Mas procurando pôr de parte a emocionalidade que as palavras de DO me geram, importa analisar com mais cuidado alguns dos seus argumentos.
Diz DO que "desde que Jerónimo de Sousa e um grupo de quadros comunistas que até então se mantinha na segunda linha tomaram a liderança do PCP" o Partido "estancou a queda eleitoral e empobreceu drasticamente a qualidade dos seus quadros." Passe a avaliação que DO faz sobre o que nitidamente pouco conhece, importa relembrar que o PCP não apenas estancou a queda eleitoral, como tem experimentado um vigoroso crescimento eleitoral que há muito não experienciava, como é comprovado pelo aumento de 70.000 votos nas últimas eleições europeias.
Continuando na senda do insulto gratuito, DO procura em seguida invocar o nome de grandes parlamentares comunistas (de entre os quais estranhamente se esqueceu de mencionar Luís Sá ou Carlos Carvalhas), para tentar menorizar a intervenção de parlamentares da qualidade técnica e política de António Filipe, Honório Novo ou Bernardino Soares e ignorar o valor que os novos e jovens deputados do PCP, como Miguel Tiago ou Bruno Dias, trouxeram ao hemiciclo e o contributo que acrescentam à bancada comunista.
DO, como alguma gente dentro do Bloco de Esquerda, tem muita dificuldade em perceber como é que um Partido Comunista possa ter uma liderança que não seja composta exclusivamente por intelectuais. Essa dificuldade não é de estranhar num partido (ou coligação?) que há mais de dez anos é conduzida pelo mesmo reduzido directório cujo único prestígio reside nos seus incontestáveis méritos académicos. Mas, a dificuldade advém, sobretudo, do facto de laborar num erro: o de confundir o grau de escolarização, erudição diletante ou cultura pessoal com o grau de consciência social e política.
Da mesma forma, laboram em erro idêntico os que identificaram o Sector Intelectual com o sector que tem a incumbência da produção teórica dentro do PCP. Trata-se, de uma estranha e velha distorção do pensamento marxista que tenta separar o que por natureza é inseparável: a teoria e a prática. Como se tivesse sido apenas pela contemplação teórica do capitalismo que os trabalhadores se armaram com a doutrina revolucionária que conduzirá à sua superação! DO menciona os nomes de Lenine, Gramsci, Carrilho, Castro ou Cunhal. E seria bom que os lesse não como sistemas abstractos e acabados, mas sim nas pistas e nos desafios que lançam para a acção.
Ao contrário do que pensa DO, no PCP, todos os militantes constroem teoria, através do seu estudo e experiência pessoal e mútua, partindo da análise dos problemas reais, na discussão e construção da opinião colectiva: a síntese que, solidamente ancorada na realidade, permite ao PCP entender os problemas e propor soluções para os problemas do nosso tempo, sem perder de vista os objectivos fundamentais no horizonte.
Não nego, como poderia?, que alguns militantes, porventura, subvalorizam o
s deveres consignados na alínea i) do artigo 14º dos Estatutos do PCP ("procurar elevar o seu nível cultural, político e ideológico"), ou os da alínea e) do mesmo artigo ("aprofundar o conhecimento do meio em que se desenvolve a sua actividade e transmiti-lo ao Partido, reforçar a sua ligação com os trabalhadores, com outras camadas laboriosas e as populações, defendendo as suas justas reivindicações e aspirações;"). E que essa é uma atitude que deve ser criticada. Mas não parece intelectualmente honesto que se tente confundir a árvore a árvore com a floresta. Até porque este dever, mais nenhum partido (ou coligação?) o tem inscrito nos seus documentos fundamentais.
A já longa sobrevivência PCP deve-se ao contributo de gerações de homens e mulheres que generosamente dão o melhor da sua experiência e conhecimentos a uma causa de séculos. E, nesse contributo, todos são iguais. Sejam doutores ou não.