e vilas, poderemos estar perante uma mudança importante.

Uma mudança do ponto de vista urbano, mas também social, mais do que tudo importa acabar com a criação de guetos e permitir a diversidade social, a diversidade de estratos sociais, no centro das cidades. Ganha a reabilitação e protecção do património construído, ganham os pequenos comerciantes, ganha a segurança urbana.

Mas o realojamento em meio urbano é sempre um processo complexo, por causa da disponibilidade dos fogos, tipologias adequadas, etc. Esperemos que este anúncio não vá apenas no sentido de distribuir cheques-habitação, demitindo-se o Governo Regional de garantir directamente a reabilitação das habitações necessárias. Seria a maneira rápida de estragar uma boa ideia...