domingo, 10 de janeiro de 2010

viver entre muros

Israel vai construir vedação na fronteira com o Egipto

uma atitude característica de um Estado (não um país) que opta por viver em conflito continuo com os seus vizinhos, de costas voltadas para o mundo, gerido por governos que precisam da guerra permanente para fundamentarem o seu poder autoritário. Mais do que proteger ou separar, os muros servem para instilar o medo. Um medo que se vive igualmente dos dois lados da parede.

Cercados de muros, os horizontes das crianças israelitas serão cada vez mais estreitos e apertados. Que futuro irão construir?

sábado, 9 de janeiro de 2010

premiar a má gestão

Verde Golf recebe 83.000 euros de subsídio para manter postos de trabalho

Estou de acordo com a necessidade, no actual contexto, de medidas proactivas de defesa do emprego e também não me choca nada que o Governo intervenha directamente ou mesmo que subsidie.

Mas arrepia-me que nos Açores se continue a premiar a má gestão, como neste caso, em que uma empresa que beneficiou de todo o tipo de apoios, incentivos e facilidades conseguiu desbaratar o seu capital e enterrar-se nos seus próprios greens. Se calhar a prioridade estratégica ao turismo golfista não foi assim tão boa ideia...

A coisa torna-se triste quando pensamos na quantidade de pequenos empresários, empenhados e conscienciosos, que não têm a mínima hipótese de fugir às sua obrigações e para os quais não existem nem apoios, nem benesses, nem padrinhos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

água alta



Preço da água nos Açores vai aumentar

As alterações legislativas que visam preparar a futura privatização do sistemas de captação, tratamento e distribuição de água estão a começar a dar frutos.

De facto, no âmbito da chamada "Estratégia de Lisboa", do tempo de António Guterres, várias directivas europeias têm sido transpostas para a legislação nacional no sentido de acabar com as disparidades no preço da água de concelho para para concelho., forma de criar um "mercado da água" que seja interessante para o investimento privado. Como se calcula, neste caso, não se vai nivelar por baixo, mas sim por cima.

Nos Açores, com sistemas de captação complexos e dispendiosos, com situações de carência de água recorrentes, a coisa vai funcionar ainda pior... e os preços serão ainda mais altos. A Câmara de Angra já está a preparar o terreno para esses aumentos. Outras se seguirão.

Qualquer dia começam a taxar o oxigénio que respiramos. A água é um direito humano dos mais básicos. Não pode estar sujeita aos critérios economicistas do lucro privado!

política do real

(clique na imagem para ampliar)
Cláudia Cardoso, no AO, continua em grande forma! Duas afirmações a reter: Os arrufos entre o PM e o PR provêm de "tabefes que ficaram por dar" e a República não pode "deambular pelos salões aflita porque perde à canasta". Há um mundo real e uma política real que falta fazer. Assino por baixo.

valeu a pena (actualizado)

Acordo põe fim a quatro anos de conflito entre Governo e professores

Que ninguém se engane: a vitória conquistada ontem pelos professores não resultou de nenhuma benesse vinda da generosidade de José Sócrates. Não. O PS não fez nenhuma profunda reavaliação e concluiu que afinal não tinha razão na sua teimosia. Não.

O que os professores conseguiram ontem conquistaram-no nas ruas primeiro e nas urnas depois. Não tivessem eles conseguido das maiores mobilizações do pós 25 de Abril e o resultado teria sido diferente. Não tivesse o PS, também por força da luta dos docentes, perdido a sua maioria absoluta e Isabel Alçada seria apenas a fotocópia renovada de Maria de Lurdes Rodrigues. É importante não esquecer. E também lembrar que lutar vale a pena!

Actualização:

Para calar a boca aos que acusavam os sindicatos de professores de terem "exigências impossíveis" ou de "não quererem ser avaliados", vale a pena clicar aqui e ler o acordo que foi ontem assinado com o Ministério. Afinal porque é que José Sócrates recusava isto no anterior Governo?

Via: Navegador Solitário

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

alguns deputados são mais iguais do que outros

Pelo menos sete deputados PS vão poder quebrar disciplina de voto

No Grupo Parlamentar do PS alguns deputados são mais iguais do que outros. alguns têm de cumprir a disciplina, outros são suficientemente notáveis para ganharem o direito de a quebrar.

Para além de ser a forma possível de lidar com a misturada ideológica que constitui o seu grupo parlamentar, o PS continua, assim, a manter um difuso e confuso ar "de esquerda", aliás uma postura que lhe é característica e que vai ainda iludindo alguns desatentos. Até quando?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

a retoma... do combate ao défice

Victor Constâncio, fazendo jus aos seus pergaminhos, como irrepreensível delegado e promissor candidato à Administração do Banco Central Europeu, justificando obviamente na íntegra o ordenado de quase 18 000 euros (3 600 contos) que os portugueses lhe pagam mensalmente, decidiu informar quem lhe paga esse ordenado que este ano, tendo em conta a recuperação económica (…da banca), é “imperativo reduzir o défice público, e para isso deverão ser tomadas as medidas que forem necessárias, quaisquer que elas sejam”.

Ora, deste sapiente recado, fica-me uma dúvida metafísica:

Se o governador do Banco de Portugal não anunciou qualquer baixa no seu ordenado; se o silêncio cúmplice entre Sócrates e Cavaco, com a furtiva e rapidíssima reprivatização do BPN, acrescentou muitos milhões ao défice público; se, apesar de arguido em matéria competente de tais funções, Armando Vara voltou a ser consultor do BCP, mantendo o seu ordenado mensal de 34 000 euros (6 800 contos); se, como ainda afirmou Victor Constâncio, o modelo do sistema bancário português (português?) não deve sofrer grandes alterações; se, como afirmou em simultâneo o Presidente da Associação Portuguesa de Bancos, os lucros dos bancos têm de continuar a subir, e se as transacções milionárias da bolsa de valores vão continuar a não ser taxadas, a que “medidas necessárias”, para baixar o défice, se referiria então o nosso governador? “Quaisquer que elas sejam”, como ele advoga? Não será talvez tanto assim, pois aquelas que moralizam super-salários e super-lucros, como se deduz do que foi exposto, estão excluídas à partida.

Resta, portanto, para reduzir o défice público, aquilo que Victor Constâncio não se atreveu desta feita a mencionar expressamente, isto é, cortar (mais uma vez…) na “outra” parte, nos “outros” salários e nos “outros” rendimentos: os de quem trabalha e produz, de quem já trabalhou e produziu e os de quem se prepara para vir a trabalhar e produzir!

E duas certezas me ficam:

1. Victor Constâncio, pouco se importando com o que deixa atrás (como fez Barroso), está já de partida para o Banco Central Europeu, ou então começa a não saber o que diz. Ter-se-á esquecido que com estas “medidas” consecutivas, aplicadas sobre quem lhe paga (e ainda não se livrou da crise), qualquer dia vai ficar com os ordenados em atraso, ou vai mesmo ter de ir bater à porta do fundo de desemprego?

2. Se, ateando o fogo a si própria, a Banca arde, o défice (antes controlado ao limiar do sufoco) pode afinal derrapar até onde for preciso (já vai em mais de 8%, e sempre na boa). Se a Banca começa a renascer das cinzas, depois do seu fogo apagado pelos milhões de todos nós (e há quem acrescente outros milhões de lavagens), é a própria incendiária que, atrelando-se ao poder, exige a imediata e imperativa retoma do combate ao défice, mesmo que tudo o resto continue a arder em danos colaterais...

Em Portugal quem manda, manda!

Mário Abrantes

nivelar por baixo


O nosso Governo Regional continua, a cada passo, a provar a sua coerência. Para resolver os problemas dos Açores, nada como nivelar por baixo! Há falta de médicos de família? Então a solução mais prática e barata é a de aumentar o número de utentes por médico, ao arrepio das recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Apesar de o Açoriano Oriental anunciar em título que vêm mais 37 médicos para a Região, lendo a notícia vemos que afinal para já são só 20 e que, destes, apenas 6 são médicos de família. É o que se chama não sair da cepa torta, especialmente se tivermos em conta que faltam cerca de 50 médicos de família nos Açores, de acordo com o Diário Insular.

Temos muito que agradecer a Cavaco Silva (e também à sua ex-Ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite), mas também a António Guterres por aqui há uns 13 anos atrás se terem lembrado que limitar o número de vagas nas faculdades de medicina era uma boa maneira de poupar uns cobres ao erário público. Muito obrigado!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

pesada sazonalidade


Quatro unidades hoteleiras de S. Miguel, representando cerca de 10% das camas disponíveis nesta ilha dos Açores, estão encerradas temporariamente, numa solução para reduzir as despesas face à diminuição da procura na época baixa.

A sazonalidade é um dos factores que primordialmente prejudica o nosso turismo e a nossa economia. Contra circunstâncias climáticas e condições naturais há pouco a fazer. Mas poderiamos talvez fazer mais. Ficam-me as perguntas: valerá a pena concentrar na época alta o grosso da oferta cultural da região, em termos de espectáculos e concertos, por exemplo? Não valeria a pena usar um marketing mais agressivo com reduções significativas para atrair hóspedes na época baixa? Não valeria a pena termos a SATA a fazer ligações aéreas a baixo custo nesta altura?

Não haverá mesmo nada a fazer?

promulga e não bufa


Apesar das tentativas de dramatização e crispação artificial entre o PR e o Governo, a verdade é que, nas questões fundamentais, continuam perfeitamente alinhados. Ainda mais neste espinhoso caso do BPN que envolvia também figuras importantes do PSD. O centrão tem pressa de enterrar o assunto e esquecer os 1.800 milhões de euros que custou aos contribuintes.

Essa clivagem aparente, encenada para encher páginas de jornais, é útil tanto para Sócrates como para Cavaco. PS e PSD precisam agudamente de acentuar as suas vaguíssimas diferenças para que os portugueses continuem a pensar que um é alternativa ao outro.

Uma estratégia que funciona cada vez pior.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

cedo de mais



A cantora Lhasa de Sela deixa-nos apenas três discos, morrendo aos 37 anos de cancro da mama. Injustiças intoleráveis.

sem alternativa


O desemprego vem agravar ainda mais as difíceis perspectivas dos que procuram a reabilitação e reintegração na sociedade.

A obrigatoriedade dos grandes concursos públicos internacionais orientados para as grandes empresas prejudicam a capacidade de intervenção dos municípios que, mesmo a um nível micro, podem fazer toda a diferença para as pessoas envolvidas.

Para os ex-toxicodependentes, há muito que deixou de haver alternativas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

emissões de hipocrisia

A época está eivada de religiosidade e, mesmo os menos atreitos a esta, têm dificuldade em vivê-la sem que tal religiosidade os envolva. Quanto mais não seja apenas por fora, como papel de oferta (que, não só do ponto de vista comercial, diga-se de passagem, também abunda por esta altura…).

Talvez por isso, apesar de simpatizar mais com as de João XXIII, me tenha lembrado de respigar de Bento XVI uma interessante ideia-tese, enunciada na recente cimeira da FAO que decorreu no mês passado em Roma: “É preciso contestar o egoísmo que permite à especulação penetrar mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias”. Diria que com esta ideia (em tese pelo menos) o Papa estabeleceu involuntariamente uma aliança objectiva com o pensamento marxista quando este, por seu lado, opina que só no socialismo é possível imaginar a existência da mercadoria tendo como fim imediato a satisfação das necessidades e não a obtenção do lucro. De facto, e sendo possível restringir a aplicação de uma economia socialista apenas à área alimentar, teríamos então o Papa a defender (e da forma mais rigorosa) o seu uso, para acabar com a fome no mundo. Simultaneamente, e por força de razão, porque a economia capitalista/monopolista é de momento global, compulsiva e militarmente dominante no planeta, teríamos o Papa a afirmar, e bem, que este tipo de economia é a responsável directa pelo alastramento da fome no mundo.

Ora, tendo em conta a gravidade relativa dos grandes problemas que afectam os humanos (particularmente a fome) é pelo menos de estranhar porque é que os dirigentes da comunidade internacional se estão empenhando na Dinamarca em sobrepor a todas as outras, as preocupações climáticas… Desconfio que seja porque, afugentando a consciência da gravidade do problema da fome e da miséria, e ao invés de procurar assumir, como dizia o Papa, que “a comida não deve estar no mesmo plano que as outras mercadorias”, os lideres internacionais estarão, sim, mais empenhados em enquadrar os gases com efeito de estufa, onde antes não se enquadravam, isto é, na categoria de mercadoria, em tudo igual às outras (produção de cereais incluída), como potencial geradora de lucros refrescados...

Mas fiquemos por cá onde a instabilidade social cresce, sendo detectáveis casos recentes de fome, miséria e perda de abrigo, ou índices elevados de mortalidade infantil, de marginalidade compulsiva, de desigualdades exclusivas (geradoras do aumento verificado da criminalidade), evidentes como um cúmulo assente em falências, desemprego, salários e trabalho inseguros e incertos (na construção civil ou na hotelaria), ou em endividamentos familiares, incentivados pela banca, mas agora irresolúveis.

Fiquemos pelo garrote à produção; pela criação de um fundo para o leite negada aos Açores pela União Europeia ou pela mais recente decisão da mesma entidade visando restringir a quota do chicharro. Fiquemos também pelos malbaratados dinheiros públicos; pelas doses imensas de vacinas contra a gripe A deitadas ao lixo, depois de pagas a preço de luxo; pela evasão e fraude fiscal, na ordem dos 40% da matéria colectável, e concluamos:

Num sistema, cuja própria crise actual serviu para revelar ao mundo a sua prioritária e desmesurada sustentação num curso contínuo de “dinheiro que corre para o dinheiro”, em que as funções do Estado só se alargam para prover a que a fonte desse curso não seque (enquanto se retraem em todos os outros sentidos mais necessários à satisfação das necessidades humanas), por melhor boa vontade que haja, nem a fome acaba nem há espírito de Natal que resista intocável à hipocrisia dos seus dirigentes que se preparam para daqui a uns dias o vir re-invocar em mensagens televisivas de final de ano…

Mário Abrantes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

vai tu!

As declarações do Sr. Horácio Roque mostram também a forma desumana como os nossos capitalistas encaram os portugueses: se dão lucro, tudo bem. Senão, rua! Nada de ficarem por aí a gastar o dinheiro do estado em prestações sociais! Ideias ou rumos para superar a crise: zero.

Um país deixa de ser viável quando não consegue garantir aos seus cidadãos o direito de viverem condignamente no seu próprio território. Um banco também, quando tem um presidente deste calibre.

E se sugeríssemos ao senhor Horácio Roque que desse o exemplo e se pusesse rapidamente a andar?

na linha da frente


Entre os 30 países analisados no relatório da OCDE, com maior desemprego que Portugal, só mesmo Irlanda, Eslováquia e Espanha.

Um resultado inevitável da abertura imponderada da nossa economia e das "apostas estratégicas" de abandono dos nossos sectores produtivos tradicionais, em prol de supostas especilizações que nuca chegaram a acontecer. Com uma economia frágil e dependente como a nossa, que outra coisa seria de esperar? Os partidos políticos que nos governaram nos útimos 30 anos têm pesadas responsabilidades históricas para assumir.

Catalunha


Se, por um lado os esmagadores 95% do sim são reveladores, por outro, a abstenção superior a 70% também mostra o distanciamento de muitos cidadãos em relação ao tema.

Numa situação de relativa prosperidade económica, com um estatuto autonómico muito avançado, vendo os seus direitos respeitados e a sua cultura viva e valorizada, muitos catalães devem-se ter interregado sobre que sentido faria abrir velhas feridas e reacender um conflito político de consequências e resultados difíceis de adivinhar. No entanto, fica um sério aviso para os defensores da velha Espanha centralizada. Espanha tem ainda um caminho a percorrer para conviver saudavelmente com a sua própria pluralidade. Um caminho que terá de percorrer, ou desintegrar-se.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ainda se lembram de Portugal?

Muita coisa mudou na Europa com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.

A data escolhida, 1 de Dezembro, dia da Restauração da Independência é cruelmente irónica. 369 anos depois de termos recuperado a nossa soberania integral, a nova aristocracia euro-histérica e eucrocrata dá vivas à entrega de partes fundamentais da nossa independência a organismos supra-nacionais.

Especialmente perigoso é o tal mito da legitimidade do Parlamento europeu por via da sua eleição directa. Fico preocupado quando ouço Luís Paulo Alves dizer que "de uma maneira geral, o parlamento reflecte melhor o interesse das populações do que o Conselho Europeu" porque, afinal, no Conselho têm assento os governos nacionais eleitos directamente pelos seus cidadãos. No Conselho o governo português tem de defender os interesses de Portugal, enquanto no Parlamento os eurodeputados acabam na maior parte das vezes por ir seguindo o sentido de voto das suas grandes famílias políticas, na qual os portugueses têm, obviamente, um peso marginal.

Portugal é mais do que uma ideia, uma história e um povo. É triste vê-lo a ser vendido desta forma.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

definitivamente, estamos mal servidos

A informação, quando não é isenta, releva (ou não releva) factos e acontecimentos segundo critérios jornalísticos que escapam à deontologia da profissão, visando, sob as vestes da sua simples condição, atingir capciosamente algo mais do que informar. Talvez por isso, sendo notícia aparentemente obrigatória e corrente, a das eleições que se vão passando pelo mundo, poucos terão sido aqueles que, assoberbados a digerir a informação relativa às eleições promovidas pelos golpistas das Honduras, se deram conta das eleições presidenciais ocorridas quase em simultâneo em outro país da América Latina, o Uruguai, bem como daquelas outras que, uma semana depois, atribuíram quase 2/3 dos votos descarregados (63%) a Evo Morales, na Bolívia.

De Evo Morales, defensor declarado do socialismo e o primeiro índio sul-americano a ser eleito Presidente, apenas se guarda, nesta Europa da livre informação, a imagem de um estadista debilitado, com uma forte e influente oposição, num país à beira de um golpe de estado. Os resultados de dia 6 do corrente, por revelarem um “status quo” bem diferente do anteriormente anunciado, constituiriam (julgo eu) informação de relevo, no entanto praticamente passaram despercebidos…

Quanto ao Uruguai, de facto, no passado dia 29 de Novembro, um ex- “Tupamaro” (movimento guerrilheiro dos anos 60), chamado José Pepe Mujica, actualmente com 74 anos e candidato de uma formação de esquerda, a “Frente Ampla”, venceu as presidenciais à 2ª volta.

Para lá de comentar o sussurro quase inaudível que nos chegou deste acontecimento, prefiro salientar, excertos do discurso subsequente do vencedor, na senda, aliás de outro ex-guerrilheiro - Nelson Mandela, após a sua vitória presidencial: “Não há nem vencidos nem vencedores, apenas elegemos um governo que não é dono da verdade, que precisa de todos. Ter votos a mais não significa que sejamos donos da sociedade, muito menos que a nossa verdade seja imaculada. O meu reconhecimento aos outros candidatos, nossos irmãos de sangue, a quem peço desculpa se em algum momento o meu temperamento de combatente fez a minha língua ir longe de mais. A minha saudação a todos os irmãos da América Latina que representam um continente que se tenta unir como pode.” E, apesar da maioria absoluta alcançada pelo seu partido, o novo presidente, mostrou-se totalmente disposto a assinar acordos com a oposição sobre temas como a Educação, Segurança, Energia ou Ambiente, e a partilhar com ela alguns ministérios do novo governo.

Salvaguardadas as devidas distâncias político-geográficas, e tendo em conta a actual situação nacional e regional, ou recordando certos discursos debitados após o nosso ciclo eleitoral recente, algum estimado Leitor esperaria por ventura ver sair da boca de um Cavaco Silva, José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carlos César ou Berta Cabral, expressões com o mesmo sentido daquelas que atrás referimos? Mas, em minha opinião, é precisamente desse sentido humanista de raiz que o nosso comportamento e acção políticos estão carentes. É de uma outra envergadura político/partidária, não exclusivista, e de um verdadeiro espírito de servir que, sobretudo quando (como actualmente acontece) os tempos são de recessão e de instabilidade social, o País e a Região estão profundamente necessitados.

Definitivamente, estamos mal servidos…
Mário Abrantes

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

200

Ao contrário do Secretário Regional da Saúde, não me congratulo que haja "apenas" 200 casos de pessoas infectadas com SIDA na Região.

Pelo contrário, lamento o estigma, a discriminação, o abandono, a ignorância que se perpetua.

Pelo contrário, lamento o pouco apoio que têm para fazer face a despesas médicas esmagadoras, a situação económica em que são tantas vezes lançados.

Pelo contrário, acho que o Plano Regional de Combate ao VIH/SIDA vem com pelo menos uns dez anos de atraso e que vidas poderiam ter sido salvas se os nossos governos estivessem mais atentos ao problema.

Pelo contrário, prefiro prestar homenagem aos 200 lutadores que, dia a dia, lutam pela vida nos Açores.

Copenhaga pelo contrário

A Cimeira de Copenhaga até poderia ser uma oportunidade, mesmo, nas palavras dos mais catastrofistas, uma última oportunidade. Mas provavelmente não será.

A verdade é que o que se planeia na capital dinamarquesa é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Os países mais industrializados pretendem manter o conceito de mercado de emissões, que embora estando a funcionar desde 2005, não tem conseguido reduzir o nível global de emissões, bem pelo contrário. Não sou só eu que o digo.

Este mercado, comercialização da destruição do nosso planeta, ao mesmo tempo que oblitera as responsabilidades históricas dos países industrializados, permite-lhes, por um lado, comprar o direito de poluir e, por outro, abrir-lhes as portas do rendoso negócio da transferência de tecnologias não-poluentes. A uns autoriza-se o lucro, a outros proíbe-se o desenvolvimento. As questões estão intimamente interligadas.

Por isso, a Copenhaga de que precisamos não pode ser apenas a demonstração de tíbias boas vontades e o derrame público de bem remuneradas lágrimas de crocodilo. Pelo contrário.