quarta-feira, 8 de julho de 2009

as 2 gripes

Da honrosa passagem pelos Açores, em busca de raízes de 3ª geração, ficou-nos apenas isso: a honra do Nobel de Medicina ter sido recebido, conjuntamente por um governante que durante todos os seus mandatos sempre se fez acompanhar pela gripe comum, Carlos César, e por um ex-governante, Mota Amaral, desta feita herdeiro da antiga “gripe espanhola”, agora reaparecida numa versão moderada A(H1N1), e a pretender re-alastrar dentro do habitual quadro de convivência estabelecida e tolerante, que sempre soubemos manter com as maleitas da época.

Curioso foi apercebermo-nos, mesmo estando à partida pouco atentos, da visita propriamente dita de Craig de Mello e das honrarias que a rodearam, mas, paradoxalmente e face ao interesse estimulante provocado pelos ininterruptos alarmes da comunicação social sobre os perigos da A(H1N1), termos ficado por nos aperceber devidamente da opinião desse homem (julgo que qualificada) sobre o carácter desta nova versão da “gripe espanhola”.

Pondo um pouco de água na fervura dos nossos conselheiros mediáticos de circunstância, disse ele, em termos de consequências para os infectados, que a versão A(H1N1) tem grandes semelhanças sintomáticas e de tratamento com a gripe comum, sendo tão mortífera quanto esta! Nem mais nem menos…Ah! Um pormenor: enquanto isso, a Ministra da Saúde anunciava que já tinha encomendado vacinas contra a A(H1N1) para 30 % da população portuguesa. Está percebido porque já ninguém conseguiu ouvir a sensaborona opinião de Craig de Mello…

E eis pois a inevitável extensão do problema, também a Ponta Delgada. Por um lado uma estirpe reaparecida e aparentemente imparável que se propõe re-infectar em Outubro o Concelho, mas que, por pretender alastrar de seguida para toda a Região, já se sabe, amputará por sua própria iniciativa uma parte do mandato pelo qual, entretanto, se responsabilizou perante os seus eleitores. E, por outro, um paciente comum cujo advogado, caracterizando-o em tribunal, invocou como argumento o facto desse seu paciente ter sofrido danos irreparáveis, com mazelas físicas e psicológicas, e chegado ao seu fim político, por causa de uma noticia publicada num jornal. Duas maleitas que, ora uma ora outra, por mais que se pretenda diferenciá-las entre si, nos estão consumindo com os mesmos sintomas e os mesmos tratamentos há várias décadas, nas várias versões com que se nos apresentam.

E por isso, além da desmesurada percentagem de população inactiva, temos mais de metade da população activa com a doença da escolaridade até ao sexto ano; temos hospitais empresariais nados-mortos com prejuízos de 83 milhões; novos barcos e novas estações de tratamento, deficientes; próteses de betão e loteamentos desfigurados a invadirem o esqueleto urbano; faixas de alcatrão a mumificarem toda uma ilha.

Não é fácil erradicar as gripes, mas é possível combatê-las e diminuir-lhes os efeitos, com preserverança e sem alarmismos, sobretudo quando já as conhecemos…ou à medida que as vamos conhecendo. Mas, salvo raras excepções devidamente sustentadas, nunca o tratamento de uma se fará pela disseminação da outra.

E se a A(H1 N1) aparece hoje a pretender sobrepor-se à gripe comum, e amanhã vice-versa, ouçamos a sensaborona, mas oportuna e abalizada, opinião de Craig de Mello e tratemos as duas como maleitas que possuem entre si mais semelhanças que diferenças, sendo importante sobretudo reduzir-lhes a incidência, quer se trate de uma ou da outra…

Mário Abrantes

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Honduras


Os factos que sucedem nas Honduras são sobejamente conhecidos e não pretendo discuti-los. Apenas assinalar que o dia de ontem nos mostrou duas coisas: O poder imparável de um povo que se põe em marcha e a verdadeira face violenta e cobarde dos ditadores e golpistas, mesmo quando invocam a defesa da normalidade institucional.

Perante imagens como esta, de uma criança de 10 anos morta por soldados com um tiro na cabeça não há mais espaço para discutir. Toda a argumentação jurídica cai por terra como um oco cenário de papel. Perante isto, a neutralidade é impossível.

Por isso, a minha solidariedade com o Povo Hondurenho.

domingo, 5 de julho de 2009

americanos



Ainda a propósito do 4 de Julho, partilho mais um brilhante documentário da Aljazeera sobre os muçulmanos nos EUA.

Rageh Omaar vai muito para lá dos previsíveis sintomas de discriminação e intolerância e descobre gentes e lugares para quem as cores do Islão são também o branco, azul e vermelho. Porque no sonho americano cabem (deviam caber) todos.

A não perder os restantes episódios.

sábado, 4 de julho de 2009

no centralizar é que está o ganho

Este investimento é o mais recente exemplo da política, que só posso considerar como centralista, e que visa concentrar em São Miguel, investimentos, infra-estruturas e potencialidades, em detrimento da visão estratégica de arquipélago. É porque afinal os Açores são nove ilhas. Não são uma ilha grande com mais oito bocados de rocha, habitados por uns poucos nativos casmurros, à volta!

E este centralismo mostra-se quando analisamos a escassez de argumentos para justificar a prioridade do investimento no aeroporto João Paulo II. Torna-se brutalmente claro quando associamos esta notícia à recente decisão da SATA de concentrar aí sua frota, decisão que já mostrou ter custos e consequências operacionais muito sérias. O caso revela-se, então, verdadeiramente sinistro quando vemos que o consórcio ganhador da obra envolve a Mota-Engil, poleiro dourado de Jorge Coelho e de outros ex-dirigentes socialistas.

Mas essencialmente triste é a incapacidade que os gestores que tomam estas decisões demonstram em perceber o enorme potencial que os Açores poderiam ter se dispusessem, também nas outras ilhas, de infra-estruturas aeroportuárias modernas e competitivas. Até porque o turismo açoriano não tem apenas São Miguel para oferecer.

Há quem não pense assim. O centralismo tem muitas formas.

a cidade da Horta em duas rodas

Foi há poucos dias inaugurado na cidade da Horta o quiosque Horta Bike, que disponibiliza a utilização gratuita de bicicletas no centro da cidade. Resultando de uma parceria entre a CMH e o Turismo dos açores, não posso deixar de dar um merecido aplauso ao principal impulsionador do projecto, o vereador do ambiente, José Decq Mota.

A Horta torna-se assim na primeira cidade dos Açores a dispor de um serviço deste género. Para além dos naturais impactos positivos sobre o turismo, também contribuirá decisivamente para a redução do número de automóveis, permitindo o usufruto saudável do centro urbano.

Uma boa ideia que devia ser utilizada em mais municípios!

assinalando o 4 de Julho



E, para os que permanentemente me acusam de anti-americanismo, uma referência à que foi a primeira grande revolução democrática ocidental, percursora da revolução francesa.

em defesa do ministro

Narciso passava o tempo, segundo a Mitologia, adorando a sua imagem reflectida nas águas serenas de um lago.

O Ministro passou o tempo adorando a sua imagem na serenidade pardacenta e inócua de um Parlamento tornado inócuo e pardacento pela arrogância de uma maioria absoluta. E acabou por se rever nessa inocuidade pardacenta. E tornou pública a imagem devolvida.

Poderia ter composto a imagem com os dedos para baixo (acabando, em termos tauromáquicos) ou com os dedos a direito, como um belo exemplar da Lezíria Ribatejana.


Mas, não! Se estas duas situações vão buscar a sua origem genética, nomeadamente, à raça Miura, o ministro, “PATRIOTICAMENTE”, ergueu os dedos evocando (não há erro, não senhor, não é “invocando”), evocando, dizia eu, a geneticidade charoleza e/ou barrosã erguendo bem para cima as defesas típicas dessas raças (com maior ou menor comprimento é indiferente).

E, tal como um qualquer Miura, com casta, nobreza e bravura, ofereceu-se à “estocada final” da demissão.


O “matador” ainda esperou que o “público” acenasse com lenços e gritasse “INDULTO”, tal como na Monumental de Madrid, na 1 corrida de “EI Cordobés” nos anos 50/60, após uma “faena” magistral frente a um bravíssimo Miura. Mas o público ficou silencioso... e o resultado foi o que se sabe.

PARA DEFESA DO MINISTRO, resta o acto patriótico de querer impersonar algo verdadeiramente Nacional e não se ter rendido a outra casta ibérica.Em termos tauromáquicos: “Vaya por ti Ministro” e a minha “montera” ficou de boca para baixo no centro da arena!


José B. R.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

esta é a ditosa Pátria minha amada

Maria João Pires renuncia à nacionalidade portuguesa

E assim vai morrendo Portugal, às mãos merceeiras dos gestores modernaços que não conseguem perceber o valor reprodutivo do investimento na cultura.

Que o Brasil saiba acolher o seu talento melhor do que por cá!

(dica do Pisca de Gente)

ainda a imagem

Fui um dos muitos bloggers a utilizar esta imagem sem dar o devido crédito ao seu autor.

Penitencio-me agora, dando o merecido aplauso a Nuno Ferreira Santos que, como bem lembrou o brilhante Arte Photographica, conseguiu captar a essência de um dos momentos mais marcantes desta legislatura, o que lhe valeu ver a sua foto reproduzida no El Pais e no El Mundo. Infelizmente para nossa maior vergonha, mas em justo reconhecimento do seu "sentido do momento".

E é uma fotografia que coloca questões interessantes sobre o próprio fotojornalismo. Se não tivesse sido captada e reproduzida publicamente, será que o Ministro se teria demitido à mesma?

Só o facto de esta questão se colocar revela bem todo o poder desta imagem .

preparar a derrota

Em mais um artigo de opinião no Açoriano Oriental, Cláudia Cardoso começa a demonstrar a estratégia que o PS adoptará após a sua (inevitável?) derrota nas próximas legislativas.

E a estratégia é simples: culpar José Sócrates.

O problema, diz a deputada socialista, "é do seu estilo", que reputa de "arrogante" e dizendo que o seu acto de contrição, em entrevista à SIC foi "rídiculo", "artificial" e "tardio". Tal como no caso de Vital Moreira nas europeias, o PS já tem um bode expiatório para a sua próxima derrota eleitoral. Mais claro que isto não se pode ser.

Para CC o problema está na "forma", no "embrulho" e não no conteúdo das políticas. Há, portanto, um mero "problema de comunicação" com o povo português que, coitadinho, é acomodado, comodista e pouco inteligente.

Neste artigo, demonstra-se toda a confusão da derrota anunciada, toda a incapacidade de perceber o que é que falhou. E o que falhou não foi a comunicação. Não se trata de uma questão de forma. O problema está mesmo no conteúdo das políticas. O problema está na maneira como os partidos socialistas se distanciaram das suas raizes ideológicas históricas, seduzidos pelo canto de sereia do liberalismo triunfante. Agora que o liberalismo está de joelhos, perderam tudo: a história, a identidade, a visão do futuro e a capacidade de perceber o que é que correu mal.

Influenza, o velho inimigo

Como se previa, a gripe A chegou finalmente a Portugal e também aos Açores. O que talvez não se previsse era que o seu alastramento fosse tão rápido. Passámos de zero para mais de 20 casos em poucos dias.

Confesso que estou alarmado. O Influenza e particularmente esta sua estirpe H1N1, é um dos nossos mais antigos e mortíferos inimigos. Há menos de 100 anos atrás, este mesmo vírus infectou um terço da população do planeta e matou cerca 100 milhões de pessoas, ficando conhecido como "gripe espanhola". A diferença particular em relação a outros tipos de gripe é o facto de se revelar mortal em camadas etárias intermédias, jovens adultos e outros indivíduos saudáveis. Hoje em dia viajamos muito mais do que em 1918 e o contágio é virtualmente imparável, especialmente em países e destinos de férias como são Portugal e os Açores.

Embora não tenham uma eficácia a 100% alguns anti-virais como o Tamiflu têm-se revelado adequados. Importava evitar pânicos e corridas às farmácias, mas também tomar medidas acertivas e rápidas. Porque é que estes medicamentos ainda não estão a ser distribuídos gratuitamente aos grupos etários mais vulneráveis, como são as crianças e os idosos?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

a revolta do voo 1847


festa brava (actualizado)

Sim, é o Ministro da Economia.

Sim, está no Parlamento.

Olé!

O gesto marialva de Manuel Pinho foi feito na direcção da bancada do PCP, em resposta a uma bandarilha de Bernardino Soares que lhe deve ter doído. Já sabíamos que a competência não é uma característica exigida aos ministros do actual governo. Agora ficamos a saber que um mínimo de boas maneiras também não.

O assunto já vai na imprensa internacional mas, por cá, já não choca nem surpreende. É só mais uma vergonha que o Governo de José Sócrates nos faz passar.

Enquanto escrevia este post fiquei a saber que afinal Manuel Pinho se demitiu. Ainda bem. Era o mínimo que podia fazer. Que garotice inacreditável!

promessas que queremos ouvir (e ver cumpridas!)

Através do blogue Firmeza no Rumo fiquei a conhecer o contributo que a CGTP-IN pretende dar para que nos programas eleitorais das próximas eleições legislativas, os partidos assumam compromissos concretos para mudar o rumo do país.

E não é assim tão complicado. 10 eixos para mudar Portugal:

1. Criar emprego estável e com direitos e evitar os despedimentos

2. Garantir o direito constitucional de contratação colectiva

3. Valorizar o trabalho e os direitos dos trabalhadores

4. Combater a precariedade

5. Alargar o acesso ao subsídio de desemprego para que mais desempregados possam ser
abrangidos pela prestação

6. Promover o aumento real dos salários e das pensões assim como do Salário Mínimo
Nacional de modo a alcançar 500 euros em 2011 e 600 euros em 2013

7. Reforçar a solidariedade, promover a coesão social e combater as desigualdades

8. Reforçar os serviços públicos e a protecção social

9. Reorientar as políticas económicas

10. Tornar o sistema fiscal mais equitativo


Daqui até Setembro, ouviremos múltiplos apelos e miríades de promessas. Todos falarão sobre os mais desfavorecidos, e sobre a sua enorme consciência social. Mas o que precisamos de ouvir é um firme compromisso com estes objectivos. Um compromisso para cumprir, objectivos para não serem esquecidos nas gavetas governamentais.

morreu um artista

Morreu um Artista, no outro lado do mundo, é verdade, mas “aqui mesmo ao lado” na aldeia global.

E isso foi motivo de parangonas nos jornais, abertura de telediários em todo o mundo, motivo de conversas entre todos os comuns mortais.

E é justo que assim tenha sido. A morte de um CRIADOR é uma perda para todos nós.

Mas… (sempre o chato do mas) ao mesmo tempo o Zé, Joseph, Joe, Yousseff, … de apelido XPTO, operário da construção civil também morreu porque caiu de um andaime, ou levou com qualquer coisa na cabeça. E o Zé-Joseph-Joe-Yousseff também era um ARTISTA.

Não vendia milhares nem recebia milhões; não era mediatizável e, muito menos, era assediado pelos “paparazzi”.

Apenas tinha fãs: a sua mulher, os seus filhos, alguma da família mais próxima e os seus amigos.

O ARTISTA DAS PARANGONAS criava (criou) com o corpo e a voz.

O ARTISTA não mediatizável criava (criou) com esse magnífico instrumento que é a mão humana. Edificou, talvez, palácios, vilas, arranha-céus e, quem sabe, a mais bonita (para ele) de todas as suas criações: o casebre miserável, a barraca onde morava com os seus “fãs” – e ele não precisava de seguranças para afastarem esses fãs – PRECISAVA DA SEGURANÇA PARA VIVER COM ELES!, no “guetto”, embora, mas dentro da obra que ele havia criado.

O Zé-Joseph-Joe-Yousseff, não precisa de uma segunda autópsia, não vai ter ninguém a degladiar-se pela custódia dos seus filhos (leia-se do seu dinheiro) e muito menos vai haver discussão para se saber se aquela última carta para a família distante, (do outro lado do mar, do outro lado da Terra, lá longe, na terra – é indiferente) é, em si mesma, um testamento ou um rascunho de testamento.

O seu velório não terá milhares, milhões, talvez, a chorarem a sua morte. Mas, o choro de alguns será um choro sentido, profundo, um choro da alma, um choro vestido de luto!

O seu funeral não terá direito a divulgação mundial mediática. Será uma cerimónia íntima. E, num magnífico paradoxo, será, egoisticamente, chorado por aqueles a QUEM FAZ FALTA e não por constituir uma pretensa PERDA PARA A HUMANIDADE.

No fundo, é a história do linguado e da sardinha: ambos postos no mesmo assador, ao mesmo tempo. No fim, um só resultado: UM LINGUADO GRELHADO e UMA SARDINHA ASSADA!!!
José B. R.

É mesmo com muito prazer que publico uma colaboração de alguém a quem devo muito mais do que a vida.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ainda menos transportes

Como se previa, a Transmaçor foi obrigada a "encostar" o Expresso do Triângulo, tendo de cancelar, em plena época alta, as ligações com a Terceira e reduzindo as ligações entre São Jorge, Pico e Faial.

A licença de navegação caducou e a embarcação tem de sofrer obras no casco. Entretanto, também o outro navio rápido da empresa aguarda licença para navegar. Nada de surpresas. Tratam-se de datas previstas e conhecidas, que chegaram sem que nada fosse feito. É caso para perguntar: Que raio de gestão é esta???

Apesar dos avisos e alertas que recebeu, o Governo Regional também nada fez. Estas questões têm de ser planeadas e executadas com tempo. Não podem correr atrás de calendários de investimentos eleitorais.

Será assim tão difícil entender que os transportes marítimos são provavelmente o sector mais importante para o desenvolvimento dos Açores?

combater o desemprego rosa


Algum jovem socialista quer ser "Gestor de Projecto" nos Gabinetes do Empreendedor?

Temos vagas!

a passar por cima...

…da crise, anda o senhor Ministro das Finanças, quando ao mesmo tempo que a OCDE lhe carrega as tintas para Portugal, ele as vai apagando e anunciando para este mês os primeiros sinais do seu fim (César já apontava a mesma data há uns meses atrás, recorda-se caro Leitor? Valha-lhe a notável capacidade de antecipação…). Por via das dúvidas, não vá o diabo tecê-las entretanto, e porque cada ministro de há uns tempos a esta parte passou a dizer a sua, o das Obras Públicas, em simultâneo, logo aprontou os anúncios sucessivos do adiamento do TGV e do novo Aeroporto de Alcochete…(Já se sabia que “Alcochete, jamé!”, não é verdade?)

A passar por cima da crise andam igualmente, segundo estudos divulgados num jornal nacional, os portugueses! Pobres e felizes, é assim que hoje se sentem! Já Salazar os queria pobres, asseados e ignorantes. Trata-se, convenhamos, de uma evolução assinalável, desde então...

A passar por cima das nossas cabeças, e muito provavelmente por cima da competência dos governantes regionais, de acordo com notícias vindas dos EUA, andam já a voar os caças F 22 no seu “quintal” do Atlântico. É compungente ouvir o Secretário da Presidência do Governo Regional, cada vez que lhe fazem perguntas sobre o assunto. Não se cansa de dizer que nada foi negociado até à data e, perante as notícias anunciando a chegada dos caças já este Verão, diz que tem “quase” a certeza de que isso não acontecerá! “QUASE”? Afinal qual é o papel do seu Governo, senhor Secretário? Parece-me óbvio que a lealdade institucional da República e a soberania desta, se praticadas, dispensariam com certeza esse “quase”, o que nos deverá então deixar seriamente preocupados quanto à forma como o actual Governo da República encara estes princípios basilares do Estado.

A passar por cima da economia regional, depois de ter ido (e de continuar a ir) às algibeiras do orçamento público absorver milhões a fundo perdido (em hotéis, restaurantes, casinos, múltiplos programas e outras comparticipações), anda o turismo. Com o número de dormidas em baixa continuada desde 2005, incapaz de contribuir para a criação de emprego minimamente estável e digno, e a pesar uma insignificância de 2,8% na balança das receitas, confirmam-se as vozes que aconselharam desde o início à prudência aqueles que pretendiam transformá-lo em alternativa sustentável da economia regional. Ninguém de boa fé fica satisfeito com estes resultados, mas que as cabeçadas depredadoras do orçamento público foram muitas e desnecessárias em direcção a um sector, ansioso de (impossíveis) resultados instantâneos, pouco fidelisável apenas por factores internos significantes, com forte concorrência já antes instalada a nível externo, e em declínio mundial devido à crise dos combustíveis, não tenhamos dúvidas!

Além do investimento público directo e apesar das dificuldades, salva-se afinal, com dimensão significativa, aquele para quem o poder regional, e interesses mais ou menos bem intencionados, chegaram a tramar o fim, para dar lugar ao turismo: o sector do leite e lacticínios. Numa situação de fortes vantagens para a indústria, contrastando com o agravamento da exploração dos produtores, chegam entretanto potenciais sinais positivos que (momentaneamente?) poderão restabelecer algum equilíbrio a favor destes últimos. Mas, a semelhança com os casos de indemnizações pagas por despedimento é gritante e atira-nos a economia para o cinzento escuro se, paralelamente com os 20 milhões anunciados para o sector, não forem na UE dirigidos até ao fim, pelos responsáveis regionais e nacionais, os esforços de manutenção do actual regime das quotas leiteiras.

Ou será que também isso nos irá passar por cima?
Mário Abrantes

muita lucidez

O Modelo de Desenvolvimento dos Açores sempre foi assumido por pessoas que consideravam a agropecuária como um sinal de subdesenvolvimento. É essa mesma gente que julga que ficamos melhor servidos com concessões monopolísticas nos transportes aéreos e regulações fortes nos transportes marítimos, não querendo perceber o que isso impõe de restrições ao turismo e o que isso aumenta os custos de transporte. Para além disso não se importam de vender direitos de exploração do mar vagamente compensados com dinheiros para vias rápidas, não têm preocupação em alienar direitos de produção da terra (subjacentes às quotas leiteiras) em troca de passeios às Canárias com verbas do INTERREG, nem se preocupam em desbaratar os direitos de exploração do ar, que vão para a FLAD e para os aeroportos que concorrem com os nossos, desde que se garanta a pensão dos trabalhadores existentes na Base; até a mobilização e fortalecimento do capital humano existente na universidade é tantas vezes desprezado por desvios de fundos para feiras de importadores e festas de alienados. em suma, o potencial de desenvolvimento dos Açores tem sido hipotecado por governos tacanhos e por empresários dependentes; também pelo estado e pela europa, que têm medo do sucesso das ilhas quando esse sucesso acontece, como acontece na Madeira.

Embora não concorde com tudo o que diz, tenho de reconhecer que a entrevista do Tomaz Dentinho ao Diário Insular tem algumas palavras de grande lucidez. Vale a pena aprender com elas.